terça-feira, 19 de julho de 2011

Acontecido


Rompeu-se o milagre da alegria
porque o novo é por demais antigo
e as invenções perderam a memória do amor.
O estranho mundo fechado em que nos tornamos
escondeu de nós mesmos o que éramos.
Tudo o que podíamos esperar de um futuro sem arestas
garantiu-nos a plenitude corajosa dos intervalos vazios
para que fôssemos o homem exato que se compreende
trágico, irrealizável, cansado,
de consciência e certeza estranhamente firmes.

Agora, depois de ampliado o desconhecido,
feito quem não volta por temer desencontrar-se
o milagre da alegria é só um sonho vivido,
o amor dos seres ausentes
vazio, antigo e triste.


Márcio Ares. 2009.

Reis do reino


Basta-nos ser medianos, vagos repetidores do vazio,
hipócritas fingindo glórias e verdades serenas.

Basta-nos ser menos humanos, perigosos construtores do perigo,
maníacos impondo às horas a política suprema.

Basta-nos ser muito pouco para a loucura da força,
o  aplauso dos medíocres e o medo mais pleno.


Márcio Ares. 2009.

Vértice



A folha sobre a mesa tem a cor do sol ao fim da claridade.
A evidência deste poema consiste nessa palidez.
Um tempo antigo invade os meus olhos e as cores que vejo são tristes.
Nada foi ouro, aura divina ou nascer do sol.
Meus versos já se encaminhavam para o crepúsculo,
essa tristeza sem fim.




Márcio Ares. 2009.

Vazio de dar dó


São muito possíveis as coisas que não se podem ver.
O bem é possível, o amor é possível, Deus é possível.
As dores de agora, os crimes desta hora, o horror, também são possíveis.
E o silêncio que se instaura naquele que jamais amou
este, sim, é o impossível mais possível que se vê.


Márcio Ares. 2009

Simples


Quero um carro que me leve, mesmo velho,
Quero um amor que não me deixe insatisfeito
Quero um céu que não me olhe sem estrelas
e um senão que não se entregue sem firmeza

O que eu não quero é um carro novo, sem estradas,
um amor que me endoideça sem leveza
um céu encoberto de faltas para sempre
e a mais certa imprecisão do medo

Eu só quero o que era sonho
antes de tanta certeza



Márcio Ares. 2009.

A qualquer tempo


Eu quero escrever um poema de inverno
enquanto as folhas mudam de cor e caem serenamente.
O tronco, ficando nu, parece grávido de promessas.
Só depois de outra estação haverá poesia.
O frio das horas cala o que foi a mais humilde das sementes
e as palavras são ainda de outono, o tempo sem fim.
Meus versos são brancos, agora ainda mais que sempre
e só um poema saberia as dores de mim.


Márcio Ares. 2009

O que não podia


O sentimento que eu posso são todos os sentimentos.
O medo parece-me qualquer coisa de outro mundo
- lugar invisível, de cheiro silencioso, jamais tocado.
De vez em quando, com a imprudência do universo,
feito meteoro atinge-nos em cheio, na pior das horas.
Estrangeiro nada confiável, e de muito pouca valia,
vai ficando sentimento bruto e sem amor.
Inesperado esse medo que me visita
para viver em silêncio comigo.


Márcio Ares. 2009

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Fraternal

Sem medo eu posso amar o meu irmão,
posso olhar o escuro de seus olhos  sem razão e dizer coragem
coragem para o clarão das horas por chegar
coragem para aprender coragem
para entender perdão.
Sem medo eu posso qualquer bobagem
o desvão da futilidade
e as grandes obras da criação.
Sem medo eu posso mais pecados
mas posso mais, muito mais,
amar o meu irmão.




Márcio Ares. 2009.

DONA RITA

Pão de queijo com poesia é minha mãe
dizendo não ter receita nem santo
só um prato de polvilho
e de queijo um outro prato, de mesmo tanto.

No silêncio curioso
de seu primeiro vôo, o diferente de tudo,
olhou à direita, à esquerda e, quando mais parecia que a encantava o mundo,
olhou-me nos olhos, tocou meu joelho e, bem ao seu jeito, disse:
_o homem inventa tanta coisa que até parece absurdo!

Ensinou leitura sem nunca saber das letras
julgou criar futuro, adivinhando, segura, os erros
de  quando eu não lia direito.

Muitas coisas lembram minha mãe:
olhar de amor infinito, viagem por onde tem flores,
lata d´água na cabeça, mãos cultivando canteiros,
camisa de retalho e ternura, embornal cruzado no peito,
gosto de água filtrada, senhoras no aeroporto,
velhos escritos guardados, fé pra uma vida inteira,
poesias de pão de queijo.


Márcio Ares. 2009.

Mareado


O mar é o que se é, o que se lembra
palavra azul de barco
manhã brilhante, sol de bom tempo
olhar muito comprido e sem fim.
O mar é raiz muito profunda
mais que o sentimento
que nem se pensa acabado
e que não sai de mim.


Márcio Ares. 2009.

Novo Norte


O choro de um homem faz a humanidade
que em toda língua disse vida e morte
e em todo canto pensou verso e armas,
mas teve a sorte de inventar saudade
_ou terá sido um barco, senhor,
pra esse mar de dúvidas, essa liberdade,
a impaciência desses grandes portos,
a violência de tudo o que importa,
ou o choro de Deus para o mar salgado?

Márcio Ares. 2009.


Catarse

Entardece a minha coragem a incerteza de não trazer comigo a poesia noroeste dos Buritis.
Longas veredas atravesso em busca do velho caminho, a criança que eu desaprendi.
Homem desfeito de longes nunca soube os ondes do fim.
E vou ficando de noite, ausente dos Buritis de um dia,
desencontrado de mim.

As terras de eu não ser pequeno ficaram onde mais grande se faz o caminho.
No vão da encruzilhada o tempo fez suas marcas e em vão perdeu-se aquele destino.
Só agora, em que a direção busca o longe dos olhos,
com o mínimo deste verso reaprendo, nos olhos daquele menino,
esse amor esquecido.



Márcio Ares. 2009.

Inexplicável


Renasce, feliz, o dia e respira leve.
A primavera, lá fora, aqui dentro, um dia.
Tudo que era bom sorri a esta hora e eu me entrego,
ávido de coisas que não se dizem.
Sou humano porque tenho Deus e olho o céu.

A manhã sorri sem pressa o amor que sabe e eu nem desconfio.
Também pudera, mal entendo a primavera
que renasce feliz
e, leve, respira, a idade dos dias.


Márcio Ares. 2009.

Desamparo


Nesta longa e fugaz viagem
entrefecho os meus olhos para que os carros corram mais rápido
para que o vento seja salgado
e para que o dia possa nascer como tu o disseste:
a ternura a caminho do mar
em meu coração ainda brusco e selvagem

O amor de não saber entre dentes despe o mistério.
O longe, tão longe, agora mais perto
tornou-se a escuridão indefesa de longos corredores sombrios
e o desespero da angústia das salas de espera.
O que era dilatou-se ao longo da viagem
e nem mesmo tu, minha amada Clarice, o tomaria de volta
sem que se gastasse também o amor da palavra

O céu e a terra engoliram os beijos de minha mãe
e, antes que eu soubesse o que podia tanta dor,
no branco de meu rosto descubro o exato gosto do mar.
Só o vento, agora, faz carinho em meus cabelos
e aquela coisa quase engraçada, horrível dentro do peito,
como o infinito estranho das águas, sabe-se sozinho, quase vivo,
um grande, pesado e impossível cansaço
que mais parece saudade

domingo, 17 de julho de 2011

Apucalipse


Enquanto fazemos Letras, o povo continua a ser maltratado, a cidade continua a pedir socorro, o país continua a requerer cuidados, o mundo continua a entortar direitos,  esquecer o respeito e a ignorar humanidades.
Enquanto fazemos Letras e aprendemos teorias, o jornal conta desgraças, o livro diz o que não basta, o poder inova seu modus operandis na hipocrisia legal e um bando continua reinando, rosnando, envergonhando a ética e a esperança de um pacífico povo, quase iletrado.
Enquanto fazemos Letras, redesenhando teorias e análises, mas não produzimos novas letras ou novas falas, o silêncio ajuda na luta social por interesses escusos em detrimento de quaisquer princípios morais. Guardamos o silêncio, alheios a tudo que nos devasta.
Enquanto fazemos Letras e calamos a nossa criatividade, essa grande e potencial vantagem, o silêncio de cada um de nós vai nos fazendo esquecer que sabemos o que está acontecendo enquanto não fazemos nada.
Enquanto fazemos – e é verdade que nós fazemos? - letras, vamos enevoando o sentido expresso pela escrita com a indisposição de assumirmos a responsabilidade por dizer todo o necessário, tornando bastarda a nossa própria possibilidade.
Enquanto fazemos esse curso, humanístico, de inicial maiúscula e crenças de bem formado, povoando de expectativas o nosso lugar, vamos reduzindo ao ininteligível o grandioso e esperado resultado, desaguando em preceitos que não se cumprem e autoridade sem valia ou muito pouco superior para dizer o mal que nos alarma.
Com todas as letras ainda somos nada.  Lemos o que está pronto e escrevemos mal. Interpretamos sob a luz de estudiosos o saber nem sempre necessário.
Com todas as letras somos coniventes com a ignorância que afronta a contemporaneidade.
E porque não sabemos dizer, escrever ou gritar o texto do saber necessário, enquanto passamos por essa aulas vamos nos esquecendo do uso prático da palavra, da eficiência dos levantes intelectuais e do acento organizado no caos da ordem estipulada.
Não é só da Letras, é verdade, o silêncio, bem como a responsabilidade.
Embora seja nosso o maior poder de escrever, de se fazer ouvir e denunciar, a conivência tem sido regra geral nos demais cursos da Universidade.
Até quando haveremos de estar cegos, surdos e calados?


Márcio Ares. 2005.

Pequeno sonho




Sonhei, por mais de uma vez, alguma noite passada, ser um periquito. Desajeitado esse sonho, num sem jeito meu de ser tão pequeno e verde, mas gracioso dono de belas asas. E pressentia, ainda, no sonho, que era sábio como as corujas.
Para um amigo, sem muito tardar a manhã, contei sobre o sonho. Surpreendeu-me sua alegria ao perguntar interessado como se consegue um sonho assim, se por meio de ofício em duas vias, se por requerimento ao chefe direto.  Ficou cheio de vida com o sonho, esse meu amigo.
Fiquei feliz que o meu sonho fizesse algum sentido ou provocasse vontades. No entanto, calei-me. Não contei o fato de que eu, pássaro verde e miúdo, estava indisposto com o espaço também pequeno, ávido de brisa, árvore copada, vento sem norte e longas distâncias. Não quis contar que chilreava minha desalegria de não voar além da grade que me proibia o céu, toda a felicidade. 
Alguns anos depois, escrevi esse texto com as penas que tive de mim. Escrevi a minha cor engaiolada naquele sonho ruim e bom, segundo meu desentendimento ou a sedução e desejo manifestos pelo meu amigo.
Não sei ser pássaro. Embora eu goste tanto de voar e precise de largos espaços geográficos, não sei ser pássaro. Não me cabem o silêncio noturno na plumagem mole das sábias corujas, nem a inquietude do periquito sem lugar.
Pergunto-me se não foi o sonho uma metáfora, o meu desejo inquieto de liberdade. Um dia qualquer hei de procurar por um desses velhos que predizem a vida e lêem os sonhos como palavras cruzadas onde cada lembrança do sonho diz outros espaços, outras verdades.  
Resta, com prazer o digo, o olhar desejoso de meu amigo. A identificação – e até uma certa inveja, ouso dizer - para com a beleza de meu sonho, ainda que não de todo esclarecido. Seria mais fácil, penso eu, se a razão dos sonhos fosse apenas isso: um motivo para a vida dos amigos que se aventuram a ser corujas ou periquitos.



sábado, 16 de julho de 2011

O que somos


Um homem bomba e duas jovens acercam-se do veículo de uma brasileira, em Israel, e pedem carona. Morrem o homem, a mulher, seus filhos e as duas jovens que também de carona seguiam. Voltavam de um encontro festivo e explodiram junto àquele homem que assim, em sua fé, projetava-se na direção de Deus, fazendo-se exemplo para os que ficam.
            Um brasileiro sorridente, irradiando graça e simpatia, parte da terra, no Cazaquistão, não em direção a Deus, mas a uma estação espacial. Na companhia de russos e outros homens irmãos, um brasileiro exerce a sua fé na direção de um sonho e deixa o exemplo que nos empurra para novas conquistas.
            Os motivos foram individuais, mas também a expressão de um povo. Ambos exigem conhecimento, cuidados e o comprometimento com a vida: uma vida que se deseja, outra que se desintegra. Uma vida que arde por descobrir, entender, responder ao anseio fundamental do que somos, de onde viemos, para onde vamos. Outra vida que arde por discordar, submetendo-se, gritando contra o que se tem sido, o que deveria ser e como, a seu ver, tudo haveria de vir. Este, prepara-se na vontade imposta por uma lei antiga, interpretada, reescrita, olho por olho, dente por dente, ao longo dos tempos que agora a tristeza nos dita. O outro, prepara-se na ousadia da vontade própria, voluntariosa, laica, num impulso de vida que ora nos orgulha e motiva.
            Quase meio século se passou, depois de Gagárin, e o nosso brasileiro vai em busca do ainda desconhecido que nos desafia. Milhares de anos se passaram e o outro insiste na reconhecida estupidez que acredita ser lícita.
            Somos, no entanto, sem infinita tristeza ou indelével alegria, um pouco desses dois homens que ousam porque acreditam. Somos esses dois homens que agem pelo o que virá depois deles, depois de nós. Agimos, como eles, a partir do que nos espanta e excita, em concordância com o que nos legou a memória antepassada de lutar o nosso combate enquanto nos restar a vida.




Márcio Ares. 



quarta-feira, 13 de julho de 2011


Ancestral


A noite passada, estive louco.
Estava sozinho em casa, tinha motivos para a paz comigo, mas estive louco. O sono escapava de medo sob tantas imagens amargas e embaralhados pensamentos ruins. A minha cabeça era bomba nuclear a ponto de me fazer para sempre vítima de sua contaminação atômica. Enquanto a madrugada se arrastava com seus pântanos de sonhos fatais e suas guerras contra indefiníveis monstros, precisei de um banho. A água fria escorrendo pelo meu corpo, a vontade urgente de pensar só depois. Por que os fantasmas nos atacam na melhor das horas para um sono de paz?
A amiga que me telefonou logo pela manhã - terá ela adivinhado minha carência de socorro? – perguntou-me se fora um banho com roupa. Hum? Por acaso estava sem roupa, respondi. Ao que ela me disse que eu tinha sido comum como toda a humanidade comum que se banha sem roupa. Salientei, no entanto, que se estivesse vestido, teria me furtado à destreza suficiente para despir-me naquela hora sangrenta de insônia alucinatória. Acho que você deve se casar, disse ela. Então, teria alguém para me tirar as roupas. Nova interrogação assomou à minha consciência ainda cansada e mal dormida, sem que eu entendesse a alusão à nudez ou a discussão sobre minhas vestes.
A que ponto chegou a instituição casamento? Perguntei-me, algum tempo depois. Terá ela se igualado ao limite da capacidade oportuna de se deixar alguém nu para um banho que lhe pudesse recobrar um pouco de sanidade na profusão dos contratempos de uma noite sem fim? Ou então à chance de se ter um psicanalista na mesinha de cabeceira, à mão para qualquer eventualidade ou desassossego? Dividir a loucura é muito longo para a mesquinhez de vidas tão estreitas. Tudo, exceto as horríveis horas dessas madrugadas ruins, é demais ligeiro. Tudo é sem jeito porque estamos irreparavelmente sem conserto. E o que está partido não está no outro, senão dentro de nós mesmos.
Um banho, uma consulta, um conselho, uma oração ou um resto qualquer de sanidade para dizer ao inoportuno que pelo menos volte mais tarde é tão somente o desespero de se estar vivo; exposto ao dia que se foi, indisposto com o dia que não chega; sem nunca saber, de fato, a que veio esta forma humana de vida suspensa no mais escuro e inominável medo.



Márcio Ares. 2009.

Um par de asas




Há dias, ela permanece ali, na aba da janela, num silêncio respeitoso.
Não estou certo de que ela se reconheça uma lepdóptera. Não posso afirmar que ela já saiba da transformação. Nesse tempo recém nascido de um mundo para pouca existência, ela permanece pousada, quieta, talvez indiferente. Faltam-lhe, quem sabe, a coragem para o entendimento ou a compreensão das novas possibilidades.  A fé não interrompe o temor do mundo ainda por se libertar.
Se, de repente, em lugar de pés me ocorressem asas, e ao invés de vagarezas me fosse dado o céu, também eu me entregasse ao sem fim letárgico para a aprendizagem da vida. Saber sobre si mesmo é uma descoberta contínua, um exercício inquieto de experiências que se mesclam de alegria e medo. Muito mais que de grandes certezas, viver é feito de pequenos pedaços.
Eu já adivinhava sua existência desde que ali chegara, ainda larva, com a paciência dos predestinados. Senti-me honrado em ceder minha casa para outras moradas. Fui feliz no encontro com aquela promessa de vida. Fiquei quase anjo anunciando a graça.
 Depois, ao sopro dos ventos ao fim da tarde, o vai-e-vém do casulo cumpria com a gestação de futuras asas, desenhando seus matizes pelo ninho ensimesmado. Aproximava-se o tempo majestoso de cor e liberdade, a hora para o mundo.
Eis que a pequena criatura não entendeu o milagre. Há dias, ela permanece ali, na aba da janela, num silêncio respeitoso. Não há motivo que lhe conquiste a crença de poder voar. Existir assim, tão sem pressa, parece amor que não se acaba. E vai ficando aqui, enfeitando meu lugar. Um naco de primavera alheio de seus iguais, esquecido de outros ares, lembrando o meu olhar de amor no momento de sua chegada. Tão curta a vida e ela não quer céu nem sol. Não quer outro lugar.
Acho que essa borboleta enamorou-se de mim.


Márcio Ares. 2008.


terça-feira, 12 de julho de 2011



Na alameda de um certo Carlos Nunes

Há lugares mágicos que só por meio de amigos da gente tornam-se reais. E há amigos reais que, por serem mágicos, tornam os lugares um pouco da gente.
Lugares de aconchego, original e copiado, onde os domingos são sem tamanho e nos dão fôlego para a pressa das grandes cidades. Lugares que nos dão o ar para a vida que se quer vivida e transparente, cheia de amigos, prosa e poesia. Lugares de cumplicidade.
No recanto de um vale, há pouca distância, e depois da neblina, apruma-se a alegria do encanto. O cenário compõem-se de uma calma infinita, onde o tempo esquece o fim do dia e a gente vai ficando mais gente, ficando mais tempo, ficando, ficando...
Depois das curvas de dentro da serra, e além da serra, a viagem é dentro da gente. A paz é esse pouco de Deus ao nosso alcance e essas horas de encontro com o sentimento. E, para a alegria de um mundo às avessas, onde as memórias só têm o gosto do longe - e para que o instante seja mais pleno – salva-se, ali, um pouco de esquecimento.
Posso adivinhar, nas memórias de meu amigo, um olhar de propriedade sobre si mesmo. Com os pés largados pelo chão, alma livre e coração solto, ele se faz um entendedor de silêncios. Prepara os ritos feito pássaro retomando o ninho, ensaiando vôo até o sossego da razão, num retorno ao tempo antigo de ser feliz além do entendimento.
Ali, descansam as cores, quase à toa, não fosse a força da espécie na pretensão da existência.
Ali, descansa o ator, o homem de negócios, o menino de antigamente. Às vezes, um homem cansado e – muito raro – um homem descontente.
Ali descansa o momento mágico do olhar que ainda sabe o tanto que nos falta e a graça que nos cabe no instante presente.
Há lugares mágicos que só por meio de amigos da gente tornam-se reais. E há amigos reais que, por serem mágicos, tornam os lugares um pouco da gente.

Márcio Ares. 2010.


De casco a rabo


Foram trazidas por desejo. A solidão cristalizada em seu desapego aprendido fazia cada vez mais distante algum envolvimento, qualquer outro querer. Sua indiferença lhe convinha à incompreensão do amor. Morava só. Não tinha uma casa propriamente dita, mas um barracão de boa estrutura, embora sem muita alegria. Estar distante e só não lhe parecia um árido caminho. Gostara delas, no entanto. Vieram, as duas, ainda pequenas, mas muito bonitas, verdinhas, verdinhas. Nunca antes imaginara, é verdade, trazê-las para morar com ele, até imaginar o silêncio conveniente de serem amigos.
Pareciam, no entanto, desaprender, a cada dia, qualquer vínculo de amizade, qualquer contrato da boa convivência, um mínimo princípio para com o novo lar e o novo amigo.
É certo que nunca antes ele se doara a alguma amizade contínua. Tivera, nos tempos da infância, apenas um frango que se pôde chamar grande amigo. O frango parecia gostar de histórias. Assistiam juntos, do sofá da sala, aos programas de final de tarde, na televisão. E era o Sítio do Pica Pau Amarelo o programa preferido.
Eis que um dia o menino descuidou-se do amigo. O imprudente frango, travesso que era, caíra na privada, donde fora retirado, quase morto, com algumas penas arrancadas e uma asa meio caída. Mancou depois por longos dias - nem se sabe se pela queda ou se por algum outro inusitado possível. E embora uma suspeita o acompanhasse vida afora, já não se recordava por que motivo triste afastaram-se na vida.
Agora, num arremedo de memória, investia outra vez na conquista de amizade tão singular. Quando chegaram, estavam calmas e não se mostraram deslumbradas. Também não demonstraram desgosto, nem se abateram com mudança tão repentina. Vieram mansas e cuidadosas, educadas para serem boas companhias.
O tempo, no entanto, não cumpriu com o amor esperado nem as tornou mais amigas. Eram duas desavisadas. O olhar de amizade não as aquietava. Não se importavam com as ternuras que lhe eram destinadas nem com os carinhos que lhe eram oferecidos. Inventavam caminhos sem rumo e não se importavam para onde iam. Planejavam, sem nenhum cuidado, suas loucuras pela casa. A altura dos móveis não lhes dizia nada. O terreiro não lhes impunha qualquer destemor. Nenhum perigo servia-lhes de alerta para a vida. O aquário onde ele as punha, para a natação ou rápidos mergulhos, era de onde sempre fugiam. E se o escuro não lhes tirava o rumo, a claridade não lhes dava melhor destino. Muito antes que o amor existisse, desaprenderam-no sem qualquer aviso.
De coração miúdo, doou-as à esposa de um grande amigo, na esperança de que elas descobrissem o sentido de amizade, ou que ao menos se entendessem melhor na vida. E eu até hoje imagino que aqueles dois quelônios foram o seu porquinho da índia.

Márcio Ares. 2009


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Promessa

O que é que se pode fazer, Clarice, com a noite
enquanto o indizível aguarda, lá fora, na infinita escuridão?
O que é que se pode contra o medo e sua antiguidade?
Se a invenção de ser feliz não pode menos que a noite
- essa dúvida sem quando na inquietude da espera –
o que é que se pode contra a morte?
Alegria ridícula viver ofendido e pisado para o extremo de um instante sem piedade.
O que nos acontece, afinal, para esta solidão que não se pode dar, para este medo sem nome?
A marca da ausência atravessa os dias.
E só tu, Clarice, poderias entender este silêncio, esta miséria e este abandono,
essa falta de quem saiba o tempo das sombras
para que eu entenda a noite da vergonha inútil.
Porque tudo é quando se pode
e o que não se sabe existe é sem tamanho.



Márcio Ares. 2009.

Desamparo

Nesta longa e fugaz viagem
entrefecho os meus olhos para que os carros corram mais rápido
para que o vento seja salgado
e para que o dia possa nascer como tu o disseste:
a ternura a caminho do mar
em meu coração ainda brusco e selvagem

O amor de não saber entre dentes despe o mistério.
O longe, tão longe, agora mais perto
tornou-se a escuridão indefesa de longos corredores sombrios
e o desespero da angústia das salas de espera.
O que era dilatou-se ao longo da viagem
e nem mesmo tu, minha amada Clarice, o tomaria de volta
sem que se gastasse também o amor da palavra

O céu e a terra engoliram os beijos de minha mãe
e, antes que eu soubesse o que podia tanta dor,
no branco de meu rosto descubro o exato gosto do mar.
Só o vento, agora, faz carinho em meus cabelos
e aquela coisa quase engraçada, horrível dentro do peito,
como o infinito estranho das águas, sabe-se sozinho, quase vivo,
um grande, pesado e impossível cansaço
que mais parece saudade


Márcio Ares. 2009.

Dizer lágrimas


         Eu choro porque Clarice morreu. Ela inventou a história de estar indo a Paris, mas não voltou daquele hospital. Morreu. Não pude tocar-lhe a face, segurar sua mão, dizer palavra. Que palavra eu poderia? A ela, que tanto inventava e dizia? Não pude. Ela não era minha amiga. Era estranha e desconhecida. Uma estrangeira ladra de rosas espinhando a minha alegria porque morta antes de ser minha amiga. Ah, Clarice! Eu choro porque você morreu, viu? E não me diga com aquela voz de sotaque preso quase inventado e aquele jeito seco esquisito que você não tem nada a ver com isso. Mesmo morta, ainda que morta, andando morta por aí você é muito, mas muito demais que viva. E se você não gostava do que entendia, porque haveria eu de roubar-lhe o entendimento do mistério tão oculto de escrito? Agora, depois de morta, que devia estar calada, ficar dizendo essas coisas tortas faz ficar de tarde a minha paz, quase de noite a minha alegria. Rebelde bastarda, oh, caçulinha judia, órfã de pátria, de pai, de mãe, vai não, fica comigo! Por que você não esperou para ser minha amiga? Feito um cavalo para seu espírito monta em mim e diz aquelas coisas desencontradas, ao contrário de ser para sempre feliz.
         Nada, agora, é adequado para o luto. Não se pode velar a palavra, enterrar o não-dito, o maldito recife que te fez e não te fez forte, cansado de amar ou de morrer imigrante, águas de muito longe, essa minha lágrima pela sua morte, Clarice. Pouco invento o que sinto. Escrevo é lamento. O sal no olho, a mão com vista noutro ventre, noutro chão de estranheza e guerra, a terra de outro povo, o  querer de quando chega sem conserto uma história inteira que só pode ser o que ainda nunca não.
         Eu sei que o animal mágico e desimportante pode muitas ilusões, mas é também mudo e incapaz, miúdo. A palavra rugir não me faz mais que do signo de leão ou conta a minha história toda, ou o seu pecado em vão. Dizer não bastava, não é Clarice? Escrever não calava a dor e nunca salvou ninguém, não é? Você também chorou igual a mim, pelas mortes de antes, não? Silêncio. Ah, quem nos dera o  silêncio também não matasse e até Deus se calasse violento sem nos roubar a esperança e a crença, acima das suas invenções. Mas sofrer também é  silêncio sem escolha. Melhor então era mesmo escrever e, assim, a escolha ficasse menos verbo, sem a eternidade pretendida nos milagres que atormentam tudo o que se cala, tudo o que se pensa.
         Eu choro porque Clarice morreu. E é mais que violenta essa dor porque não há palavra depois, não há palavra não-palavra não.

         Márcio Ares. 2009.


domingo, 10 de julho de 2011

Aluado


Sou eu quem faz você crescente
à direita
minguante do outro lado
nova distante
cheia a recomeçar


visto a lua quando contigo
e sozinho, comigo, fico nu, luar



Márcio Ares. 2009.

Interpretação


Não é por acaso esse querer dizer.
A palavra estaca, ajoelha-se ante a imagem
e reverbera no amor e na falta.
No império sem lei, sem Deus e ainda sem palavra,
dizer custa caro e vale os olhos da alma.

Não é por acaso esse querer dizer.
A palavra ataca e se nomeia antes da viagem.
O desejo de ser lida não se lhe invade
o chão que a soubera vapor e naufrágio
no sério do céu a vencer mil ímpias verdades.



Márcio Ares. 2009.


Sentido


Hoje, mais perto de estrelas e cores, canções e nenhuma dor
Urge dizer que você rouba aos sentimentos
Grandes nacos de poesia, poemas inteiros, palavras sem onde,
Ousando versos com nomes de amor



Márcio Ares. 2009.

Expectativas

Essa guerra sem jeito parece não ter fim.
Amigos e outra gente morrem de igual modo.
Bandido e polícia se atracam na lei do mais forte.
Estar vivo é uma questão de tempo.
Morrer, às vezes, é mais que estúpido,
não uma esquina no atropelo da sorte.

O que, além de bonito, se faria inteiro e lúcido,
tornou-se um Rio cujo desgoverno
agora são armas gritando a morte.


Márcio Ares. 2010.

Fôlego pra verdade


Minha mãe teve ninhada de filhos
e muito sono que não podia dormir.
O arroz socado no pilão, o café torrado de madrugada, as marmitas para muito peão
tornavam a noite um quase nada.
Era um tempo de não existir
senão pela sua ninhada.
Eu, que cheguei mais tarde,
não tive nada com isso.
Sei só o carinho daquelas mãos cansadas.


Márcio Ares. 2009.

sábado, 9 de julho de 2011

O caminho



Esse risco no céu que vai
a caminho de Fátima
feito a fé
segue na mesma direção

E a nuvem, que de azul se faz,
um gostinho de lágrima
feito um véu
derrama em meu coração

Eis, Senhora, a minha alma!
Toma-a, como bem quiser
que eu sou homem qualquer
crente de compaixão.



Márcio Ares. Portugal. 2011.