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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Desamparo


Nesta longa e fugaz viagem
entrefecho os meus olhos para que os carros corram mais rápido
para que o vento seja salgado
e para que o dia possa nascer como tu o disseste:
a ternura a caminho do mar
em meu coração ainda brusco e selvagem

O amor de não saber entre dentes despe o mistério.
O longe, tão longe, agora mais perto
tornou-se a escuridão indefesa de longos corredores sombrios
e o desespero da angústia das salas de espera.
O que era dilatou-se ao longo da viagem
e nem mesmo tu, minha amada Clarice, o tomaria de volta
sem que se gastasse também o amor da palavra

O céu e a terra engoliram os beijos de minha mãe
e, antes que eu soubesse o que podia tanta dor,
no branco de meu rosto descubro o exato gosto do mar.
Só o vento, agora, faz carinho em meus cabelos
e aquela coisa quase engraçada, horrível dentro do peito,
como o infinito estranho das águas, sabe-se sozinho, quase vivo,
um grande, pesado e impossível cansaço
que mais parece saudade

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Promessa

O que é que se pode fazer, Clarice, com a noite
enquanto o indizível aguarda, lá fora, na infinita escuridão?
O que é que se pode contra o medo e sua antiguidade?
Se a invenção de ser feliz não pode menos que a noite
- essa dúvida sem quando na inquietude da espera –
o que é que se pode contra a morte?
Alegria ridícula viver ofendido e pisado para o extremo de um instante sem piedade.
O que nos acontece, afinal, para esta solidão que não se pode dar, para este medo sem nome?
A marca da ausência atravessa os dias.
E só tu, Clarice, poderias entender este silêncio, esta miséria e este abandono,
essa falta de quem saiba o tempo das sombras
para que eu entenda a noite da vergonha inútil.
Porque tudo é quando se pode
e o que não se sabe existe é sem tamanho.



Márcio Ares. 2009.

Desamparo

Nesta longa e fugaz viagem
entrefecho os meus olhos para que os carros corram mais rápido
para que o vento seja salgado
e para que o dia possa nascer como tu o disseste:
a ternura a caminho do mar
em meu coração ainda brusco e selvagem

O amor de não saber entre dentes despe o mistério.
O longe, tão longe, agora mais perto
tornou-se a escuridão indefesa de longos corredores sombrios
e o desespero da angústia das salas de espera.
O que era dilatou-se ao longo da viagem
e nem mesmo tu, minha amada Clarice, o tomaria de volta
sem que se gastasse também o amor da palavra

O céu e a terra engoliram os beijos de minha mãe
e, antes que eu soubesse o que podia tanta dor,
no branco de meu rosto descubro o exato gosto do mar.
Só o vento, agora, faz carinho em meus cabelos
e aquela coisa quase engraçada, horrível dentro do peito,
como o infinito estranho das águas, sabe-se sozinho, quase vivo,
um grande, pesado e impossível cansaço
que mais parece saudade


Márcio Ares. 2009.

Dizer lágrimas


         Eu choro porque Clarice morreu. Ela inventou a história de estar indo a Paris, mas não voltou daquele hospital. Morreu. Não pude tocar-lhe a face, segurar sua mão, dizer palavra. Que palavra eu poderia? A ela, que tanto inventava e dizia? Não pude. Ela não era minha amiga. Era estranha e desconhecida. Uma estrangeira ladra de rosas espinhando a minha alegria porque morta antes de ser minha amiga. Ah, Clarice! Eu choro porque você morreu, viu? E não me diga com aquela voz de sotaque preso quase inventado e aquele jeito seco esquisito que você não tem nada a ver com isso. Mesmo morta, ainda que morta, andando morta por aí você é muito, mas muito demais que viva. E se você não gostava do que entendia, porque haveria eu de roubar-lhe o entendimento do mistério tão oculto de escrito? Agora, depois de morta, que devia estar calada, ficar dizendo essas coisas tortas faz ficar de tarde a minha paz, quase de noite a minha alegria. Rebelde bastarda, oh, caçulinha judia, órfã de pátria, de pai, de mãe, vai não, fica comigo! Por que você não esperou para ser minha amiga? Feito um cavalo para seu espírito monta em mim e diz aquelas coisas desencontradas, ao contrário de ser para sempre feliz.
         Nada, agora, é adequado para o luto. Não se pode velar a palavra, enterrar o não-dito, o maldito recife que te fez e não te fez forte, cansado de amar ou de morrer imigrante, águas de muito longe, essa minha lágrima pela sua morte, Clarice. Pouco invento o que sinto. Escrevo é lamento. O sal no olho, a mão com vista noutro ventre, noutro chão de estranheza e guerra, a terra de outro povo, o  querer de quando chega sem conserto uma história inteira que só pode ser o que ainda nunca não.
         Eu sei que o animal mágico e desimportante pode muitas ilusões, mas é também mudo e incapaz, miúdo. A palavra rugir não me faz mais que do signo de leão ou conta a minha história toda, ou o seu pecado em vão. Dizer não bastava, não é Clarice? Escrever não calava a dor e nunca salvou ninguém, não é? Você também chorou igual a mim, pelas mortes de antes, não? Silêncio. Ah, quem nos dera o  silêncio também não matasse e até Deus se calasse violento sem nos roubar a esperança e a crença, acima das suas invenções. Mas sofrer também é  silêncio sem escolha. Melhor então era mesmo escrever e, assim, a escolha ficasse menos verbo, sem a eternidade pretendida nos milagres que atormentam tudo o que se cala, tudo o que se pensa.
         Eu choro porque Clarice morreu. E é mais que violenta essa dor porque não há palavra depois, não há palavra não-palavra não.

         Márcio Ares. 2009.


domingo, 3 de julho de 2011

Entrevero




à memória de Clarice Lispector


Também eu, Clarice, choro manso de tristeza.
Também eu escrevo para agradecer, ou para agradar, como diria você.
Também eu quero o presente da frase que morre
porque morrer é doce e faz nascer a mim mesmo
como não pude ser.

Também eu, Clarice, temo o silêncio de Deus.
Também eu me sinto um tigre cheio de dor.
Às vezes, afasto-me sem nada dizer
porque Ele se calou antes das gentes que em mim gritaram
e agora o silêncio pesa anoitecido
o impensável anjo, a graça perdida
no anúncio do mundo.

Também eu saio deste transe
onde há pouco por dizer sobre o que se perdeu.
Entre o olho e a palavra, Clarice, a dor,
o anônimo que se desvela, o vazio que se apruma, a loucura que se inventa
e eu, de mais pequeno suspiro no escuro
sei o desespero, Clarice, do nada
apesar da vida possível
apesar da coragem do amor.


                                                          Márcio Ares. 2007

sábado, 25 de junho de 2011

Promessa




O que é que se pode fazer, Clarice, com a noite
enquanto o indizível aguarda, lá fora, na infinita escuridão?
O que é que se pode contra o medo e sua antiguidade?
Se a invenção de ser feliz não pode menos que a noite
- essa dúvida sem quando na inquietude da espera –
o que é que se pode contra a morte?
Alegria ridícula viver ofendido e pisado para o extremo de um instante sem piedade.
O que nos acontece, afinal, para esta solidão que não se pode dar, para este medo sem nome?
A marca da ausência atravessa os dias.
E só tu, Clarice, poderias entender este silêncio, esta miséria e este abandono,
essa falta de quem saiba o tempo das sombras
para que eu entenda a noite da vergonha inútil.
Porque tudo é quando se pode
e o que não se sabe existe é sem tamanho.



Márcio Ares. 2009.