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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Exílio



Toma todas as minhas canetas
e essa minha falta de jeito há de ficar sem lugar.
Mas leva também a areia, a tinta, a poeira, a canção.
Leva o resto de giz, o quadro de lousa, o graveto.
Leva o torrão, o lápis de cor, ou de cera.
Leva tudo o que se diz quando louco de paixão.
Leva minha garganta, a voz, o risco do batom.
Leva o mármore, a pedra, o formão.
Leva o sinal de fumaça, o palco, a palavra,
a mímica, o gesto da libra, o alto falante,
o sangue escrevendo urgência, pulsando inspiração.
Leva o micro, a tela, o plug, a janela.
E fica o verso um nada eterno,
um sujeito poeta
sem chão.

 Márcio Ares. 2011.

Pássaro mais bonito



Meu irmão, aqui sentado,
pertinho, feito alguém que, bem do meu lado,
olha com outros olhos a mesma estrada que eu vejo agora
pensa em Belém, Norte acima, Rio abaixo.

Essa lembrança me cansa, talvez mais que a mais ninguém.
Não sei como vem esse longe que lhe basta
e que seu amor alcança à visão de um negro pássaro..

Mas não é minha a saudade.
Não sei dessa estrada o que ele sabe.
Lá, eu não deixei nada, além das águas.
Lá, eu não amei ninguém.
Talvez um mercado, um par de asas,
um pássaro de querer bem. 
 
Márcio Ares. 2011.

Purgatório



 
Se você me olha com este seu olhar
e me diz tudo o que você quer
eu me calo feito o céu
e escrevo até enlouquecer

Amar é o demônio da fé.
Pecar é igual a crer.

Márcio Ares. 2011.
  

Pó diverso



Gosto de olhar para uma estrada, feito um espelho,
e saber que ela está de um outro lado,
a caminho de casa, a caminho do mar ou, quem sabe, a caminho do nada.
Gosto de escrever em vermelho, colorir no peito a viagem,
dobrar de dor os olhos do amor
no eito da estrada
que fica pra lá, pra cá,
o lugar nenhum da saudade.

 Márcio Ares. 2011.

O calor do poema



 Segundo consta, nenhum pingo de sol aquecia-lhe o quarto.
Ao que se sabe, o frio é que adentrava suas entranhas, tomava-lhe a força dos braços,
roubava-lhe a cor, a língua do gosto, a beleza das horas, o fôlego da graça.
No fundo, além das tardes, e talvez mais profundo,
ela, atriz de alma grande, como sempre ousara,
ensaiava o seu melhor e mais lindo espetáculo:
viver a vida  e seu fardo, enquanto, ao redor do mundo, queimava um pálido sol
que sempre, em todos os tempos, a todos faltara.
Àquela hora, o ato era uma só verdade.
A vida era uma gota de sol servida no banco da sala, platéia pequena,
dizendo a alegria da cena,
dizendo, à vida, coragem!!!

 Márcio Ares. 2011.

Menino antigo



Este olhar podia estar na Grécia
Esta cor seria de outra terra
e os meus olhos saberiam outros versos
árida poesia politeísta
agreste beleza de raros invernos.

Esta manhã podiam ser mil ilhas
sem barco nem esperas.

Este olhar podia ser menino
acreditado além da vista
quente, navegante, vivo
colorido de ficar eterno.

Márcio Ares. 2011.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Inesperado



Eu era promessa no outro tempo da semente
quando o vento surpreendeu agosto
com o mau costume da chuva.

A pressa era ventre infecundo, naquela ausência de hora.
E o inesperado sem rumo tornava estéril o futuro,
o descanso da ordem para o arranjo do  mundo.


Márcio Ares. 2009.

Irrealizável



As promessas de ontem ficaram no depois do amor
na timidez, quem sabe, talvez num pouco de medo,
no desencontro do quarto, no silêncio da sala,
na urgência da pele, na pressa do corpo,
à espera de hoje as promessas ficaram

Mas a manhã não termina o anseio
e as horas se beijam, no desassossego.
Na memória que ao tempo se entrega, muito além da espera,
as promessas ficam mais desejo


Márcio Ares. 2009.


segunda-feira, 25 de julho de 2011

Herdeiro


nasceu do ventre de uma puta
puta que pariu esse amargo
rastro de fumo e cachaça
cheiro de merda escarrada
nas fuças de um porco amor

nasceu do ventre de uma puta
puta que se abriu pra esse macho
mastro de lume e desgraça
feito de festa acabada
nas grutas de um coito invasor

nasceu do ventre de uma puta
nasceu do centro das culpas
nasceu no escuro da porra
filho da puta que sou

puto que me fizeram
feito o puto que eu me sei
desse orgulho me desfruto
o mesmo fruto que eu herdei


Márcio Ares. 2008.

Força do lugar



Sob a luz do desencanto
soa ainda um canto azul
de céu, de mar
sou ainda enquanto azul
o blue do canto
soa ainda o canto cru
de cor azul, de céu, de mar

Sob a fé do mesmo arranjo
soa ainda um verso ateu
de rima e vez
soa ainda a voz do lindo
o amor adeus
soa ainda o medo infindo
a dor do mundo, a cor de amar

Sob as cores dessa força
tem açoite o meu cantar
a voz da noite
tem a boca pra lembrar
o céu da boca
tem o povo um gosto novo
pra encantar o todo, este lugar


Márcio Ares. 2009.


Recomeço



escreve sem medo, sem meio termo
seca estiagem, rio acima
escreve escravo, escreve grande, cor
escreve negro, branco menino

escreve palavra, escreve o anjo
escreve Deus, o dó, o arranjo
escreve o cheiro, o cansaço, a mãe
escreve pedra, escreve longe

escreve quem te ama e pára o tempo
suspende a rima, a repetição
inclui artigo, metalinguagem
aumenta o verso, altera o som
e espera

espera crítico, fã, editora dizendo não
espera a história, de novo o artigo
o amor parado desde o nono verso
escreve louco e, por fim, o título

esquece o outro, mergulha imprevisto
repete o som, o maldito não dito
retoma o tema e deixa a solução
pra um leitor aflito que nem sabe que não
vive o vazio, o medo, o meio termo
seco, estiado, rio abaixo
escrito pequeno
descolorido

Márcio Ares. 2008


Contingência



São tantas horas mais alguns minutos
contados no tempo
o passar das horas, segundos inventos,
o primeiro instante perdido na história,
a força argumento.

Olha a hora, olha a hora, olha a hora!
Atrasa a vida a pressa do relógio.
Adianta o mundo esse contratempo.

Olha a morte, olha a morte, olha a morte!
Mais dia menos dia, mais hora menos hora, mais gente menos gente!



Márcio Ares. 2008.

Aldrava tcheca



Quando vierem chamar à porta de tua morada
serei eu, fiel e vigilante leão, a anunciá-los.
A todos eles,
não obstante a liberdade pretendida dos poetas
ou aqueles de amizade mais querida.
Músicos, bêbados, pedintes,
crentes orgulhosos de sua fé, transviados, incrédulos,
ambulantes, amantes, meros desconhecidos,
artistas sem portfólio, produtores de renome ou anônimos sem norte.
A todos farei ouvir o meu rugido.

Serei a memória de uma república distante, forjada no leste da Europa.
Sob o mais leve toque, serei a voz da tua porta.
E, se um dia te tornares terra inóspita,
eu te farei um continente ao alcance de qualquer visita.

Toc... Toc... Toc...



Márcio Ares. Praga. 2008.

domingo, 24 de julho de 2011

Adivinhação



Você é puro silêncio quando eu preciso entender
não aponta o meu pecado, o meu tempo de ir e vir,
nem sinaliza a estrada quando procuro você

Você é muro de ausência quando estranho o que há de ser
não diz a razão das horas, o tempo de quando vir
muito antes de ir embora quero sempre acontecer

sem saber a minha sorte, minha morte é minha dor
e vou ficando sem norte  e vou morrendo de amor

Márcio Ares. 2008.


Sedução



não me olhe, não me queira
pega a minha mão, entende o meu medo
então recomeça, devagar, minha descoberta
meu amor sem lugar
meu encanto em saber

não demore, não me deixe
toca minhas horas, espera o meu beijo
irmão descoberto sem esgar, mínima pressa
e depois deixa estar
meu espanto de ser

para toda hora teu olhar me despe
para toda veste teu querer me vê


Márcio Ares. 2008

Solidão



Viver não termina a gente
mesmo quando o dia é feliz
mesmo quando a vida é urgente
mesmo quando é Deus quem diz

E vai ficando tudo suspenso e triste
e vamos todos morrendo de nós mesmos
ficando gente infeliz, muito dentro da gente



Márcio Ares. 2008.


Labirinto



Hei de ser eu mesmo em algum lugar
dentro de mim falta espaço, jeito, coragem,
tudo o que no outro ninguém ama,
tudo o que no outro ninguém arde

O silêncio amarga essa chama
porque não sabe onde
e nunca responde ao desespero
e nunca pergunta se vou suportar

É sem lugar essa dor.
É sem amor este lugar.



Márcio Ares. 2008.

Depois do olhar



Pode parecer confuso o que não sei dizer,
mas existe, cá dentro, inteira e absoluta, a minha clareza,
tragédias, romances, poemas inteiros de amor
e uma vontade sem fim
a fome do mundo.

Tudo se estende para abraços incertos e artes equivocadas.
Nada se orgulha de ser encoberto, triste ou confuso.
Com a paciência do desejo, ou a ânsia dos desvalidos,
vai-se construindo um olhar diário e ousado
para o espetáculo das horas de certeza, de alegria,
no entendimento de se viver só,
sem palavra para a incompreensão dos sentidos.

Na desordem residem minha clareza e meus limites.
A vida é mais forte no desequilíbrio de tudo o que se pode.
Portanto, perdoa, se não me faço entender:
meu descaminho ainda não se deu à razão das minhas memórias.



Márcio Ares. 2008.


Perdido



não leva contigo meu olhar de amor
deixa-o comigo, ainda que pouco

apaga no espaço meu brilho cadente
torna pó o meu tempo de novo

dobra o cabo da minha esperança
busca outro mar sem o lastro de mim

retoma o destino, o antes da gente,
o vasto princípio sem medo de fim

deixa-me morrer que eu vivo sentido
salva tua vida que eu morro por ti



Márcio Ares. 2007


Minguante



enquanto você não vinha
a hora às outras se dava
no céu imperfeito e vazio
a lua minguava um pedaço
no mais amor que eu a via
meus olhos cadentes ficavam
- luz que eu nunca não tinha
- falta que sempre faltava



Márcio Ares. 2007