Eu fiz um canção de verdade
para que tocasse quando a gente se encontrasse
n’algum bar, no mar, na areia,
e ela comigo se casasse
para que entre nós dois, feito música alheia,
o acaso de amar
bem soubesse a que veio
Márcio Ares. 2011.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
POESIA SEM SABER
A vida se amplia, os meios se renovam, a ciência diz outros caminhos e eu continuo quase um homem das cavernas.
Aprendi palavra, disso eu não dúvida, mas o argumento é nada, ou muito breve, quando ouso discutir modernidades. Atém-se a outras dores o meu escrito, homem sob efeito de algum menor futuro.
Tenho amigos, no entanto, que, assim sendo, afastam um pouco as sombras, dão-me algum remédio, aliviam meu desencanto.
Alguns tentaram me induzir ao orkut, msn, webpage, sites... e eu, já passado de hora, e a tanto custo, vi-me, quase de repente, talvez até num susto, um ser moderno, mesmo acreditando ser tanto esforço inútil.
Irremediável, acabei cedendo ao blog e ao facebook.
Renovam-se os caminhos do homem quando ser homem não tem sido pragmático; mal mal uma questão teórica, nos livros de Filosofia ou de História.
Talvez eu venha a ser um expert em megulhar nessa imensidão, postar vídeos, imagens, comentários, fotos... mas tenho, antes, que ensaiar um pouco pra não fazer muito feio: um bruto tem certas dificuldades em fazer uso desses novos meios, não sabe renovar os conhecimentos, mas fica aqui, anônimo, quase um náufrago à deriva, admirando e temendo as facilidades do mundo.
Fazer versos, eu sei. Arrisco sem maiores medos. A solidão desse ato é de grande e justificável ajuda. Depender de outros mecanismos que estão alheios em mim é que salva este velho homem que sou, este ser de um outro e velho mundo.
O tempo, disse-me, dia desses, uma velha amiga, "o tempo é um trem que leva a gente". Leva às descobertas do passado, leva ao sem jeito de agora, leva às loucuras do futuro.
O tempo, as pessoas e os inventos que estão aí, ou que já se foram, que estão chegando, que estão partindo... vão me deixando órfão de saber das coisas desse tempo, do avanço desse mundo.
Acho mesmo é que eu prefiro aquele tempo em que as pessoas eram pessoas, e eram felizes, lá no interior de Minas. Aquele tempo em que não havia as dores de estar com o outro e ser sozinho. O tempo de quando não havia o risco de ver pela tela o desassossego e a desalegria da vida.
Por sorte eu tenho amigos que acalmam esse meu desencontro com tanta novidade e vão me botando no eixo, mostrando que nem tudo é desespero e que a vida ainda tem jeito.
Aos poucos eu vou me adequando. Quem sabe, um dia, eu seja lido por esses mecanismos e possa, dessa nova caverna, dizer palavra a quem somente nesses meios se veja.
Márcio Ares. 2011.
Aprendi palavra, disso eu não dúvida, mas o argumento é nada, ou muito breve, quando ouso discutir modernidades. Atém-se a outras dores o meu escrito, homem sob efeito de algum menor futuro.
Tenho amigos, no entanto, que, assim sendo, afastam um pouco as sombras, dão-me algum remédio, aliviam meu desencanto.
Alguns tentaram me induzir ao orkut, msn, webpage, sites... e eu, já passado de hora, e a tanto custo, vi-me, quase de repente, talvez até num susto, um ser moderno, mesmo acreditando ser tanto esforço inútil.
Irremediável, acabei cedendo ao blog e ao facebook.
Renovam-se os caminhos do homem quando ser homem não tem sido pragmático; mal mal uma questão teórica, nos livros de Filosofia ou de História.
Talvez eu venha a ser um expert em megulhar nessa imensidão, postar vídeos, imagens, comentários, fotos... mas tenho, antes, que ensaiar um pouco pra não fazer muito feio: um bruto tem certas dificuldades em fazer uso desses novos meios, não sabe renovar os conhecimentos, mas fica aqui, anônimo, quase um náufrago à deriva, admirando e temendo as facilidades do mundo.
Fazer versos, eu sei. Arrisco sem maiores medos. A solidão desse ato é de grande e justificável ajuda. Depender de outros mecanismos que estão alheios em mim é que salva este velho homem que sou, este ser de um outro e velho mundo.
O tempo, disse-me, dia desses, uma velha amiga, "o tempo é um trem que leva a gente". Leva às descobertas do passado, leva ao sem jeito de agora, leva às loucuras do futuro.
O tempo, as pessoas e os inventos que estão aí, ou que já se foram, que estão chegando, que estão partindo... vão me deixando órfão de saber das coisas desse tempo, do avanço desse mundo.
Acho mesmo é que eu prefiro aquele tempo em que as pessoas eram pessoas, e eram felizes, lá no interior de Minas. Aquele tempo em que não havia as dores de estar com o outro e ser sozinho. O tempo de quando não havia o risco de ver pela tela o desassossego e a desalegria da vida.
Por sorte eu tenho amigos que acalmam esse meu desencontro com tanta novidade e vão me botando no eixo, mostrando que nem tudo é desespero e que a vida ainda tem jeito.
Aos poucos eu vou me adequando. Quem sabe, um dia, eu seja lido por esses mecanismos e possa, dessa nova caverna, dizer palavra a quem somente nesses meios se veja.
Márcio Ares. 2011.
ENGAIOLADO PELO ACASO
_Amor, o Tony Ramos morreu.
_Quê? O Tony Ramos? Nunca! Morreu nada!
_Morreu, amor, morreu, sim! Insistia a voz do outro lado da linha.
_Como morreu!!!! Eu o vi, hoje, no vídeo show. Tá esbanjando saúde e talento.
_Ah!!?? Vídeo Show??. Não, amor, eu to falando é do Adoniran Barbosa!
_Ah, esse sim!!! ...mas porque é que você ta me contando isso agora!?
_Ué, amor...ele era o seu preferido!!!
_...então você tá falando é do Caubi Peixoto, né não?
Já ficando desesperada, a voz da esposa parecia até esconder uma lágrima.
_Oh, amor... eu to falando é do seu passarinho. Ta aqui, na gaiola, mortinho da silva, tadinho!!!!
_Ah? O Roberto Carlos morreu?
Já quase chorando, num misto de tristeza e solidariedade, a mulher continua, tentando dar aquele apoio moral, típico das horas difíceis.
_Oh, amor, sinto muito!!!
De repente, desconfiada, ela diz.
_Ué, mas você não ta confundindo o nome do bichinho não? Era Roberto Carlos mesmo?
_Eu falei Roberto Carlos???
Silêncio.
_ É Wanderley Cardoso, mulher, é Wanderley Cardoso!
Intrigado, um amigo meu, que é dado a ser poeta, assistia a essa conversa. Seu chefe, que era o esposo a receber a fatídica notícia, preencheu, depois, as lacunas da conversa ao telefone. Contou que tinha, há alguns anos, um passarinho, o Wanderley Cardoso, agora morto. Não o cantor, o passarinho, é claro!
_Vê lá - disse-me esse meu amigo – se isso é nome que se dê a um passarinho, coitado!
Que era bacana, a homenagem, ele até entendia. Mas todo dono que se preze deveria chamar o seu amigo alado de nomes mais dignos a um bichinho dessa espécie. “Biquinho”, “zazinho”, ou “piu-piu”, pareciam nomes mais acertados. E, nisso, eu concordo com ele. . Até que “Peninha” não seria mal, mas pareceu-lhe um pouco demais chamá-los Noel Rosa, Cartola, Nelson Ned, Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Wanderley Cardoso!!!!!
Também eu tenho em casa um passarinho. Ele canta e eu fico feliz. Pode cantar como os grandes e velhos artistas, mas, carinhosamente, eu o chamo de menino. E evito os riscos de me confundir. Será?
Márcio Ares. 2011.
_Quê? O Tony Ramos? Nunca! Morreu nada!
_Morreu, amor, morreu, sim! Insistia a voz do outro lado da linha.
_Como morreu!!!! Eu o vi, hoje, no vídeo show. Tá esbanjando saúde e talento.
_Ah!!?? Vídeo Show??. Não, amor, eu to falando é do Adoniran Barbosa!
_Ah, esse sim!!! ...mas porque é que você ta me contando isso agora!?
_Ué, amor...ele era o seu preferido!!!
_...então você tá falando é do Caubi Peixoto, né não?
Já ficando desesperada, a voz da esposa parecia até esconder uma lágrima.
_Oh, amor... eu to falando é do seu passarinho. Ta aqui, na gaiola, mortinho da silva, tadinho!!!!
_Ah? O Roberto Carlos morreu?
Já quase chorando, num misto de tristeza e solidariedade, a mulher continua, tentando dar aquele apoio moral, típico das horas difíceis.
_Oh, amor, sinto muito!!!
De repente, desconfiada, ela diz.
_Ué, mas você não ta confundindo o nome do bichinho não? Era Roberto Carlos mesmo?
_Eu falei Roberto Carlos???
Silêncio.
_ É Wanderley Cardoso, mulher, é Wanderley Cardoso!
Intrigado, um amigo meu, que é dado a ser poeta, assistia a essa conversa. Seu chefe, que era o esposo a receber a fatídica notícia, preencheu, depois, as lacunas da conversa ao telefone. Contou que tinha, há alguns anos, um passarinho, o Wanderley Cardoso, agora morto. Não o cantor, o passarinho, é claro!
_Vê lá - disse-me esse meu amigo – se isso é nome que se dê a um passarinho, coitado!
Que era bacana, a homenagem, ele até entendia. Mas todo dono que se preze deveria chamar o seu amigo alado de nomes mais dignos a um bichinho dessa espécie. “Biquinho”, “zazinho”, ou “piu-piu”, pareciam nomes mais acertados. E, nisso, eu concordo com ele. . Até que “Peninha” não seria mal, mas pareceu-lhe um pouco demais chamá-los Noel Rosa, Cartola, Nelson Ned, Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Wanderley Cardoso!!!!!
Também eu tenho em casa um passarinho. Ele canta e eu fico feliz. Pode cantar como os grandes e velhos artistas, mas, carinhosamente, eu o chamo de menino. E evito os riscos de me confundir. Será?
Márcio Ares. 2011.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Exílio
Toma todas as minhas canetas
e essa minha falta de jeito há de ficar sem lugar.
Mas leva também a areia, a tinta, a poeira, a canção.
Leva o resto de giz, o quadro de lousa, o graveto.
Leva o torrão, o lápis de cor, ou de cera.
Leva tudo o que se diz quando louco de paixão.
Leva minha garganta, a voz, o risco do batom.
Leva o mármore, a pedra, o formão.
Leva o sinal de fumaça, o palco, a palavra,
a mímica, o gesto da libra, o alto falante,
o sangue escrevendo urgência, pulsando inspiração.
Leva o micro, a tela, o plug, a janela.
E fica o verso um nada eterno,
um sujeito poeta
sem chão.
Márcio Ares. 2011.
Pássaro mais bonito
Meu irmão, aqui sentado,
pertinho, feito alguém que, bem do meu lado,
olha com outros olhos a mesma estrada que eu vejo agora
pensa em Belém, Norte acima, Rio abaixo.
Essa lembrança me cansa, talvez mais que a mais ninguém.
Não sei como vem esse longe que lhe basta
e que seu amor alcança à visão de um negro pássaro..
Mas não é minha a saudade.
Não sei dessa estrada o que ele sabe.
Lá, eu não deixei nada, além das águas.
Lá, eu não amei ninguém.
Talvez um mercado, um par de asas,
um pássaro de querer bem.
Márcio Ares. 2011.
Pó diverso
Gosto de olhar para uma estrada, feito um espelho,
e saber que ela está de um outro lado,
a caminho de casa, a caminho do mar ou, quem sabe, a caminho do nada.
Gosto de escrever em vermelho, colorir no peito a viagem,
dobrar de dor os olhos do amor
no eito da estrada
que fica pra lá, pra cá,
o lugar nenhum da saudade.
Márcio Ares. 2011.
O calor do poema
Segundo consta, nenhum pingo de sol aquecia-lhe o quarto.
Ao que se sabe, o frio é que adentrava suas entranhas, tomava-lhe a força dos braços,
roubava-lhe a cor, a língua do gosto, a beleza das horas, o fôlego da graça.
No fundo, além das tardes, e talvez mais profundo,
ela, atriz de alma grande, como sempre ousara,
ensaiava o seu melhor e mais lindo espetáculo:
viver a vida e seu fardo, enquanto, ao redor do mundo, queimava um pálido sol
que sempre, em todos os tempos, a todos faltara.
Àquela hora, o ato era uma só verdade.
A vida era uma gota de sol servida no banco da sala, platéia pequena,
dizendo a alegria da cena,
dizendo, à vida, coragem!!!
Márcio Ares. 2011.
Menino antigo
Este olhar podia estar na Grécia
Esta cor seria de outra terra
e os meus olhos saberiam outros versos
árida poesia politeísta
agreste beleza de raros invernos.
Esta manhã podiam ser mil ilhas
sem barco nem esperas.
Este olhar podia ser menino
acreditado além da vista
quente, navegante, vivo
colorido de ficar eterno.
Márcio Ares. 2011.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Ave, pequeno engenho
O vento frio resiste além da noite fria.
Ao meio dia da manhã, ele canta por entre as gretas da janela uma canção de gelo. E avança, constante e cortante, para dentro dos vãos que separam as casas, os prédios, os muros e as grades.
Parece avançar para dentro da gente.
A juriti, em seu ninho no galho da árvore que logo ali se avista, além da noite fria também resiste.
Ela não canta, mas não está triste. Avança, feito o vento frio, constante e cortante, para dentro do tempo em que serão filhotes os ovos dos quais não se separa, pousada entre as casas, os prédios, os muros e as grades.
Parece gerar paciência contra o frio.
Talvez nesta manhã em que o galho mais balança, pondo em risco o seu maternal ofício, ela tenha protegido de pena e cuidados as pequenas asas do futuro.
Talvez até parecesse um tanto apreensiva, na minha crença de tamanho e imprevisto frio, carregado por tão impiedoso vento de voz gélida e força quase impossível.
O ninho parece a perigo.
A árvore mal sustenta o galho.
O ninho quase não sustenta a vida.
A coragem de um cuidadoso abraço de asas é que se desdobra ao longo de incertos dias frios, até a hora devida.
Tanto cuidado não foi bastante.
Olhos que depois viram alçaram triste vôo na solidão do ninho vazio, do amor doído em vão.
Sem ovos nem mãe, restaram no galho o arranjo de gravetos e uma vontade bonita, guerreira contra o frio.
Pousou, sem jeito, naquele ninho, a desalegria da vida.^
Ela não canta, mas não está triste. Avança, feito o vento frio, constante e cortante, para dentro do tempo em que serão filhotes os ovos dos quais não se separa, pousada entre as casas, os prédios, os muros e as grades.
Parece gerar paciência contra o frio.
Talvez nesta manhã em que o galho mais balança, pondo em risco o seu maternal ofício, ela tenha protegido de pena e cuidados as pequenas asas do futuro.
Talvez até parecesse um tanto apreensiva, na minha crença de tamanho e imprevisto frio, carregado por tão impiedoso vento de voz gélida e força quase impossível.
O ninho parece a perigo.
A árvore mal sustenta o galho.
O ninho quase não sustenta a vida.
A coragem de um cuidadoso abraço de asas é que se desdobra ao longo de incertos dias frios, até a hora devida.
Tanto cuidado não foi bastante.
Olhos que depois viram alçaram triste vôo na solidão do ninho vazio, do amor doído em vão.
Sem ovos nem mãe, restaram no galho o arranjo de gravetos e uma vontade bonita, guerreira contra o frio.
Pousou, sem jeito, naquele ninho, a desalegria da vida.^
Márcio Ares, 2011
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Irrespirável
Às tantas horas da vida entrego o meu desencanto.
Não pode haver poesia em se fazer quarenta anos.
Onde a vida, que ainda outro dia, era mais que futuro?
Onde a palavra ainda virgem porque a mão insegura no oficio da escrita?
Onde o sorriso ainda bonito e a fé tão pura iluminando o sem fim do caminho?
Onde a beleza dos olhos para cada criatura, um momento qualquer, aquela coisa da mínima alegria?
Onde o metafórico leão a ser combatido com a força do sonho, na insuspeitada graça do desafio?
Onde o colo da mãe, o abraço, a benção do pai, o respeito daquilo a que se chamava família?
Onde a confiança nos iguais, o amor feito eterno carinho, o filho de Deus na simplicidade dos Natais?
Onde o coração arfando sem saber, o frio na barriga à espera do improvável primeiro beijo?
Onde a certeza do amor irrestrito, inquestionável, simples, com jeito de flor e asas coloridas?
Onde o longe da impensável morte, das improváveis rugas, dos semblantes tristes?
Onde o engano da felicidade possível?
Não pode haver poesia em se fazer quarenta anos.
Onde a vida, que ainda outro dia, era mais que futuro?
Onde a palavra ainda virgem porque a mão insegura no oficio da escrita?
Onde o sorriso ainda bonito e a fé tão pura iluminando o sem fim do caminho?
Onde a beleza dos olhos para cada criatura, um momento qualquer, aquela coisa da mínima alegria?
Onde o metafórico leão a ser combatido com a força do sonho, na insuspeitada graça do desafio?
Onde o colo da mãe, o abraço, a benção do pai, o respeito daquilo a que se chamava família?
Onde a confiança nos iguais, o amor feito eterno carinho, o filho de Deus na simplicidade dos Natais?
Onde o coração arfando sem saber, o frio na barriga à espera do improvável primeiro beijo?
Onde a certeza do amor irrestrito, inquestionável, simples, com jeito de flor e asas coloridas?
Onde o longe da impensável morte, das improváveis rugas, dos semblantes tristes?
Onde o engano da felicidade possível?
Às tantas horas da vida entrego o meu desencanto.
Não pode haver poesia em se fazer quarenta anos.
O menino que eu fui ainda chora comigo, brinca feliz, tem medo do escuro.
O jovem que eu fui ainda quer ser bonito, quer mudar o mundo, curtir a turma, fazer nenhum compromisso, ter alguns apelidos.
O moço que eu fui ainda ergue o diploma com orgulho, acha um barato música e poesia, tem norte e tem pulso e quer acreditar na vida.
A essas horas entrego minha pena, meu dó, o meu mais esquisito.
Contrario o tempo, eu sei, que nunca esteve de mal comigo.
Acontece, agora, é que ele me dobra, amarrotando o meu querer indizível, dizendo que é hora disso ou daquilo.
Quero ainda perguntar, mais que ter respostas.
Quero o outro planeta por habitar, mais que esse lugar de minhas longas horas.
Quero algum largo horizonte, outras águas para o horror desse instante.
Quero o fundo mais fundo do mar, mais que um passeio pela costa, mais que o ar desses quarenta anos.
Márcio Ares. 2011.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Morte e vida severina
Sem tamanho é tomar a dor de uma gente e dizê-la encanto, em verso, prosa e dança às muitas gentes de um outro tempo.
Dizer essa dor, em cena, no entanto, não é só lamento; é alegria de busca, de promessa, de encontro. Dizê-la a este mundo que se cala, quando gritar é urgente, é o que faz Pedro Paulo Cava - que de novo não se basta e, bonito e pronto, se reinventa.
Escorre, em nossos frágeis olhos de gente futura, a coragem bruta, de morte e vida, a lágrima seca, severina terra de um viver incerto, inseguro, descontente. A fuga é o desencanto de uma outra e mesma gente que não se desculpa da verdade posta; e cava muito fundo outra sorte.
Tanta voz é mais que martírio. É de beleza que se chora.
De canção em canção, de momento em momento e de cena em cena – além do Pedro, além do João, além do Chico - temos um torrão concreto de felizardos artistas doando-se ao chão do mais miúdo detalhe trincado de muita existência.
É a voz que não redime a dor, mas que sustenta a paixão que se sente, que ironiza enquanto se mostra, que diz a que vem. E que às vezes faz rir, mesmo quando dói.
Dá licença o canto exposto para o bom gosto de alguma outra aparente estranha melodia: “carcará”, que toma pouso no canto presente; “súplica cearense”, tomada de súbito à voz de todo esse orquestrado elenco, feito um rio que se vence e que em mil almas se molha; "fica mal com Deus" que diz a fé de uma força que nunca se cansa e "asa branca", esse voo de terra e de longes que faz tão perto todo esse arranjo.
O rio nasce num seco de voz e vontade, o corte da corrente, destino de outras águas. E segue a vida a morte, a brisa de uma gente encorajada no assombro desse espetáculo que não tem hora.
Fica é a gente sem leito, sem saber chegar. E vamos ficando foz que ainda chora essa terra de querer e ir embora.
Esse mar, essa voz que agora faz lembrar o longe e mais belo da história, banha a alma de quem chega seco, insiste, e fica à mercê de algum pronto recife, náufrago de vida e morte, terra e lugar, severina sorte.
Márcio Ares, 2011.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Irrealizável
As promessas de ontem ficaram no depois do amor
na timidez, quem sabe, talvez num pouco de medo,
no desencontro do quarto, no silêncio da sala,
na urgência da pele, na pressa do corpo,
à espera de hoje as promessas ficaram
Mas a manhã não termina o anseio
e as horas se beijam, no desassossego.
Na memória que ao tempo se entrega, muito além da espera,
as promessas ficam mais desejo
Márcio Ares. 2009.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Herdeiro
nasceu do ventre de uma puta
puta que pariu esse amargo
rastro de fumo e cachaça
cheiro de merda escarrada
nas fuças de um porco amor
nasceu do ventre de uma puta
puta que se abriu pra esse macho
mastro de lume e desgraça
feito de festa acabada
nas grutas de um coito invasor
nasceu do ventre de uma puta
nasceu do centro das culpas
nasceu no escuro da porra
filho da puta que sou
puto que me fizeram
feito o puto que eu me sei
feito o puto que eu me sei
desse orgulho me desfruto
o mesmo fruto que eu herdei
Márcio Ares. 2008.
Força do lugar
Sob a luz do desencanto
soa ainda um canto azul
de céu, de mar
sou ainda enquanto azul
o blue do canto
soa ainda o canto cru
de cor azul, de céu, de mar
Sob a fé do mesmo arranjo
soa ainda um verso ateu
de rima e vez
soa ainda a voz do lindo
o amor adeus
soa ainda o medo infindo
a dor do mundo, a cor de amar
Sob as cores dessa força
tem açoite o meu cantar
a voz da noite
tem a boca pra lembrar
o céu da boca
tem o povo um gosto novo
pra encantar o todo, este lugar
Márcio Ares. 2009.
De volta
A cidade está lá fora, antiga e quieta.
Não sei olhar para ela sem o romance do Chico, Budapeste.
Árvores e telhados e janelas se enamoram de um Danúbio infatigável
muito depois daquela negra floresta.
A cidade e o rio se irmanam um pouco além do meu olhar.
Deste quarto não se avistam todas as grandes pontes, a outra cidade, mercados, mirantes.
Ainda guardado de mim está tudo lá, românticas pedras fincadas, fantasmas de boa fé,
minha alegria quase nada distante.
Feito este fim de tarde, o céu de amanhã há de ser avermelhado e frio.
Eu terei medo, como qualquer homem, à visita de um secular demônio.
Ele atravessará o quarto, me chamará de velho amigo, tocando-me o ombro.
Dirá que, antes do livro, antes do Chico, do sonho e deste reecontro,
aqui estive soldado de Átila, magiar huno, um guerreiro anônimo.
Sob a névoa do tempo e versos sem rumo, vejo, à minha volta,
com o olhar descoberto e um rastro de memória,
a cidade lá fora, antiga e quieta.
Márcio Ares. Hungria. 2008
De repente amigos
Encontramo-nos em Praga. Eu , querendo uma boa foto; ela, um menino Jesus.
Era novembro, um dia frio, a cidade cheia de todas as gentes.
Ela, deveras altiva, de casaco fino, modos sutis, aristocrática alegria.
Uma senhora de muitas histórias. Sabia os caminhos do mundo.
De modo único, sabia ser menina, toda prosa, terna amiga.
Tornamo-nos um trio. Ela, a filha mais moça e eu, tomado de empréstimo feito o mais novo dos filhos.
Fui feliz, naquele inverno-prenúncio de amizade tão fecunda.
Quando partiram, fiquei suspenso comigo, revendo as pontes da Hungria.
Seguiam mais longo caminho e eu, pesando o dia interminável, já não sabia ser sozinho.
Quisera a vida existisse sem tempo para despedidas.
Minhas fotos dirão, com certeza, o olhar de amor daqueles dias.
E o menino Jesus, desencontrado, na leveza dela fez-se a memória da vida.
Márcio Ares. 2008.
Recomeço
escreve sem medo, sem meio termo
seca estiagem, rio acima
escreve escravo, escreve grande, cor
escreve negro, branco menino
escreve palavra, escreve o anjo
escreve Deus, o dó, o arranjo
escreve o cheiro, o cansaço, a mãe
escreve pedra, escreve longe
escreve quem te ama e pára o tempo
suspende a rima, a repetição
inclui artigo, metalinguagem
aumenta o verso, altera o som
e espera
espera crítico, fã, editora dizendo não
espera a história, de novo o artigo
o amor parado desde o nono verso
escreve louco e, por fim, o título
esquece o outro, mergulha imprevisto
repete o som, o maldito não dito
retoma o tema e deixa a solução
pra um leitor aflito que nem sabe que não
vive o vazio, o medo, o meio termo
seco, estiado, rio abaixo
escrito pequeno
descolorido
Márcio Ares. 2008
Contingência
São tantas horas mais alguns minutos
contados no tempo
o passar das horas, segundos inventos,
o primeiro instante perdido na história,
a força argumento.
Olha a hora, olha a hora, olha a hora!
Atrasa a vida a pressa do relógio.
Adianta o mundo esse contratempo.
Olha a morte, olha a morte, olha a morte!
Mais dia menos dia, mais hora menos hora, mais gente menos gente!
Márcio Ares. 2008.
Aldrava tcheca
Quando vierem chamar à porta de tua morada
serei eu, fiel e vigilante leão, a anunciá-los.
A todos eles,
não obstante a liberdade pretendida dos poetas
ou aqueles de amizade mais querida.
Músicos, bêbados, pedintes,
crentes orgulhosos de sua fé, transviados, incrédulos,
ambulantes, amantes, meros desconhecidos,
artistas sem portfólio, produtores de renome ou anônimos sem norte.
A todos farei ouvir o meu rugido.
Serei a memória de uma república distante, forjada no leste da Europa.
Sob o mais leve toque, serei a voz da tua porta.
E, se um dia te tornares terra inóspita,
eu te farei um continente ao alcance de qualquer visita.
Toc... Toc... Toc...
Márcio Ares. Praga. 2008.
domingo, 24 de julho de 2011
Adivinhação
Você é puro silêncio quando eu preciso entender
não aponta o meu pecado, o meu tempo de ir e vir,
nem sinaliza a estrada quando procuro você
Você é muro de ausência quando estranho o que há de ser
não diz a razão das horas, o tempo de quando vir
muito antes de ir embora quero sempre acontecer
sem saber a minha sorte, minha morte é minha dor
e vou ficando sem norte e vou morrendo de amor
Márcio Ares. 2008.
Sedução
não me olhe, não me queira
pega a minha mão, entende o meu medo
então recomeça, devagar, minha descoberta
meu amor sem lugar
meu encanto em saber
não demore, não me deixe
toca minhas horas, espera o meu beijo
irmão descoberto sem esgar, mínima pressa
e depois deixa estar
meu espanto de ser
para toda hora teu olhar me despe
para toda veste teu querer me vê
Márcio Ares. 2008
Labirinto
Hei de ser eu mesmo em algum lugar
dentro de mim falta espaço, jeito, coragem,
tudo o que no outro ninguém ama,
tudo o que no outro ninguém arde
O silêncio amarga essa chama
porque não sabe onde
e nunca responde ao desespero
e nunca pergunta se vou suportar
É sem lugar essa dor.
É sem amor este lugar.
Márcio Ares. 2008.
Depois do olhar
Pode parecer confuso o que não sei dizer,
mas existe, cá dentro, inteira e absoluta, a minha clareza,
tragédias, romances, poemas inteiros de amor
e uma vontade sem fim
a fome do mundo.
a fome do mundo.
Tudo se estende para abraços incertos e artes equivocadas.
Nada se orgulha de ser encoberto, triste ou confuso.
Com a paciência do desejo, ou a ânsia dos desvalidos,
vai-se construindo um olhar diário e ousado
para o espetáculo das horas de certeza, de alegria,
no entendimento de se viver só,
sem palavra para a incompreensão dos sentidos.
Na desordem residem minha clareza e meus limites.
A vida é mais forte no desequilíbrio de tudo o que se pode.
Portanto, perdoa, se não me faço entender:
meu descaminho ainda não se deu à razão das minhas memórias.
Márcio Ares. 2008.
Perdido
não leva contigo meu olhar de amor
deixa-o comigo, ainda que pouco
apaga no espaço meu brilho cadente
torna pó o meu tempo de novo
dobra o cabo da minha esperança
busca outro mar sem o lastro de mim
retoma o destino, o antes da gente,
o vasto princípio sem medo de fim
deixa-me morrer que eu vivo sentido
salva tua vida que eu morro por ti
Márcio Ares. 2007
Anoitecido
o dia morre órfão de memória, ancorado em velhas promessas
águas de pouco futuro
um marinheiro à espera
e nenhum barco
sem amor sou mais sozinho comigo
a dor do mundo
céu e mar engolem meu norte
o mais profundo de mim
as horas alongam a falta
e o sol escorre dos olhos
no longe em que eu te perdi
Márcio Ares. 2007
Também português
O mar profundo nessa minha bandeira:
no azul redondo a bola do mundo e o branco de estrelas.
No meio, outro rumo, ordenando o progresso,
dividido ao mais diverso, pedaços do inteiro
O mar das muitas lonjuras, o verde esperança,
coragem mais plena e porto inseguro,
a cor do mato e de amar outro mundo,
o mastro fincado nos tempos futuros
e depois outra cor, o minério, a riqueza
Balança no invento a maior das bandeiras,
um povo, uma gente, um princípio distante,
e um chão brasileiro.
Márcio Ares. 2007.
Entrega
Sejam feitos frente e verso
Nosso gosto, nossa espera
Nosso rosto, este inverso
Nosso corpo, nossa veste
Tanto cheiro, a casa em festa
Nós outros
Sejam feitos frente e verso
O teu jogo, minha pressa
Tanto gozo, tanto resto
Pouco a pouco
O longe, o perto
Nosso louco amor mais louco
Sejam feitos céu aberto
O muito, o pouco
A frente, o verso
Márcio Ares. 2007
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