sábado, 30 de julho de 2016

CARNAVALESCOS



estivemos anotados no tempo
alheios de antigos segredos
sob a máscara do inventamento
exorcizamos o medo
vestidos de fevereiros
no passo da evolução

Márcio Ares. 2016

DESCRIÇÃO



quase num livro aberto estou
numa página, deserto
na outra página, amor
num texto que amo, incompleto
no jeito deserto, o que sou

Márcio Ares. 2016

NENHUM RANCOR



amo  os que amam em silêncio
e os que, muito por acaso, odeiam sem alarde
amo os que se abraçam demoradamente
e, mais que nunca, feito gente,
saibam, sempre, ser amados

Márcio Ares. 2016

DESGARRADO



eu quero um Deus para os meus domingos
ser feliz igual a toda gente que se faz feliz
encontrar um lugar, uma fé, aquietar o espírito
desacontecer entendimentos
e me entender comigo

Márcio Ares. 2016.

CULPADO



a razão da minha vida não está na alegria lá de fora
está no livro à minha cabeceira
nas memórias a que estou sujeito
no meu difícil caminho entre a cama e o banheiro
nos comprimidos de hora em hora
nesse romance de eterno recomeço e um milhão de paradas
nas páginas em branco agora já tão sem jeito
na força que acelera o fôlego para dobrar o travesseiro
no meu olhar para o nada

não, a razão da minha vida não está na alegria lá de fora
está no amargo que se enamorou de uma existência maior
até eu ficar  velho muito cedo
até o fim mais triste que eu bem sei agora

Márcio Ares. 2016


INTRADUZÍVEL

só o deserto me traduz
com sua noite enorme, demasiado fria
calor nos olhos de matar a alegria
horas de sede que sempre se renovam
grãos de areia ao vento
longe, e ainda mais longe, o vazio onde moro
seco, sozinho, incerto
o inferno mais dentro

Márcio Ares. 2016