quarta-feira, 13 de julho de 2011
Ancestral
A noite passada, estive louco.
Estava sozinho em casa, tinha motivos para a paz comigo, mas estive louco. O sono escapava de medo sob tantas imagens amargas e embaralhados pensamentos ruins. A minha cabeça era bomba nuclear a ponto de me fazer para sempre vítima de sua contaminação atômica. Enquanto a madrugada se arrastava com seus pântanos de sonhos fatais e suas guerras contra indefiníveis monstros, precisei de um banho. A água fria escorrendo pelo meu corpo, a vontade urgente de pensar só depois. Por que os fantasmas nos atacam na melhor das horas para um sono de paz?
A amiga que me telefonou logo pela manhã - terá ela adivinhado minha carência de socorro? – perguntou-me se fora um banho com roupa. Hum? Por acaso estava sem roupa, respondi. Ao que ela me disse que eu tinha sido comum como toda a humanidade comum que se banha sem roupa. Salientei, no entanto, que se estivesse vestido, teria me furtado à destreza suficiente para despir-me naquela hora sangrenta de insônia alucinatória. Acho que você deve se casar, disse ela. Então, teria alguém para me tirar as roupas. Nova interrogação assomou à minha consciência ainda cansada e mal dormida, sem que eu entendesse a alusão à nudez ou a discussão sobre minhas vestes.
A que ponto chegou a instituição casamento? Perguntei-me, algum tempo depois. Terá ela se igualado ao limite da capacidade oportuna de se deixar alguém nu para um banho que lhe pudesse recobrar um pouco de sanidade na profusão dos contratempos de uma noite sem fim? Ou então à chance de se ter um psicanalista na mesinha de cabeceira, à mão para qualquer eventualidade ou desassossego? Dividir a loucura é muito longo para a mesquinhez de vidas tão estreitas. Tudo, exceto as horríveis horas dessas madrugadas ruins, é demais ligeiro. Tudo é sem jeito porque estamos irreparavelmente sem conserto. E o que está partido não está no outro, senão dentro de nós mesmos.
Um banho, uma consulta, um conselho, uma oração ou um resto qualquer de sanidade para dizer ao inoportuno que pelo menos volte mais tarde é tão somente o desespero de se estar vivo; exposto ao dia que se foi, indisposto com o dia que não chega; sem nunca saber, de fato, a que veio esta forma humana de vida suspensa no mais escuro e inominável medo.
Márcio Ares. 2009.
Um par de asas
Há dias, ela permanece ali, na aba da janela, num silêncio respeitoso.
Não estou certo de que ela se reconheça uma lepdóptera. Não posso afirmar que ela já saiba da transformação. Nesse tempo recém nascido de um mundo para pouca existência, ela permanece pousada, quieta, talvez indiferente. Faltam-lhe, quem sabe, a coragem para o entendimento ou a compreensão das novas possibilidades. A fé não interrompe o temor do mundo ainda por se libertar.
Se, de repente, em lugar de pés me ocorressem asas, e ao invés de vagarezas me fosse dado o céu, também eu me entregasse ao sem fim letárgico para a aprendizagem da vida. Saber sobre si mesmo é uma descoberta contínua, um exercício inquieto de experiências que se mesclam de alegria e medo. Muito mais que de grandes certezas, viver é feito de pequenos pedaços.
Eu já adivinhava sua existência desde que ali chegara, ainda larva, com a paciência dos predestinados. Senti-me honrado em ceder minha casa para outras moradas. Fui feliz no encontro com aquela promessa de vida. Fiquei quase anjo anunciando a graça.
Depois, ao sopro dos ventos ao fim da tarde, o vai-e-vém do casulo cumpria com a gestação de futuras asas, desenhando seus matizes pelo ninho ensimesmado. Aproximava-se o tempo majestoso de cor e liberdade, a hora para o mundo.
Eis que a pequena criatura não entendeu o milagre. Há dias, ela permanece ali, na aba da janela, num silêncio respeitoso. Não há motivo que lhe conquiste a crença de poder voar. Existir assim, tão sem pressa, parece amor que não se acaba. E vai ficando aqui, enfeitando meu lugar. Um naco de primavera alheio de seus iguais, esquecido de outros ares, lembrando o meu olhar de amor no momento de sua chegada. Tão curta a vida e ela não quer céu nem sol. Não quer outro lugar.
Acho que essa borboleta enamorou-se de mim.
Márcio Ares. 2008.
terça-feira, 12 de julho de 2011
Na alameda de um certo Carlos Nunes
Há lugares mágicos que só por meio de amigos da gente tornam-se reais. E há amigos reais que, por serem mágicos, tornam os lugares um pouco da gente.
Lugares de aconchego, original e copiado, onde os domingos são sem tamanho e nos dão fôlego para a pressa das grandes cidades. Lugares que nos dão o ar para a vida que se quer vivida e transparente, cheia de amigos, prosa e poesia. Lugares de cumplicidade.
No recanto de um vale, há pouca distância, e depois da neblina, apruma-se a alegria do encanto. O cenário compõem-se de uma calma infinita, onde o tempo esquece o fim do dia e a gente vai ficando mais gente, ficando mais tempo, ficando, ficando...
Depois das curvas de dentro da serra, e além da serra, a viagem é dentro da gente. A paz é esse pouco de Deus ao nosso alcance e essas horas de encontro com o sentimento. E, para a alegria de um mundo às avessas, onde as memórias só têm o gosto do longe - e para que o instante seja mais pleno – salva-se, ali, um pouco de esquecimento.
Posso adivinhar, nas memórias de meu amigo, um olhar de propriedade sobre si mesmo. Com os pés largados pelo chão, alma livre e coração solto, ele se faz um entendedor de silêncios. Prepara os ritos feito pássaro retomando o ninho, ensaiando vôo até o sossego da razão, num retorno ao tempo antigo de ser feliz além do entendimento.
Ali, descansam as cores, quase à toa, não fosse a força da espécie na pretensão da existência.
Ali, descansa o ator, o homem de negócios, o menino de antigamente. Às vezes, um homem cansado e – muito raro – um homem descontente.
Ali descansa o momento mágico do olhar que ainda sabe o tanto que nos falta e a graça que nos cabe no instante presente.
Há lugares mágicos que só por meio de amigos da gente tornam-se reais. E há amigos reais que, por serem mágicos, tornam os lugares um pouco da gente.
Márcio Ares. 2010.
De casco a rabo
Foram trazidas por desejo. A solidão cristalizada em seu desapego aprendido fazia cada vez mais distante algum envolvimento, qualquer outro querer. Sua indiferença lhe convinha à incompreensão do amor. Morava só. Não tinha uma casa propriamente dita, mas um barracão de boa estrutura, embora sem muita alegria. Estar distante e só não lhe parecia um árido caminho. Gostara delas, no entanto. Vieram, as duas, ainda pequenas, mas muito bonitas, verdinhas, verdinhas. Nunca antes imaginara, é verdade, trazê-las para morar com ele, até imaginar o silêncio conveniente de serem amigos.
Pareciam, no entanto, desaprender, a cada dia, qualquer vínculo de amizade, qualquer contrato da boa convivência, um mínimo princípio para com o novo lar e o novo amigo.
É certo que nunca antes ele se doara a alguma amizade contínua. Tivera, nos tempos da infância, apenas um frango que se pôde chamar grande amigo. O frango parecia gostar de histórias. Assistiam juntos, do sofá da sala, aos programas de final de tarde, na televisão. E era o Sítio do Pica Pau Amarelo o programa preferido.
Eis que um dia o menino descuidou-se do amigo. O imprudente frango, travesso que era, caíra na privada, donde fora retirado, quase morto, com algumas penas arrancadas e uma asa meio caída. Mancou depois por longos dias - nem se sabe se pela queda ou se por algum outro inusitado possível. E embora uma suspeita o acompanhasse vida afora, já não se recordava por que motivo triste afastaram-se na vida.
Agora, num arremedo de memória, investia outra vez na conquista de amizade tão singular. Quando chegaram, estavam calmas e não se mostraram deslumbradas. Também não demonstraram desgosto, nem se abateram com mudança tão repentina. Vieram mansas e cuidadosas, educadas para serem boas companhias.
O tempo, no entanto, não cumpriu com o amor esperado nem as tornou mais amigas. Eram duas desavisadas. O olhar de amizade não as aquietava. Não se importavam com as ternuras que lhe eram destinadas nem com os carinhos que lhe eram oferecidos. Inventavam caminhos sem rumo e não se importavam para onde iam. Planejavam, sem nenhum cuidado, suas loucuras pela casa. A altura dos móveis não lhes dizia nada. O terreiro não lhes impunha qualquer destemor. Nenhum perigo servia-lhes de alerta para a vida. O aquário onde ele as punha, para a natação ou rápidos mergulhos, era de onde sempre fugiam. E se o escuro não lhes tirava o rumo, a claridade não lhes dava melhor destino. Muito antes que o amor existisse, desaprenderam-no sem qualquer aviso.
De coração miúdo, doou-as à esposa de um grande amigo, na esperança de que elas descobrissem o sentido de amizade, ou que ao menos se entendessem melhor na vida. E eu até hoje imagino que aqueles dois quelônios foram o seu porquinho da índia.
Márcio Ares. 2009
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Promessa
O que é que se pode fazer, Clarice, com a noite
enquanto o indizível aguarda, lá fora, na infinita escuridão?
O que é que se pode contra o medo e sua antiguidade?
Se a invenção de ser feliz não pode menos que a noite
- essa dúvida sem quando na inquietude da espera –
o que é que se pode contra a morte?
Alegria ridícula viver ofendido e pisado para o extremo de um instante sem piedade.
O que nos acontece, afinal, para esta solidão que não se pode dar, para este medo sem nome?
A marca da ausência atravessa os dias.
E só tu, Clarice, poderias entender este silêncio, esta miséria e este abandono,
essa falta de quem saiba o tempo das sombras
para que eu entenda a noite da vergonha inútil.
Porque tudo é quando se pode
e o que não se sabe existe é sem tamanho.
Márcio Ares. 2009.
Desamparo
Nesta longa e fugaz viagem
entrefecho os meus olhos para que os carros corram mais rápido
para que o vento seja salgado
e para que o dia possa nascer como tu o disseste:
a ternura a caminho do mar
em meu coração ainda brusco e selvagem
O amor de não saber entre dentes despe o mistério.
O longe, tão longe, agora mais perto
tornou-se a escuridão indefesa de longos corredores sombrios
e o desespero da angústia das salas de espera.
O que era dilatou-se ao longo da viagem
e nem mesmo tu, minha amada Clarice, o tomaria de volta
sem que se gastasse também o amor da palavra
O céu e a terra engoliram os beijos de minha mãe
e, antes que eu soubesse o que podia tanta dor,
no branco de meu rosto descubro o exato gosto do mar.
Só o vento, agora, faz carinho em meus cabelos
e aquela coisa quase engraçada, horrível dentro do peito,
como o infinito estranho das águas, sabe-se sozinho, quase vivo,
um grande, pesado e impossível cansaço
que mais parece saudade
Márcio Ares. 2009.
Dizer lágrimas
Eu choro porque Clarice morreu. Ela inventou a história de estar indo a Paris, mas não voltou daquele hospital. Morreu. Não pude tocar-lhe a face, segurar sua mão, dizer palavra. Que palavra eu poderia? A ela, que tanto inventava e dizia? Não pude. Ela não era minha amiga. Era estranha e desconhecida. Uma estrangeira ladra de rosas espinhando a minha alegria porque morta antes de ser minha amiga. Ah, Clarice! Eu choro porque você morreu, viu? E não me diga com aquela voz de sotaque preso quase inventado e aquele jeito seco esquisito que você não tem nada a ver com isso. Mesmo morta, ainda que morta, andando morta por aí você é muito, mas muito demais que viva. E se você não gostava do que entendia, porque haveria eu de roubar-lhe o entendimento do mistério tão oculto de escrito? Agora, depois de morta, que devia estar calada, ficar dizendo essas coisas tortas faz ficar de tarde a minha paz, quase de noite a minha alegria. Rebelde bastarda, oh, caçulinha judia, órfã de pátria, de pai, de mãe, vai não, fica comigo! Por que você não esperou para ser minha amiga? Feito um cavalo para seu espírito monta em mim e diz aquelas coisas desencontradas, ao contrário de ser para sempre feliz.
Nada, agora, é adequado para o luto. Não se pode velar a palavra, enterrar o não-dito, o maldito recife que te fez e não te fez forte, cansado de amar ou de morrer imigrante, águas de muito longe, essa minha lágrima pela sua morte, Clarice. Pouco invento o que sinto. Escrevo é lamento. O sal no olho, a mão com vista noutro ventre, noutro chão de estranheza e guerra, a terra de outro povo, o querer de quando chega sem conserto uma história inteira que só pode ser o que ainda nunca não.
Eu sei que o animal mágico e desimportante pode muitas ilusões, mas é também mudo e incapaz, miúdo. A palavra rugir não me faz mais que do signo de leão ou conta a minha história toda, ou o seu pecado em vão. Dizer não bastava, não é Clarice? Escrever não calava a dor e nunca salvou ninguém, não é? Você também chorou igual a mim, pelas mortes de antes, não? Silêncio. Ah, quem nos dera o silêncio também não matasse e até Deus se calasse violento sem nos roubar a esperança e a crença, acima das suas invenções. Mas sofrer também é silêncio sem escolha. Melhor então era mesmo escrever e, assim, a escolha ficasse menos verbo, sem a eternidade pretendida nos milagres que atormentam tudo o que se cala, tudo o que se pensa.
Eu choro porque Clarice morreu. E é mais que violenta essa dor porque não há palavra depois, não há palavra não-palavra não.
Márcio Ares. 2009.
domingo, 10 de julho de 2011
Aluado
Sou eu quem faz você crescente
à direita
minguante do outro lado
nova distante
cheia a recomeçar
visto a lua quando contigo
e sozinho, comigo, fico nu, luar
Márcio Ares. 2009.
Interpretação
Não é por acaso esse querer dizer.
A palavra estaca, ajoelha-se ante a imagem
e reverbera no amor e na falta.
No império sem lei, sem Deus e ainda sem palavra,
dizer custa caro e vale os olhos da alma.
Não é por acaso esse querer dizer.
A palavra ataca e se nomeia antes da viagem.
O desejo de ser lida não se lhe invade
o chão que a soubera vapor e naufrágio
no sério do céu a vencer mil ímpias verdades.
Márcio Ares. 2009.
Sentido
Hoje, mais perto de estrelas e cores, canções e nenhuma dor
Urge dizer que você rouba aos sentimentos
Grandes nacos de poesia, poemas inteiros, palavras sem onde,
Ousando versos com nomes de amor
Márcio Ares. 2009.
Expectativas
Essa guerra sem jeito parece não ter fim.
Amigos e outra gente morrem de igual modo.
Bandido e polícia se atracam na lei do mais forte.
Estar vivo é uma questão de tempo.
Morrer, às vezes, é mais que estúpido,
não uma esquina no atropelo da sorte.
O que, além de bonito, se faria inteiro e lúcido,
tornou-se um Rio cujo desgoverno
agora são armas gritando a morte.
Márcio Ares. 2010.
Fôlego pra verdade
Minha mãe teve ninhada de filhos
e muito sono que não podia dormir.
O arroz socado no pilão, o café torrado de madrugada, as marmitas para muito peão
tornavam a noite um quase nada.
Era um tempo de não existir
senão pela sua ninhada.
Eu, que cheguei mais tarde,
não tive nada com isso.
Sei só o carinho daquelas mãos cansadas.
Márcio Ares. 2009.
sábado, 9 de julho de 2011
O caminho
Esse risco no céu que vai
a caminho de Fátima
feito a fé
segue na mesma direção
E a nuvem, que de azul se faz,
um gostinho de lágrima
feito um véu
derrama em meu coração
Eis, Senhora, a minha alma!
Toma-a, como bem quiser
que eu sou homem qualquer
crente de compaixão.
Márcio Ares. Portugal. 2011.
De muito sempre
Eu, coração estrangeiro, reinauguro São Paulo.
O asfalto, agora, tem nome, tem placa,
tem santo cruzando o Ipiranga no grito de um outro poeta.
Um canto cumprido no encanto, qual eco, mil vozes te falam.
Teu verso, coração da garoa, teu fardo, a cidade
São Paulo, santo, tanto, senhora elegante, sempre São Paulo
E se acaso me chamas atendo de pronto aos teus muitos anos
de sérias conversas, glamour, passarelas, encontros com o mundo,
pedaço de céu, teus arranha-céus invadem meus sonhos
e aos portos de longe se misturam pontes, ao longo da vida, ao point do eterno.
Planta no assombro tuas avenidas, oh, mar inquietante, cidade bonita
Acolhe a poesia, o que somos, platéia cativa, teus muitos amantes
Desfila o subúrbio teu charme ao inverso.
Caminha o futuro por tuas entranhas, meu santo, o mais puro concreto.
Arde a arte e cobre de febre o olhar mais de perto, urgente certeza,
paulistana cor, a cidade das horas, a beleza com pressa
a gente que chove e que chora a promessa mais grande
o calor ausente, o longe deserto
Márcio Ares. 2010.
Simples e urgente
Quando poderei dizer ao mundo, senão agora,
Ok, você venceu?
O que é o mundo, além do que se vê
e de quem sofre sem saber, feito eu, a mínima hora?
Quando, por descuido ou veleidade, estarei menos louco
(ah, sim, porque é preciso estar sempre louco)
ou lúcido a perguntar,
quando poderei dizer ao mundo
que a vitória, não menos que a verdade, é de ninguém?
Interroguem os astros, icem as velas dos barcos,
tomem povos, plantem bandeiras, inventem palavras e poderes,
comprem armas e outras armas e mais armas
e matem a si mesmos depois que o mundo não bastar
para a insanidade da poesia inexistente,
da fé desfeita e do amor assassinado.
Será possível que nunca, em nenhum momento, nenhuma inteligência se pergunte
se ainda há tempo de vencer diferente
e prover a toda gente um futuro
em que viver seja seguro
e não a loucura que tem sido sempre?
Será para nunca esse quando?
Será para sempre essa dúvida?
Márcio Ares. 2010.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Ficante
Quando eu soube que tinhas mesmo partido
Tomei o fôlego pra agüentar o susto
Fiquei ruindo muros, morrendo ruas, olhando escuro
Fiquei criando chegadas, sorrindo desculpas, inventando sussurros
Inventei lugares pra eu me sentir seguro
Fiquei juntando pedaços, ajeitando os passos, caminhando a custo
Fiquei brincando de abismos, tomando coragem, doendo infinito
Quando eu soube incerto o mais certo que eu tive
Fiquei viagem sem onde, fiquei amando de longe, fiquei desgosto pra vida
Márcio Ares. 2011.
Pra se dizer amigo
Eu sou capaz de ficar contra todos os meus irmãos
e mais, se me pedires, para ficar contigo.
Eu sou capaz de uma outra razão:
ser muito mais irmão do amigo.
Amo a todos, irmãos e amigos, e quanto a isso não há solução,
mas contigo aprendi a ser livre
e, com eles, pode ser que não.
Portanto, se te sentires cativo
rompe comigo que eu saberei perdão
e me deixa vivo, embora muito triste,
para os meus irmãos.
Márcio Ares. 2011.
Poética fé
E se um dia eu descubro que o amor é ilusão
serei um homem triste
direi que Deus é obscuro
e que nem toda a poesia que existe
será mais que a força bruta
e não menos que uma cruel invenção.
O que é velho, essa crença absoluta,
ao longo de mim, resiste,
até que eu nunca descubra.
Márcio Ares. 2011.
Quase vítima
Há um tempão que eu não escuto
num esbarrão, quase num susto,
alguém me olhando nos olhos
dizer que boca gostosa
que sorriso mais bonito
e eu, comigo noutros olhos,
olhando o que eu sou de fora
sorrindo o meu próprio riso
Há um tempão que eu não insisto
em negar, ou quase isso,
um olhar dizendo é hora
se aos meus olhos, noite afora
fui meu auto sacrifício
e eu contigo, nessas horas,
sorrindo o que eu sou agora
trombo em versos mais bonitos
quinta-feira, 7 de julho de 2011
vai-e-vem-vai-e-vem
Penso um poema e ele vai embora.
Algum mar distante naufraga meu invento, embarcação de muitas rotas.
O que tenho à mão é essa coisa de dentro
que tanto dói cá fora
a idade das almas, a dor da minha gente,
saber efêmero o entendimento dos olhos
Traduzindo o que se é visto, eu escrevo as horas.
Tomo o leme do meu barco e o conduzo para além do que me devora.
Um monstro de versos tristes, e dissonante fome, força a retina da proa, displicente,
e minha mão se dobra a querer um giz, um mapa, um caminho qualquer
para tornar ao lugar em que os olhos viram a insuspeita margem, ilha, farol,
gente capaz de um sorriso onde se prove
que viver ainda seja qualquer coisa boa, uma linha além do continente
um poema que não tenha pressa, mas que não tarde sempre
porque os versos que navegam nossos olhos,
que atravessam-nos feitos as terras novas,
sãos os mesmos olhos que se vão com o tempo
abril/2011
Para acontecer poeta
Se esse verso fácil é poesia, eu sou - reconheço e confesso - uma fraude.
E nenhuma graça me justifica.
Quero a palavra que engasga e faz doer a alma, nublar a minha paz por
dias infinitos.
Quero a incerta ordem da página,
o risco indormido, além da madrugada,
o inquieto imaginário de fantasmas.
e, por último, justo e exato, quero que o verso não seja fácil
porque de escuro se veste a claridade
dizendo rosa o espinho disfarce.
À força da mão meu coração que se dobre
e sangre arco-íris no verso encantado.
E enquanto calado eu fique, seja este o tempo que me baste.
Tudo o mais é vontade por dizer, é mar sem barco ou estrelas, a vida
sem crer, ânsia de se libertar.
Seja meu o instante sem saber. Doa a mim a palavra por inventar.
Não quero fácil existir, simplesmente,
e dizer que existo, igual a tudo, para toda gente,
sem essa coisa inominável a que se chama, através dos tempos,
talvez poesia, talvez amor, talvez demência.
Que eu, filho do mais doído mistério,
traga à luz as palavras primeiras, únicas, estranhas ou belas
a inaugurar esse parto dos homens, grávido que estou de longes, ondes e quandos
que ainda não se fizeram.
Eu vou parir Deus com o meu verso.
E vou parir o demônio.
E vou engravidar os nomes que se puserem no caminho desse ofício, ou
dessa coragem,
para que a melodia dos nomes desperte o grito alado das palavras.
Para que eu nunca, jamais, em tempo algum me contente
com o instante fácil do verso
e não me confesse uma fraude.
maio/2011
triversado
PACIÊNCIA FELINA
sete vidas eu daria a ti
para que as tristezas fossem cumpridas
e a alegria fosse infinita
sete vidas eu existiria assim
querendo te ver sorrir
*
TEMPO ANTIGO EM PROCISSÃO
escrevo maio e minhã mãe maria
oferta à primavera
o pastor que eu era
na coroação da virgem
*
ALVIM MARIA
de novo escrevo para maio
para uma outra maria
essa, colega de farda,
amiga um tanto tardia
feliz que reza à feliz primavera
mais feliz se faria
.
Imemoriável
O acaso inventa poesia desde que a vida é vida.
Por acaso desconfio
que essa mania seja muito, muito mais antiga.
Desde que o nada é nada
Desde o acaso infinito
Márcio Ares. 2011.
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Estar de lua
Vai que a noite não foi boa
E o dia tarde a caminho
Nós somos um quarto à toa
Que ainda resta, meio à míngua
Querendo um quarto crescente
Querendo cheio de novo
O clarão que fora lindo
O meu olho no seu olho
Minha língua em sua língua
Somos um quarto de hora
Somos um quarto de rua
Somos um quato da história
Escrito com a noite nua
Somos o dito e o não dito
O que eu penso e o que tu pensas
Somos um quarto suspenso
De lua, amor infinito
E o dia tarde a caminho
Nós somos um quarto à toa
Que ainda resta, meio à míngua
Querendo um quarto crescente
Querendo cheio de novo
O clarão que fora lindo
O meu olho no seu olho
Minha língua em sua língua
Somos um quarto de hora
Somos um quarto de rua
Somos um quato da história
Escrito com a noite nua
Somos o dito e o não dito
O que eu penso e o que tu pensas
Somos um quarto suspenso
De lua, amor infinito
Márcio Ares, maio/2011
Eu, piquinininho
Desmancha o castelo dos meus cabelos, oh, mar, penteado de sal
e descansa na orla do meu sol o teu reino.
Constrói o tempo de areia, oh, criança mais grande,
e devolve o barco dos meus sonhos.
Colore a vida de azul
e faze pra mim o teu ir e vir de brinquedo.
Mas vem brincar comigo, de manhã,
que, à tarde, às vezes eu me entristeço
e a noite é um desenredo só
porque eu nunca sei, quando cantas,
se o teu canto é de apreço
ou se ruges de medo, de dor ou de dó
Márcio Ares da Silva maio/2011
O que fica
todo prédio tem o seu cachorro
é tudo a mesma coisa
pinta a cara de vermelho
pra não surtar
e vai torcer pro botafogo
que lá também é muito doido
faz teatro cabeça, de vanguarda
e come pouco
vê se não engorda e arrebenta a corda bamba
não solta a sombrinha
solta a franga
e esquece o outro
que faz piada com o seu samba
que nunca ta na linha, mas é bamba
porque é o louco pai dos loucos
vai que é sua, malandrinha
sacode essa rede
net à mão, outra parede
que esse prédio tem cachorro
e tem cínico e poeta
e tem profeta de plantão
e tem modernidade
acordar de madrugada
pra ouvir pega ladrão
eu quis dizer antiguidade
e to aqui escrevendo à mão
vou tomar um lexotan
que o terapeuta foi pra Índia
com que dinheiro, sei não,
anda brincando comigo, deitado ali no divã,
eu fico uma puta, um filho
vou rasgar o sutiã,
minha buceta, mostrar a pica
que vergonha pouca é bobagem
do jeito que esse cachorro grita
eu vou arrumar uma arma
descer, num pique, essa escada
e dar um tiro na vida
madrugada que me assalta
e fica só você comigo
fica só
fica
Márcio Ares. 2011.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Motivação
Mikonos, Grécia, 2000
fotografia de Márcio Ares
Tudo o que vejo fora do lugar é meu verso.
O fantasma que me atravessa de madrugada é a gota dágua no vidro da janela.
A claridade do outro lado é uma curva de estrada, uma casa no caminho do mar,
a imensidão que dá fôlego à palavra que me arde.
Tudo o que eu sei fora do lugar é razão inventada.
Só o sentimento da coisa me parece verdade.
Do contrário, o pássaro fica pássaro que não passa,
a estrada fica estrada sem viagem,
o certo fica humanamente acertado.
Não ver é muito longe, nunca o mais de perto que me assalta.
E porque tudo o que eu sei é verso,
e porque tudo o que eu sou é poeta,
vou a caminho do mar quando o incerto mais me falta
.
adversativo
África do Sul, janeiro de 2007
fotografia de Márcio Ares
Quando eu era ainda um toco de gente, nascido miudinho e triste, como quem tem fome,
num lugarzinho miúdo e triste que mal caberia no esquecimento,
eu tinha um mar. Um riachinho de água salgada.
Era, claro, igualmente miúdo e triste, o coitado.
Mas, para mim, era enorme de grande e lindo o mar que eu tinha.
Eu nem sabia porque era assim, mas ondas nele se faziam
com a minha pequena força e as pedras que eu jogava.
Alguma coisa, feliz e misteriosa, foi ficando em mim.
Depois, conheci, por força de crescer e ser feliz, ou talvez por acaso,
outros rios, outros riachos, muitos mares pra eu amar.
Mas nenhum deles tão importante, nem sequer tão lindo,
quanto o meu primeiro, triste e miudinho mar.
Márcio Ares. 2009.
Quebrado
Chapada, MG, 1999
fotografia de Márcio Ares
Não me lembro de onde não se podia mais avistar o mar.
Desde que o deixei não tive a fraqueza de olhar para trás.
Mal tive coragem de partir.
Preciso voltar para o meu lugar.
Qualquer lugar que não seja aqui, entre o que deixei para trás e a vontade imensa de voltar para viver e morrer ali, bem ali,
com os olhos cheios de mar
rebentando de ser feliz.
Márcio Ares
Colorido
Ela avistara qualquer alma perdida
e fora ter com ela.
Em flor de asas coloridas o vestido pintado
e ela plantada, perdendo o juízo.
E passaram a ir, lá, convidados
para visitarem a morta viva.
O céu, acolhendo palavras não ditas,
pintou-lhe a alma
de arco-íris.
Márcio Ares. 2011.
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