_Amor, o Tony Ramos morreu.
_Quê? O Tony Ramos? Nunca! Morreu nada!
_Morreu, amor, morreu, sim! Insistia a voz do outro lado da linha.
_Como morreu!!!! Eu o vi, hoje, no vídeo show. Tá esbanjando saúde e talento.
_Ah!!?? Vídeo Show??. Não, amor, eu to falando é do Adoniran Barbosa!
_Ah, esse sim!!! ...mas porque é que você ta me contando isso agora!?
_Ué, amor...ele era o seu preferido!!!
_...então você tá falando é do Caubi Peixoto, né não?
Já ficando desesperada, a voz da esposa parecia até esconder uma lágrima.
_Oh, amor... eu to falando é do seu passarinho. Ta aqui, na gaiola, mortinho da silva, tadinho!!!!
_Ah? O Roberto Carlos morreu?
Já quase chorando, num misto de tristeza e solidariedade, a mulher continua, tentando dar aquele apoio moral, típico das horas difíceis.
_Oh, amor, sinto muito!!!
De repente, desconfiada, ela diz.
_Ué, mas você não ta confundindo o nome do bichinho não? Era Roberto Carlos mesmo?
_Eu falei Roberto Carlos???
Silêncio.
_ É Wanderley Cardoso, mulher, é Wanderley Cardoso!
Intrigado, um amigo meu, que é dado a ser poeta, assistia a essa conversa. Seu chefe, que era o esposo a receber a fatídica notícia, preencheu, depois, as lacunas da conversa ao telefone. Contou que tinha, há alguns anos, um passarinho, o Wanderley Cardoso, agora morto. Não o cantor, o passarinho, é claro!
_Vê lá - disse-me esse meu amigo – se isso é nome que se dê a um passarinho, coitado!
Que era bacana, a homenagem, ele até entendia. Mas todo dono que se preze deveria chamar o seu amigo alado de nomes mais dignos a um bichinho dessa espécie. “Biquinho”, “zazinho”, ou “piu-piu”, pareciam nomes mais acertados. E, nisso, eu concordo com ele. . Até que “Peninha” não seria mal, mas pareceu-lhe um pouco demais chamá-los Noel Rosa, Cartola, Nelson Ned, Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Wanderley Cardoso!!!!!
Também eu tenho em casa um passarinho. Ele canta e eu fico feliz. Pode cantar como os grandes e velhos artistas, mas, carinhosamente, eu o chamo de menino. E evito os riscos de me confundir. Será?
Márcio Ares. 2011.
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quarta-feira, 28 de setembro de 2011
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Ave, pequeno engenho
O vento frio resiste além da noite fria.
Ao meio dia da manhã, ele canta por entre as gretas da janela uma canção de gelo. E avança, constante e cortante, para dentro dos vãos que separam as casas, os prédios, os muros e as grades.
Parece avançar para dentro da gente.
A juriti, em seu ninho no galho da árvore que logo ali se avista, além da noite fria também resiste.
Ela não canta, mas não está triste. Avança, feito o vento frio, constante e cortante, para dentro do tempo em que serão filhotes os ovos dos quais não se separa, pousada entre as casas, os prédios, os muros e as grades.
Parece gerar paciência contra o frio.
Talvez nesta manhã em que o galho mais balança, pondo em risco o seu maternal ofício, ela tenha protegido de pena e cuidados as pequenas asas do futuro.
Talvez até parecesse um tanto apreensiva, na minha crença de tamanho e imprevisto frio, carregado por tão impiedoso vento de voz gélida e força quase impossível.
O ninho parece a perigo.
A árvore mal sustenta o galho.
O ninho quase não sustenta a vida.
A coragem de um cuidadoso abraço de asas é que se desdobra ao longo de incertos dias frios, até a hora devida.
Tanto cuidado não foi bastante.
Olhos que depois viram alçaram triste vôo na solidão do ninho vazio, do amor doído em vão.
Sem ovos nem mãe, restaram no galho o arranjo de gravetos e uma vontade bonita, guerreira contra o frio.
Pousou, sem jeito, naquele ninho, a desalegria da vida.^
Ela não canta, mas não está triste. Avança, feito o vento frio, constante e cortante, para dentro do tempo em que serão filhotes os ovos dos quais não se separa, pousada entre as casas, os prédios, os muros e as grades.
Parece gerar paciência contra o frio.
Talvez nesta manhã em que o galho mais balança, pondo em risco o seu maternal ofício, ela tenha protegido de pena e cuidados as pequenas asas do futuro.
Talvez até parecesse um tanto apreensiva, na minha crença de tamanho e imprevisto frio, carregado por tão impiedoso vento de voz gélida e força quase impossível.
O ninho parece a perigo.
A árvore mal sustenta o galho.
O ninho quase não sustenta a vida.
A coragem de um cuidadoso abraço de asas é que se desdobra ao longo de incertos dias frios, até a hora devida.
Tanto cuidado não foi bastante.
Olhos que depois viram alçaram triste vôo na solidão do ninho vazio, do amor doído em vão.
Sem ovos nem mãe, restaram no galho o arranjo de gravetos e uma vontade bonita, guerreira contra o frio.
Pousou, sem jeito, naquele ninho, a desalegria da vida.^
Márcio Ares, 2011
domingo, 17 de julho de 2011
Apucalipse
Enquanto fazemos Letras, o povo continua a ser maltratado, a cidade continua a pedir socorro, o país continua a requerer cuidados, o mundo continua a entortar direitos, esquecer o respeito e a ignorar humanidades.
Enquanto fazemos Letras e aprendemos teorias, o jornal conta desgraças, o livro diz o que não basta, o poder inova seu modus operandis na hipocrisia legal e um bando continua reinando, rosnando, envergonhando a ética e a esperança de um pacífico povo, quase iletrado.
Enquanto fazemos Letras, redesenhando teorias e análises, mas não produzimos novas letras ou novas falas, o silêncio ajuda na luta social por interesses escusos em detrimento de quaisquer princípios morais. Guardamos o silêncio, alheios a tudo que nos devasta.
Enquanto fazemos Letras e calamos a nossa criatividade, essa grande e potencial vantagem, o silêncio de cada um de nós vai nos fazendo esquecer que sabemos o que está acontecendo enquanto não fazemos nada.
Enquanto fazemos – e é verdade que nós fazemos? - letras, vamos enevoando o sentido expresso pela escrita com a indisposição de assumirmos a responsabilidade por dizer todo o necessário, tornando bastarda a nossa própria possibilidade.
Enquanto fazemos esse curso, humanístico, de inicial maiúscula e crenças de bem formado, povoando de expectativas o nosso lugar, vamos reduzindo ao ininteligível o grandioso e esperado resultado, desaguando em preceitos que não se cumprem e autoridade sem valia ou muito pouco superior para dizer o mal que nos alarma.
Com todas as letras ainda somos nada. Lemos o que está pronto e escrevemos mal. Interpretamos sob a luz de estudiosos o saber nem sempre necessário.
Com todas as letras somos coniventes com a ignorância que afronta a contemporaneidade.
E porque não sabemos dizer, escrever ou gritar o texto do saber necessário, enquanto passamos por essa aulas vamos nos esquecendo do uso prático da palavra, da eficiência dos levantes intelectuais e do acento organizado no caos da ordem estipulada.
Não é só da Letras, é verdade, o silêncio, bem como a responsabilidade.
Embora seja nosso o maior poder de escrever, de se fazer ouvir e denunciar, a conivência tem sido regra geral nos demais cursos da Universidade.
Até quando haveremos de estar cegos, surdos e calados?
Márcio Ares. 2005.
Pequeno sonho
Sonhei, por mais de uma vez, alguma noite passada, ser um periquito. Desajeitado esse sonho, num sem jeito meu de ser tão pequeno e verde, mas gracioso dono de belas asas. E pressentia, ainda, no sonho, que era sábio como as corujas.
Para um amigo, sem muito tardar a manhã, contei sobre o sonho. Surpreendeu-me sua alegria ao perguntar interessado como se consegue um sonho assim, se por meio de ofício em duas vias, se por requerimento ao chefe direto. Ficou cheio de vida com o sonho, esse meu amigo.
Fiquei feliz que o meu sonho fizesse algum sentido ou provocasse vontades. No entanto, calei-me. Não contei o fato de que eu, pássaro verde e miúdo, estava indisposto com o espaço também pequeno, ávido de brisa, árvore copada, vento sem norte e longas distâncias. Não quis contar que chilreava minha desalegria de não voar além da grade que me proibia o céu, toda a felicidade.
Alguns anos depois, escrevi esse texto com as penas que tive de mim. Escrevi a minha cor engaiolada naquele sonho ruim e bom, segundo meu desentendimento ou a sedução e desejo manifestos pelo meu amigo.
Não sei ser pássaro. Embora eu goste tanto de voar e precise de largos espaços geográficos, não sei ser pássaro. Não me cabem o silêncio noturno na plumagem mole das sábias corujas, nem a inquietude do periquito sem lugar.
Pergunto-me se não foi o sonho uma metáfora, o meu desejo inquieto de liberdade. Um dia qualquer hei de procurar por um desses velhos que predizem a vida e lêem os sonhos como palavras cruzadas onde cada lembrança do sonho diz outros espaços, outras verdades.
Resta, com prazer o digo, o olhar desejoso de meu amigo. A identificação – e até uma certa inveja, ouso dizer - para com a beleza de meu sonho, ainda que não de todo esclarecido. Seria mais fácil, penso eu, se a razão dos sonhos fosse apenas isso: um motivo para a vida dos amigos que se aventuram a ser corujas ou periquitos.
sábado, 16 de julho de 2011
O que somos
Um homem bomba e duas jovens acercam-se do veículo de uma brasileira, em Israel, e pedem carona. Morrem o homem, a mulher, seus filhos e as duas jovens que também de carona seguiam. Voltavam de um encontro festivo e explodiram junto àquele homem que assim, em sua fé, projetava-se na direção de Deus, fazendo-se exemplo para os que ficam.
Um brasileiro sorridente, irradiando graça e simpatia, parte da terra, no Cazaquistão, não em direção a Deus, mas a uma estação espacial. Na companhia de russos e outros homens irmãos, um brasileiro exerce a sua fé na direção de um sonho e deixa o exemplo que nos empurra para novas conquistas.
Os motivos foram individuais, mas também a expressão de um povo. Ambos exigem conhecimento, cuidados e o comprometimento com a vida: uma vida que se deseja, outra que se desintegra. Uma vida que arde por descobrir, entender, responder ao anseio fundamental do que somos, de onde viemos, para onde vamos. Outra vida que arde por discordar, submetendo-se, gritando contra o que se tem sido, o que deveria ser e como, a seu ver, tudo haveria de vir. Este, prepara-se na vontade imposta por uma lei antiga, interpretada, reescrita, olho por olho, dente por dente, ao longo dos tempos que agora a tristeza nos dita. O outro, prepara-se na ousadia da vontade própria, voluntariosa, laica, num impulso de vida que ora nos orgulha e motiva.
Quase meio século se passou, depois de Gagárin, e o nosso brasileiro vai em busca do ainda desconhecido que nos desafia. Milhares de anos se passaram e o outro insiste na reconhecida estupidez que acredita ser lícita.
Somos, no entanto, sem infinita tristeza ou indelével alegria, um pouco desses dois homens que ousam porque acreditam. Somos esses dois homens que agem pelo o que virá depois deles, depois de nós. Agimos, como eles, a partir do que nos espanta e excita, em concordância com o que nos legou a memória antepassada de lutar o nosso combate enquanto nos restar a vida.
Márcio Ares.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Ancestral
A noite passada, estive louco.
Estava sozinho em casa, tinha motivos para a paz comigo, mas estive louco. O sono escapava de medo sob tantas imagens amargas e embaralhados pensamentos ruins. A minha cabeça era bomba nuclear a ponto de me fazer para sempre vítima de sua contaminação atômica. Enquanto a madrugada se arrastava com seus pântanos de sonhos fatais e suas guerras contra indefiníveis monstros, precisei de um banho. A água fria escorrendo pelo meu corpo, a vontade urgente de pensar só depois. Por que os fantasmas nos atacam na melhor das horas para um sono de paz?
A amiga que me telefonou logo pela manhã - terá ela adivinhado minha carência de socorro? – perguntou-me se fora um banho com roupa. Hum? Por acaso estava sem roupa, respondi. Ao que ela me disse que eu tinha sido comum como toda a humanidade comum que se banha sem roupa. Salientei, no entanto, que se estivesse vestido, teria me furtado à destreza suficiente para despir-me naquela hora sangrenta de insônia alucinatória. Acho que você deve se casar, disse ela. Então, teria alguém para me tirar as roupas. Nova interrogação assomou à minha consciência ainda cansada e mal dormida, sem que eu entendesse a alusão à nudez ou a discussão sobre minhas vestes.
A que ponto chegou a instituição casamento? Perguntei-me, algum tempo depois. Terá ela se igualado ao limite da capacidade oportuna de se deixar alguém nu para um banho que lhe pudesse recobrar um pouco de sanidade na profusão dos contratempos de uma noite sem fim? Ou então à chance de se ter um psicanalista na mesinha de cabeceira, à mão para qualquer eventualidade ou desassossego? Dividir a loucura é muito longo para a mesquinhez de vidas tão estreitas. Tudo, exceto as horríveis horas dessas madrugadas ruins, é demais ligeiro. Tudo é sem jeito porque estamos irreparavelmente sem conserto. E o que está partido não está no outro, senão dentro de nós mesmos.
Um banho, uma consulta, um conselho, uma oração ou um resto qualquer de sanidade para dizer ao inoportuno que pelo menos volte mais tarde é tão somente o desespero de se estar vivo; exposto ao dia que se foi, indisposto com o dia que não chega; sem nunca saber, de fato, a que veio esta forma humana de vida suspensa no mais escuro e inominável medo.
Márcio Ares. 2009.
Um par de asas
Há dias, ela permanece ali, na aba da janela, num silêncio respeitoso.
Não estou certo de que ela se reconheça uma lepdóptera. Não posso afirmar que ela já saiba da transformação. Nesse tempo recém nascido de um mundo para pouca existência, ela permanece pousada, quieta, talvez indiferente. Faltam-lhe, quem sabe, a coragem para o entendimento ou a compreensão das novas possibilidades. A fé não interrompe o temor do mundo ainda por se libertar.
Se, de repente, em lugar de pés me ocorressem asas, e ao invés de vagarezas me fosse dado o céu, também eu me entregasse ao sem fim letárgico para a aprendizagem da vida. Saber sobre si mesmo é uma descoberta contínua, um exercício inquieto de experiências que se mesclam de alegria e medo. Muito mais que de grandes certezas, viver é feito de pequenos pedaços.
Eu já adivinhava sua existência desde que ali chegara, ainda larva, com a paciência dos predestinados. Senti-me honrado em ceder minha casa para outras moradas. Fui feliz no encontro com aquela promessa de vida. Fiquei quase anjo anunciando a graça.
Depois, ao sopro dos ventos ao fim da tarde, o vai-e-vém do casulo cumpria com a gestação de futuras asas, desenhando seus matizes pelo ninho ensimesmado. Aproximava-se o tempo majestoso de cor e liberdade, a hora para o mundo.
Eis que a pequena criatura não entendeu o milagre. Há dias, ela permanece ali, na aba da janela, num silêncio respeitoso. Não há motivo que lhe conquiste a crença de poder voar. Existir assim, tão sem pressa, parece amor que não se acaba. E vai ficando aqui, enfeitando meu lugar. Um naco de primavera alheio de seus iguais, esquecido de outros ares, lembrando o meu olhar de amor no momento de sua chegada. Tão curta a vida e ela não quer céu nem sol. Não quer outro lugar.
Acho que essa borboleta enamorou-se de mim.
Márcio Ares. 2008.
terça-feira, 12 de julho de 2011
Na alameda de um certo Carlos Nunes
Há lugares mágicos que só por meio de amigos da gente tornam-se reais. E há amigos reais que, por serem mágicos, tornam os lugares um pouco da gente.
Lugares de aconchego, original e copiado, onde os domingos são sem tamanho e nos dão fôlego para a pressa das grandes cidades. Lugares que nos dão o ar para a vida que se quer vivida e transparente, cheia de amigos, prosa e poesia. Lugares de cumplicidade.
No recanto de um vale, há pouca distância, e depois da neblina, apruma-se a alegria do encanto. O cenário compõem-se de uma calma infinita, onde o tempo esquece o fim do dia e a gente vai ficando mais gente, ficando mais tempo, ficando, ficando...
Depois das curvas de dentro da serra, e além da serra, a viagem é dentro da gente. A paz é esse pouco de Deus ao nosso alcance e essas horas de encontro com o sentimento. E, para a alegria de um mundo às avessas, onde as memórias só têm o gosto do longe - e para que o instante seja mais pleno – salva-se, ali, um pouco de esquecimento.
Posso adivinhar, nas memórias de meu amigo, um olhar de propriedade sobre si mesmo. Com os pés largados pelo chão, alma livre e coração solto, ele se faz um entendedor de silêncios. Prepara os ritos feito pássaro retomando o ninho, ensaiando vôo até o sossego da razão, num retorno ao tempo antigo de ser feliz além do entendimento.
Ali, descansam as cores, quase à toa, não fosse a força da espécie na pretensão da existência.
Ali, descansa o ator, o homem de negócios, o menino de antigamente. Às vezes, um homem cansado e – muito raro – um homem descontente.
Ali descansa o momento mágico do olhar que ainda sabe o tanto que nos falta e a graça que nos cabe no instante presente.
Há lugares mágicos que só por meio de amigos da gente tornam-se reais. E há amigos reais que, por serem mágicos, tornam os lugares um pouco da gente.
Márcio Ares. 2010.
De casco a rabo
Foram trazidas por desejo. A solidão cristalizada em seu desapego aprendido fazia cada vez mais distante algum envolvimento, qualquer outro querer. Sua indiferença lhe convinha à incompreensão do amor. Morava só. Não tinha uma casa propriamente dita, mas um barracão de boa estrutura, embora sem muita alegria. Estar distante e só não lhe parecia um árido caminho. Gostara delas, no entanto. Vieram, as duas, ainda pequenas, mas muito bonitas, verdinhas, verdinhas. Nunca antes imaginara, é verdade, trazê-las para morar com ele, até imaginar o silêncio conveniente de serem amigos.
Pareciam, no entanto, desaprender, a cada dia, qualquer vínculo de amizade, qualquer contrato da boa convivência, um mínimo princípio para com o novo lar e o novo amigo.
É certo que nunca antes ele se doara a alguma amizade contínua. Tivera, nos tempos da infância, apenas um frango que se pôde chamar grande amigo. O frango parecia gostar de histórias. Assistiam juntos, do sofá da sala, aos programas de final de tarde, na televisão. E era o Sítio do Pica Pau Amarelo o programa preferido.
Eis que um dia o menino descuidou-se do amigo. O imprudente frango, travesso que era, caíra na privada, donde fora retirado, quase morto, com algumas penas arrancadas e uma asa meio caída. Mancou depois por longos dias - nem se sabe se pela queda ou se por algum outro inusitado possível. E embora uma suspeita o acompanhasse vida afora, já não se recordava por que motivo triste afastaram-se na vida.
Agora, num arremedo de memória, investia outra vez na conquista de amizade tão singular. Quando chegaram, estavam calmas e não se mostraram deslumbradas. Também não demonstraram desgosto, nem se abateram com mudança tão repentina. Vieram mansas e cuidadosas, educadas para serem boas companhias.
O tempo, no entanto, não cumpriu com o amor esperado nem as tornou mais amigas. Eram duas desavisadas. O olhar de amizade não as aquietava. Não se importavam com as ternuras que lhe eram destinadas nem com os carinhos que lhe eram oferecidos. Inventavam caminhos sem rumo e não se importavam para onde iam. Planejavam, sem nenhum cuidado, suas loucuras pela casa. A altura dos móveis não lhes dizia nada. O terreiro não lhes impunha qualquer destemor. Nenhum perigo servia-lhes de alerta para a vida. O aquário onde ele as punha, para a natação ou rápidos mergulhos, era de onde sempre fugiam. E se o escuro não lhes tirava o rumo, a claridade não lhes dava melhor destino. Muito antes que o amor existisse, desaprenderam-no sem qualquer aviso.
De coração miúdo, doou-as à esposa de um grande amigo, na esperança de que elas descobrissem o sentido de amizade, ou que ao menos se entendessem melhor na vida. E eu até hoje imagino que aqueles dois quelônios foram o seu porquinho da índia.
Márcio Ares. 2009
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