quarta-feira, 6 de julho de 2011

Águas de cabeceira




       Era Maria, a mãe. Aparecida. Da filha, um nome que não se lembra, por
certo Maria.
       O casebre avizinhava um pequeno rio, quase sem nome, esquecido de
mundo, quase de gente. Talvez se chamasse cana brava, talvez Santa
Maria.
       Foram ao vizinho, do outro lado, ali não muito longe, depois do
corguinho. Carecia limpar o arroz no pilão emprestado que era, pobre a
vida. Com a força do braço, pilão, peneira, socador e destreza, no
afastado de possibilidades, cumpria-se viver, difícil emaranhado.
       Terminada a tarefa, voltavam uma hora qualquer, de certo não de
manhã. Das três crianças, uma segura no braço; uma caminhando seguro;
a outra segura de dentro da barriga. A peneira-de-abano cobria o arroz
na bacia. Nem tinha mesmo chovido, mas o dia vinha teimoso de
chuvisco.
       Na beira d'água, depois da curva do rio, pousou as crianças. A
maiorzinha mantinha a vigília. Atravessou primeiro o arroz e as
vasilhas, com os cuidados que aquele tempo exigia. Voltou para buscar
o casalzinho de meninos. Agarrada às mãos da mãe, a maiorzinha
acompanhava-lhe os passos para a travessia. O menor de todos, seguia
nos braços, agarrado ao pescoço materno, esganchado sobre a curva da
barriga, onde o futuro, de meia dúzia de meses, parece que dormia.
       No meio do vau, a pouca água virou grande rio. Uma cabeçada veio de
repente. Tanta água era sem aviso. A mãe, tomada ao pouco saber que
lhe cabia, rodou um certo tanto, apertando com força os filhos.
Agarrou, no desespero, um pedaço de barranco, galha, ramo, o que se
via e não se via.
       A vida ficou em suspenso, num instante quase não percebido.
       Na outra mão a mão vazia. A maiorzinha escapulira.
       Melhor inventar, nessa história, um certo alívio. A mãe, arrastada
pelas águas, e duas crianças ainda existiam. Estavam ali, de algum
modo, vivas. Arrastadas pelas águas, jogadas, meio que por milagre, na
improvável margem. Perdida a cria, sabia-se agora a dor mais doída.
       Da garganta saíra, tímido, o primeiro grito.
       A distância, pouca, donde se dando um grito se ouvia, trouxe, não se
sabe com que força e voz, o vizinho. Com ele, o intento de alguma
valia, de algum socorro possível que, no fim sem fim da boa
humanidade, acabou que de nada serviu.
       Sobrara José, que dos braços e da sorte se valera, ou quem sabe de
algum dó divino. E ficou Perpétua o nome que se daria à menina ainda
não nascida.
       De mãe que nunca tivera muito, só mais ou menos se sabia algum
conforto, qualquer pequena alegria. Entendia só mesmo do simples da
vida. Ficou, parece, um tanto mais incerta, meio que sem norte, um
pouco mais sofrida.
       Ao longo do seguinte dia, um pescador, distante do acontecido, achou,
primeiro os cabelos compridos à beira do rio. A meninazinha, tão
bonita, um corpo sem vida. Soubera do povo reunido, procurando pela
noite, pelo resto do dia, a menina entregue às águas, na culpada
lembrança das mãos da mãe que sofria o desgosto, inseguro, da vida.
       Era Maria, a mãe. Aparecida. Da filha, um nome que não se lembra, por
certo Maria.


       Márcio Ares. 2010.

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