sábado, 9 de julho de 2011

O caminho



Esse risco no céu que vai
a caminho de Fátima
feito a fé
segue na mesma direção

E a nuvem, que de azul se faz,
um gostinho de lágrima
feito um véu
derrama em meu coração

Eis, Senhora, a minha alma!
Toma-a, como bem quiser
que eu sou homem qualquer
crente de compaixão.



Márcio Ares. Portugal. 2011.

De muito sempre



Eu, coração estrangeiro, reinauguro São Paulo.
O asfalto, agora, tem nome, tem placa,
tem santo cruzando o Ipiranga no grito de um outro poeta.
Um canto cumprido no encanto, qual eco, mil vozes te falam.
Teu verso, coração da garoa, teu fardo, a cidade
São Paulo, santo, tanto, senhora elegante, sempre São Paulo

E se acaso me chamas atendo de pronto aos teus muitos anos
de sérias conversas, glamour, passarelas, encontros com o mundo,
pedaço de céu, teus arranha-céus invadem meus sonhos
e aos portos de longe se misturam pontes, ao longo da vida, ao point do eterno.
Planta no assombro tuas avenidas, oh, mar inquietante, cidade bonita
Acolhe a poesia, o que somos, platéia cativa, teus muitos amantes

Desfila o subúrbio teu charme ao inverso.
Caminha o futuro por tuas entranhas, meu santo, o mais puro concreto.
Arde a arte e cobre de febre o olhar mais de perto, urgente certeza,
paulistana cor, a cidade das horas, a beleza com pressa
a gente que chove e que chora  a promessa mais grande
o calor ausente, o longe deserto


Márcio Ares. 2010.

Simples e urgente


Quando poderei dizer ao mundo, senão agora,
Ok, você venceu?
O que é o mundo, além do que se vê
 e de quem sofre sem saber, feito eu, a mínima hora?
Quando, por descuido ou veleidade, estarei menos louco
(ah, sim, porque é preciso estar sempre louco)
ou lúcido a perguntar,
quando poderei dizer ao mundo
que a vitória, não menos que a verdade, é de ninguém?
Interroguem os astros, icem as velas dos barcos,
tomem povos, plantem bandeiras, inventem palavras e poderes,
comprem armas e outras armas e mais armas
e matem a si mesmos depois que o mundo não bastar
para a insanidade da poesia inexistente,
da fé desfeita e do amor assassinado.
Será possível que nunca, em nenhum momento, nenhuma inteligência se pergunte
se ainda há tempo de vencer diferente
e prover a toda gente um futuro
em que viver seja seguro
e não a loucura que tem sido sempre?
Será para nunca esse quando?
Será para sempre essa dúvida?


Márcio Ares. 2010.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Ficante


Quando eu soube que tinhas mesmo partido
Tomei o fôlego pra agüentar o susto
Fiquei ruindo muros, morrendo ruas, olhando escuro
Fiquei criando chegadas, sorrindo desculpas, inventando sussurros
Inventei lugares pra eu me sentir seguro
Fiquei juntando pedaços, ajeitando os passos, caminhando a custo
Fiquei brincando de abismos, tomando coragem, doendo infinito

Quando eu soube incerto o mais certo que eu tive
Fiquei viagem sem onde, fiquei amando de longe, fiquei desgosto pra vida


Márcio Ares. 2011.

Pra se dizer amigo


Eu sou capaz de ficar contra todos os meus irmãos
e mais, se me pedires, para ficar contigo.
Eu sou capaz de uma outra razão:
ser muito mais irmão do amigo.

Amo a todos, irmãos e amigos, e quanto a isso não há solução,
mas contigo aprendi a ser livre
e, com eles, pode ser que não.

Portanto, se te sentires cativo
rompe comigo que eu saberei perdão
e me deixa vivo, embora muito triste,
para os meus irmãos.



Márcio Ares. 2011.

Poética fé


E se um dia eu descubro que o amor é ilusão
serei um homem triste
direi que Deus é obscuro
e que nem toda a poesia que existe
será mais que a força bruta
e não menos que uma cruel invenção.

O que é velho, essa crença absoluta,
ao longo de mim, resiste,
até que eu nunca descubra.



Márcio Ares. 2011.

Quase vítima


Há um tempão que eu não escuto
num esbarrão, quase num susto,
alguém me olhando nos olhos
dizer que boca gostosa
que sorriso mais bonito
e eu, comigo noutros olhos,
olhando o que eu sou de fora
sorrindo o meu próprio riso

Há um tempão que eu não insisto
em negar, ou quase isso,
um olhar dizendo é hora
se aos meus olhos, noite afora
fui meu auto sacrifício
e eu contigo, nessas horas,
sorrindo o que eu sou agora
trombo em versos mais bonitos

quinta-feira, 7 de julho de 2011

vai-e-vem-vai-e-vem


Penso um poema e ele vai embora.
Algum mar distante naufraga meu invento, embarcação de muitas rotas.
O que tenho à mão é essa coisa de dentro
que tanto dói cá fora
a idade das almas, a dor da minha gente,
saber efêmero o entendimento dos olhos

Traduzindo o que se é visto, eu escrevo as horas.
Tomo o leme do meu barco e o conduzo para além do que me devora.
Um monstro de versos tristes, e dissonante fome, força a retina da proa, displicente,
e minha mão se dobra a querer um giz, um mapa, um caminho qualquer
para tornar ao lugar em que os olhos viram a insuspeita margem, ilha, farol,
gente capaz de um sorriso onde se prove
que viver ainda seja qualquer coisa boa, uma linha além do continente
um poema que não tenha pressa, mas que não tarde sempre
porque os versos que navegam nossos olhos,
que atravessam-nos feitos as terras novas,
sãos os mesmos olhos que se vão com o tempo
abril/2011

Para acontecer poeta


Se esse verso fácil é poesia, eu sou - reconheço e confesso - uma fraude.
E nenhuma graça me justifica.
Quero a palavra que engasga e faz doer a alma, nublar a minha paz por
dias infinitos.
Quero a incerta ordem da página,
o risco indormido, além da madrugada,
o inquieto imaginário de fantasmas.
e, por último, justo e exato, quero que o verso não seja fácil
porque de escuro se veste a claridade
dizendo rosa o espinho disfarce.

À força da mão meu coração que se dobre
e sangre arco-íris no verso encantado.
E enquanto calado eu fique, seja este o tempo que me baste.
Tudo o mais é vontade por dizer, é mar sem barco ou estrelas, a vida
sem crer, ânsia de se libertar.

Seja meu o instante sem saber. Doa a mim a palavra por inventar.
Não quero fácil existir, simplesmente,
e dizer que existo, igual a tudo, para toda gente,
sem essa coisa inominável a que se chama, através dos tempos,
talvez poesia, talvez amor, talvez demência.

Que eu, filho do mais doído mistério,
traga à luz as palavras primeiras, únicas, estranhas ou belas
a inaugurar esse parto dos homens, grávido que estou de longes, ondes e quandos
que ainda não se fizeram.

Eu vou parir Deus com o meu verso.
E vou parir o demônio.
E vou engravidar os nomes que se puserem no caminho desse ofício, ou
dessa coragem,
para que a melodia dos nomes desperte o grito alado das palavras.
Para que eu nunca, jamais, em tempo algum me contente
com o instante fácil do verso
e não me confesse uma fraude.

maio/2011

triversado


PACIÊNCIA FELINA

sete vidas eu daria a ti
para que as tristezas fossem cumpridas
e a alegria fosse infinita
sete vidas eu existiria assim
querendo te ver sorrir

          *

TEMPO ANTIGO EM PROCISSÃO

escrevo maio e minhã mãe maria
oferta à primavera
o pastor que eu era
na coroação da virgem

            *

ALVIM MARIA

de novo escrevo para maio
para uma outra maria
essa, colega de farda,
amiga um tanto tardia
feliz que reza à feliz primavera
mais feliz se faria
.

Imemoriável


O acaso inventa poesia desde que a vida é vida.
Por acaso desconfio
que essa mania seja muito, muito mais antiga.
Desde que o nada é nada
Desde o acaso infinito


Márcio Ares. 2011.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Estar de lua


Vai que a noite não foi boa
E o dia tarde a caminho
Nós somos um quarto à toa
Que ainda resta, meio à míngua
Querendo um quarto crescente
Querendo cheio de novo
O clarão que fora lindo
O meu olho no seu olho
Minha língua em sua língua

Somos um quarto de hora
Somos um quarto de rua
Somos um quato da história
Escrito com a noite nua
Somos o dito e o não dito
O que eu penso e o que tu pensas
Somos um quarto suspenso
De lua, amor infinito
Márcio Ares, maio/2011

Eu, piquinininho



Desmancha o castelo dos meus cabelos, oh, mar, penteado de sal
e descansa na orla do meu sol o teu reino.
Constrói o tempo de areia, oh, criança mais grande,
e devolve o barco dos meus sonhos.
Colore a vida de azul
e faze pra mim o teu ir e vir de brinquedo.
Mas vem brincar comigo, de manhã,
que, à tarde, às vezes eu me entristeço
e a noite é um desenredo só
porque eu nunca sei, quando cantas,
se o teu canto é de apreço
ou se ruges de medo, de dor ou de dó

Márcio Ares da Silva  maio/2011

O que fica

todo prédio tem o seu cachorro
é tudo a mesma coisa
pinta a cara de vermelho
pra não surtar
e vai torcer pro botafogo
que lá também é muito doido
faz teatro cabeça, de vanguarda
e come pouco
vê se não engorda e arrebenta a corda bamba
não solta a sombrinha
solta a franga
e esquece o outro
que faz piada com o seu samba
que nunca ta na linha, mas é bamba
porque é o louco pai dos loucos
vai que é sua, malandrinha
sacode essa rede
net à mão, outra parede
que esse prédio tem cachorro
e tem cínico e poeta
e tem profeta de plantão
e tem modernidade
acordar de madrugada
pra ouvir pega ladrão
eu quis dizer antiguidade
e to aqui escrevendo à mão
vou tomar um lexotan
que o terapeuta foi pra Índia
com que dinheiro, sei não,
anda brincando comigo, deitado ali no divã,
eu fico uma puta, um filho
vou rasgar o sutiã,
minha buceta, mostrar a pica
que  vergonha pouca é bobagem
do jeito que esse cachorro grita
eu vou arrumar uma arma
descer, num pique, essa escada
e dar um tiro na vida
madrugada que me assalta
e fica só você comigo
fica só
fica


Márcio Ares. 2011.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Motivação

Mikonos, Grécia, 2000
fotografia de Márcio Ares


                                             Tudo o que vejo fora do lugar é meu verso.
O fantasma que me atravessa de madrugada é a gota dágua no vidro da janela.
A claridade do outro lado é uma curva de estrada, uma casa no caminho do mar,
a imensidão que dá fôlego à palavra que me arde.
Tudo o que eu sei fora do lugar é razão inventada.
Só o sentimento da coisa me parece verdade.
Do contrário, o pássaro fica pássaro que não passa,
a estrada fica estrada sem viagem,
o certo fica humanamente acertado.
Não ver é muito longe, nunca o mais de perto que me assalta.
E porque tudo o que eu sei é verso,
e porque tudo o que eu sou é poeta,
vou a caminho do mar quando o incerto mais me falta
 
.

adversativo

África do Sul, janeiro de 2007
fotografia de Márcio Ares


Quando eu era ainda um toco de gente, nascido miudinho e triste, como quem tem fome,
num lugarzinho miúdo e triste que mal caberia no esquecimento,
eu tinha um mar. Um riachinho de água salgada.
Era, claro, igualmente miúdo e triste, o coitado.
Mas, para mim, era enorme de grande e lindo o mar que eu tinha.
Eu nem sabia porque era assim, mas ondas nele se faziam
com a minha pequena força e as pedras que eu jogava.
Alguma coisa, feliz e misteriosa, foi ficando em mim.
Depois, conheci, por força de crescer e ser feliz, ou talvez por acaso,
outros rios, outros riachos, muitos mares pra eu amar.
Mas nenhum deles tão importante, nem sequer tão lindo,
quanto o meu primeiro, triste e miudinho mar.
 
Márcio Ares. 2009.

Quebrado

Chapada, MG, 1999
fotografia de Márcio Ares
 


Não me lembro de onde não se podia mais avistar o mar.
Desde que o deixei não tive a fraqueza de olhar para trás.
Mal tive coragem de partir.
Preciso voltar para o meu lugar.
Qualquer lugar que não seja aqui, entre o que deixei para trás e a vontade imensa de voltar para viver e morrer ali, bem ali,
com os olhos cheios de mar
rebentando de ser feliz.


Márcio Ares

Colorido



Ela avistara qualquer alma perdida
e fora ter com ela.
Em flor de asas coloridas o vestido pintado
e ela plantada, perdendo o juízo.

E passaram a ir, lá, convidados
para visitarem a morta viva.

O céu, acolhendo palavras não ditas,
pintou-lhe a alma
de arco-íris.


Márcio Ares. 2011.

Desde quando


Desde que eu sofro o mal do coração partido
apago luzes que não ficaram
desço do bus antes da parada
esqueço a senha bancária
ignoro o sonho que eu mais queria
atropelo os degraus da escada
quebro a cabeça no portal de entrada
ligo o rádio que já está ligado
e finjo dor quando sou alegria

Desde que eu amo o sal da paixão esquecida
não me comove um final feliz
acho sem graça o riso mais bonito
faço piada com a falta de graça
não sei a estrada por onde segue a vida
peco em silêncio pra rezar no escuro
bebo cachaça se não tem bagulho
escolho atalhos pra ser infeliz

Desde que eu sofro
o amor é mais triste

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Os modos de um homem


Sou homem de um modo estranho
gosto muito de bichos, um pouco menos dos homens
aprecio o novo, a neve, o nordeste, o longe
acho um lixo a música medíocre, nem por isso morro pelo Caetano
e dou minha vida por um bom show da Bethânia
não sou fã de internet nem mil conversas ao telefone
adoro velhos e desconhecidos, respeito meu pai, amo sem fim minha mãe
sou de pouco abraço, recebo amigos só de vez em quando
e fico mais brilhante sempre que os encontro 
meu lugar é  muito o mundo, não uma longa visita, uma noite insone,
e, para dormir encoberto, tenho estrelas sobre a cama

Sou homem, já disse, de um modo estranho
não verso etiqueta, gosto do escuro à luz de um poema
não anseio pelos mais vendidos, o silêncio é que me compra
o mar eu visito para um só mergulho como quem tem fome
de ser índio, piloto, africano, helênico
uma fome jagunça, meio Guimarães
acho O pequeno príncipe  um livro sem tamanho
e se leio Clarice eu vomito meus ondes
feito quem sabe, e nos conta, se é que me entende

Sou homem, insisto, de um modo estranho
não digo palavra a quem só tem certeza
não sei perdoar nem que eu tenha outra vida
acredito em Deus e alienígenas
sou meio cego de um olho, o outro é uma beleza
e a quem me olhar meto as caras, ainda que seja o amor  esquisito
pras bobagens da televisão fico seco sem surpresa
aprecio filmes de arte, mas não dispenso uma ficção
o espaço me comove enquanto a vida é meu segredo
a verdade em que eu me dano é todo o tanto que eu existo 
e sendo assim desse modo eu fui por certo abduzido
vejo é no olho do outro esse homem tão estranho


Márcio Ares. 2010.

Asas



Oh, senhora louca felicidade!
À tua loucura entrego minhas palavras.
Dá-lhes o destino em que a alegria não lhes seja contrária.
Conforta-lhes qualquer repente vazio, algum desacordo com as idéias centrais,
um ou outro deslize cuja desventura remeta à inquietude de um par de asas
porque livre é que se vive
e é somente livre que se fala.
Por tudo me alegra a felicidade
dessa loucura que arde em palavras.
Porque eu sei, e tu bem sabes,
o mais íntimo riso com que tudo renasce
até que se fortaleça
o mais leve sopro das possíveis, felizes e loucas palavras.



Márcio Ares. 2011.

De pés no barro

Buritis, Fazenda Xodó, 1999
Fotografia de Márcio Ares


A mão pesada de Deus deixa louco o meu corpo fatal.
Meu desejo tem o preço dos infernos e daqui não alcanço a beleza do céu.
Ergo-me em transições e pecados.
Sou um cavalo selvagem desencontrado das almas.
Minhas palavras inventam demais.
E o meu galope é cego de Deus, cheio de vontades.


                                                                Márcio Ares. 2009.

Antes depressivo


O olhar no espelho do outro lado
é um lugar quebrado de humanidades.
Sua lágrima corre muitas faces
e vai ficando mais homem o homem que mais lhe falta.



Márcio Ares. 2009.

domingo, 3 de julho de 2011

Entrevero




à memória de Clarice Lispector


Também eu, Clarice, choro manso de tristeza.
Também eu escrevo para agradecer, ou para agradar, como diria você.
Também eu quero o presente da frase que morre
porque morrer é doce e faz nascer a mim mesmo
como não pude ser.

Também eu, Clarice, temo o silêncio de Deus.
Também eu me sinto um tigre cheio de dor.
Às vezes, afasto-me sem nada dizer
porque Ele se calou antes das gentes que em mim gritaram
e agora o silêncio pesa anoitecido
o impensável anjo, a graça perdida
no anúncio do mundo.

Também eu saio deste transe
onde há pouco por dizer sobre o que se perdeu.
Entre o olho e a palavra, Clarice, a dor,
o anônimo que se desvela, o vazio que se apruma, a loucura que se inventa
e eu, de mais pequeno suspiro no escuro
sei o desespero, Clarice, do nada
apesar da vida possível
apesar da coragem do amor.


                                                          Márcio Ares. 2007

De quando o amor


Já é tarde, reconheço, e amanhã nada é certo.
Será mais seguro, eu sei, dizer ao meu amor que venha de onde estiver,
mesmo que de um tempo futuro.
E, ainda que tarde, seja completo.
E, mesmo atrasado, seja seguro.


Márcio Ares. 2009.

Salvação



Há poesia, eu sei, no vão que entristece o dia.
Esse meio antigo da razão nos roubar a alegria
esconde-se nas horas em que viver é pura solidão, mas não devia.
Prefiro ao triste os versos da ilusão
e, enquanto me alegro, existo poesia.


Márcio Ares. 2009.

Tudo porque seria


Não foram roubados de mim os cavalos que se banhavam no meu antigo lugar.
Eles são as memórias da minha irmã, muito sem fim.
Acontece que ela sequer sabe onde ou quando se banhavam esses cavalos.
Muito sei e posso dizer que era no meu riachinho,
o maior de todos, o mais miúdo mar.
Porque eu, menino, sem saber construía,
de cavalos e pedras e memórias além de mim
a razão desses versos ainda por chegar.


Márcio Ares. 2009

Regime


Aquele tempo é um poema que não cabe no meu verso.
Prefiro o verão de Praga, a revolta dos cravos
e as facções Tuareg.
Prefiro o futuro e sua inutilidade,
a palavra livre de ferro em brasa
nas fogueiras da vaidade.
Prefiro tudo à escravidão e ao tempo inseguro.
Viver tem gosto de asas, mais que de muros,
uma revolução de vontades.

 Márcio Ares/2009

sábado, 2 de julho de 2011

presente


Biribiri, Diamantina, 1999
Fotografia de Márcio Ares



O amor alcança estrelas quando desaprende o medo
ergue-se no entendimento das coisas
diz o leste e o norte das lendas
traz a alegria de agora
inventa olhos para o instante mais pleno
e completo se esconde no milagre das horas

O amor é grande e pequeno
enquanto mais forte de querer se dobra

                                                                     Márcio Ares, 2007

Minguante





enquanto você não vinha
a hora às outras se dava
no céu imperfeito e vazio
a lua minguava um pedaço
no mais amor que eu a via
meus olhos cadentes ficavam
- luz que eu nunca não tinha
- falta que sempre faltava

.
                                                  Márcio Ares. 2007

Tempos de avô


O pai conversou plano de venda a muita gente interessada.
À certa altura, talvez não julgando certo o preço firmado,
achou que não dava bem.
Com a morte do velho foram de novo ao negócio.
Recomendaram cuidados, a força da palavra, a preferência da compra, o candidato.
Era mês de março e chuva fria, tempo de pendência.
Com algum novo interessado, acertaram decisão – ao tudo resumido.
Combinaram acertos, cada importância, recordação pequena escolhida com detalhe.
A palavra conhecida era força antiga, certeza de pai, de filho,
o certo da vida
na encruzilhada.


Márcio Ares. 2009.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Aprendizagem


SCHONBRUNN, VIENA, NOVEMBRO DE 2002
fotografia de Márcio Ares


Hei de chegar a qualquer hora, com a indisciplina do amor,
para dizer-te o quanto perdi.
Estarás segura, bem sei, na contramão de mim
e saberei, como nunca, essa dor.

Parecerei, ao teu querer antigo, um homem sem rumo.
Inexato e frágil, como o disseste, e eu sempre soube.
Sem lugar e sem tempo essa entrega ao teu mundo encheu-se de vontade
e, pouco a pouco, na coragem da estrada foi ficando estrada.

As curvas do meu destino sabem esse desgoverno
e as dores de eu me entregar, com certeza, têm a sombra do teu olhar.
O meu querer voltar ficou no rastro da estrada, na procura, no escuro,
no avanço do passo que sabe o tamanho do medo.

Márcio Ares, 2008


Momento


Aparados da Serra, junho de 2004
fotografia de Márcio Ares


O verso chama o olho do homem ao tempo mais precioso.
Olha essa vida inacabada, essa hora por acontecer.
Colhe essa palavra ainda não gestada e planta um poema.
Esse olhar que sabe a hora faz-se a palavra de novo.
E os versos no olhar do homem cumprem com o tempo de mais ser.

Márcio Ares. 2009.

.

Inexorável


São trinta dias de tristeza
e fevereiro mal começou.
Viver é esse trem escuro
sem visitas ou banhos de sol.
A manhã que peleja, agora, sem futuro
é só mais um dia
de dor
no vagão das horas.


INEXORABLE

It's thirty days of sadness
and february did not even begin.
Living is this dark train
whithout calls or sunbathe.
The morning fights, just now,
without future.
It's only one more day
of pain
in the wagon of the hours.


Márcio Ares. 2010