O que restou em você
depois daquele amor que eu não pude ser
já não pode ser amor
amizade, talvez
Márcio Ares. 2012.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
E POR ISSO VIVO
Fui aprendendo, com a alegria dos que nunca me deixaram,
a vida entre amigos.
Difícil viver comigo, eu sei, desde muito sempre amargo.
Isso é o que nunca me disseram, mas que o mundo sabia,
e eu adivinhava.
Quando fui tímido, ou tive medo, fizeram-me acreditar,
para que, em mim mesmo, o mal se desencontrasse.
Nunca esperaram que eu respondesse às mensagens, emails,
telefonemas cheios de mimo e cuidado,
cartões de feliz páscoa, natal e outros aniversários.
Sabiam meu desajeito com essas coisas da razão.
Meu coração fez-se bruto, insatisfeito demais.
Morri, muitas vezes, em segredo, mas nunca sem um abraço,
um olhar mais demorado, um afago no cabelo, um sorriso camarada,
caso eu precisasse e o orgulho não me repreendesse.
Montei acampamento numa distante clareira
e fui ficando prisioneiro de uma guerra ensimesmada.
Atirei ódio contra a minha bandeira, traí alguns amores,
e embora com certo desespero
fui guardando cores para, mais tarde, algum tempo de paz.
Trago, felizmente, ainda forte, comigo, sempre,
esse corte fazenda de interior tecido
para que vestido de verde, bicho e semente
eu pudesse, n’algum tempo, com uma saudade sentida,
o entendimento de amigos que sempre me quiseram.
E enquanto em mim resistir o possível mistério
eu me deparo, um dia, com a total felicidade
Márcio Ares. 2012.
a vida entre amigos.
Difícil viver comigo, eu sei, desde muito sempre amargo.
Isso é o que nunca me disseram, mas que o mundo sabia,
e eu adivinhava.
Quando fui tímido, ou tive medo, fizeram-me acreditar,
para que, em mim mesmo, o mal se desencontrasse.
Nunca esperaram que eu respondesse às mensagens, emails,
telefonemas cheios de mimo e cuidado,
cartões de feliz páscoa, natal e outros aniversários.
Sabiam meu desajeito com essas coisas da razão.
Meu coração fez-se bruto, insatisfeito demais.
Morri, muitas vezes, em segredo, mas nunca sem um abraço,
um olhar mais demorado, um afago no cabelo, um sorriso camarada,
caso eu precisasse e o orgulho não me repreendesse.
Montei acampamento numa distante clareira
e fui ficando prisioneiro de uma guerra ensimesmada.
Atirei ódio contra a minha bandeira, traí alguns amores,
e embora com certo desespero
fui guardando cores para, mais tarde, algum tempo de paz.
Trago, felizmente, ainda forte, comigo, sempre,
esse corte fazenda de interior tecido
para que vestido de verde, bicho e semente
eu pudesse, n’algum tempo, com uma saudade sentida,
o entendimento de amigos que sempre me quiseram.
E enquanto em mim resistir o possível mistério
eu me deparo, um dia, com a total felicidade
Márcio Ares. 2012.
PARA QUANDO PERDER O CONTROLE FOR A DIREÇÃO
Noventa quilômetros de amor doendo, perdidamente apaixonado.
Chegou, como sempre chega, ardente,
num tempo inesperado, humanamente inacabável,
e foi guardando palavra, querendo vez, cavando lugar.
A distância do alheamento exigia encontro, dizer as coisas de dentro,
o saber antigo das almas.
Ia ficando plural a solidão do invento.
Ia ficando mais gente aquele quando de acaso.
A idade da razão, o entendimento da estrada
e o medo, quem sabe, de amar em vão
sinalizavam cuidados, a contramão sem placas pra viagem,
o risco de voltar pra casa, uma tristeza de possibilidades.
E o coração, acelerado de emoção e coragem, acenava de uma estação
além de qualquer dor, arfante de se encontrar.
Leve e louco, o futuro dos amantes se desencontrava
porque antes o incerto do amor
porque antes o invento de amar.
Márcio Ares. 2012.
Chegou, como sempre chega, ardente,
num tempo inesperado, humanamente inacabável,
e foi guardando palavra, querendo vez, cavando lugar.
A distância do alheamento exigia encontro, dizer as coisas de dentro,
o saber antigo das almas.
Ia ficando plural a solidão do invento.
Ia ficando mais gente aquele quando de acaso.
A idade da razão, o entendimento da estrada
e o medo, quem sabe, de amar em vão
sinalizavam cuidados, a contramão sem placas pra viagem,
o risco de voltar pra casa, uma tristeza de possibilidades.
E o coração, acelerado de emoção e coragem, acenava de uma estação
além de qualquer dor, arfante de se encontrar.
Leve e louco, o futuro dos amantes se desencontrava
porque antes o incerto do amor
porque antes o invento de amar.
Márcio Ares. 2012.
LARVA
A planta, muda, esperando palavra
e eu, pensante, mato cortado.
Lá fora, um sol brilhante asteado.
E minha alma a meio mastro.
Sou este ser rastejante no escuro, triste e obsoleto
quando os galhos murchos, na varanda,
rimam com o céu azul desbotado
nesse poema sem inspiração, arrastando-se,
feito lagartas que nunca chegarão a borboletas.
Oh, descrença, meu Deus!
Ficar inventando asas para a minha natureza.
Quero um buraco, a casca seca das árvores,
uma casa de barro, sem terreiro,
com um velho galho encostado.
Querer desse jeito é querer, reconheço,
demasiado
essa manhã de tristeza
essa coragem pra nada.
Márcio Ares. 2012.
e eu, pensante, mato cortado.
Lá fora, um sol brilhante asteado.
E minha alma a meio mastro.
Sou este ser rastejante no escuro, triste e obsoleto
quando os galhos murchos, na varanda,
rimam com o céu azul desbotado
nesse poema sem inspiração, arrastando-se,
feito lagartas que nunca chegarão a borboletas.
Oh, descrença, meu Deus!
Ficar inventando asas para a minha natureza.
Quero um buraco, a casca seca das árvores,
uma casa de barro, sem terreiro,
com um velho galho encostado.
Querer desse jeito é querer, reconheço,
demasiado
essa manhã de tristeza
essa coragem pra nada.
Márcio Ares. 2012.
OLHOS TORTOS
Todos, ao meu redor, de muito olhar se alimentam
de nós que trazem nos olhos
estranhos, de alumbramento.
Estão aqui do lado, na altura e força dos meus ombros,
mastigando a mesma inverdade, no destempero da indiferença
à mesa posta e servida a todos os tempos.
Mas é fome o que eu trago nos olhos
cegos de entendimento.
Márcio Ares. 2012.
de nós que trazem nos olhos
estranhos, de alumbramento.
Estão aqui do lado, na altura e força dos meus ombros,
mastigando a mesma inverdade, no destempero da indiferença
à mesa posta e servida a todos os tempos.
Mas é fome o que eu trago nos olhos
cegos de entendimento.
Márcio Ares. 2012.
MADRUGADO
Qualquer Deus intercessor me salvaria
com a graça, imediata, de um poema
antes que você despertasse.
A minha poesia quer acordar ao seu lado
pra que o mais amado bom dia
seja lido nos seus lábios.
Márcio Ares. 2012.
com a graça, imediata, de um poema
antes que você despertasse.
A minha poesia quer acordar ao seu lado
pra que o mais amado bom dia
seja lido nos seus lábios.
Márcio Ares. 2012.
ARTE QUE NÃO SEI
Quisera eu carregar um violão nas costas
para que as ruas intermináveis ficassem um dia sem fim.
E que esse dia fosse a memória da sorte, o chamado para ser feliz.
A mão encorajando o acorde do espírito carregado feito a cruz
na coragem da luz que se iguala aos ombros de infinitas ruas
onde o querer de cordas se arranja
interminável resposta
e um jovem talvez vá, talvez volte
desse lugar felicidade
livre, pelas ruas da vontade longe,
e da eternidade que se pode agora.
Márcio Ares. 2012.
para que as ruas intermináveis ficassem um dia sem fim.
E que esse dia fosse a memória da sorte, o chamado para ser feliz.
A mão encorajando o acorde do espírito carregado feito a cruz
na coragem da luz que se iguala aos ombros de infinitas ruas
onde o querer de cordas se arranja
interminável resposta
e um jovem talvez vá, talvez volte
desse lugar felicidade
livre, pelas ruas da vontade longe,
e da eternidade que se pode agora.
Márcio Ares. 2012.
ESCOADOURO
De um lugar distante, muito ao contrário do mar,
sempre fui um menino cheio de curva e barranco,
um rio correndo só, na solidão da lembrança,
com um jeito manso de primeira fonte
querendo, antes, muito mais ficar.
O segredo, no entanto, pesa além das pedras,
tanto busca e não alcança.
E lave e leve, de mansinho, esse querer sem onde,
água em descaminho que aqui dentro quebra.
Márcio Ares.
sempre fui um menino cheio de curva e barranco,
um rio correndo só, na solidão da lembrança,
com um jeito manso de primeira fonte
querendo, antes, muito mais ficar.
O segredo, no entanto, pesa além das pedras,
tanto busca e não alcança.
E lave e leve, de mansinho, esse querer sem onde,
água em descaminho que aqui dentro quebra.
Márcio Ares.
BARTOLOMEU
Diz, ao anjo que o acolhe, que eu não sei viver assim.
A palavra mais sozinha dói a dor que nunca morre.
A tristeza que se importa, menos triste faz-se forte,
com sua própria cicatriz.
Mas o amor que você via só em teus olhos cabia, não em meu verso menor.
Quem, agora, há de fumar os cigarros que eu escondia ou guardava
pra o acaso da visita?
Quem, agora, me dirá, com a mesma delicadeza,
a metáfora da vida, a coerente certeza, o assombro desalegria,
ou fará contas de cabeça, na história que eu mais amei?
Quem mais pode o silêncio comigo?
Meu dia agora é saudade, feito o seu vermelho amargo
de inacabável tristeza.
Fica em Deus que eu fico triste,
fico o estranho mais sem jeito,
fico o amigo mais sem vida.
Márcio Ares. 2012
A palavra mais sozinha dói a dor que nunca morre.
A tristeza que se importa, menos triste faz-se forte,
com sua própria cicatriz.
Mas o amor que você via só em teus olhos cabia, não em meu verso menor.
Quem, agora, há de fumar os cigarros que eu escondia ou guardava
pra o acaso da visita?
Quem, agora, me dirá, com a mesma delicadeza,
a metáfora da vida, a coerente certeza, o assombro desalegria,
ou fará contas de cabeça, na história que eu mais amei?
Quem mais pode o silêncio comigo?
Meu dia agora é saudade, feito o seu vermelho amargo
de inacabável tristeza.
Fica em Deus que eu fico triste,
fico o estranho mais sem jeito,
fico o amigo mais sem vida.
Márcio Ares. 2012
DESCAMINHOS
Eu fico muito cansado de mim, ao longo do ofício de entender o mundo.
É que sou eu o imprevisto da estrada, a curva desavisada, esse abismo de nunca ter fim.
Tudo são horas que sabem a tempo o desconforme
da palavra que lambe o incerto dos olhos, caçando algum alento,
em metáforas do acaso e de qualquer divino presságio
a carne que dói,
a alma que lamenta.
E eu, de tanto saber nada, invento a paixão dos contrários
e clamo à ordem do absurdo,
à paixão, ou loucura, dos que tudo podem,
ao óbvio da razão mais pura,
que nesse planeta, em órbita desgovernada,
seja o amor um lugar seguro.
Amar, no entanto, é para mim a mais bruta desvantagem,
o escuro paradoxo, daqui até o mais distante,
um amargo estranhamento de vontades, corpos e coragem tanta,
dizendo com outras palavras
do silêncio, o que eu não compreendo,
do sentimento, o que eu não dou conta.
Márcio Ares. 2011
É que sou eu o imprevisto da estrada, a curva desavisada, esse abismo de nunca ter fim.
Tudo são horas que sabem a tempo o desconforme
da palavra que lambe o incerto dos olhos, caçando algum alento,
em metáforas do acaso e de qualquer divino presságio
a carne que dói,
a alma que lamenta.
E eu, de tanto saber nada, invento a paixão dos contrários
e clamo à ordem do absurdo,
à paixão, ou loucura, dos que tudo podem,
ao óbvio da razão mais pura,
que nesse planeta, em órbita desgovernada,
seja o amor um lugar seguro.
Amar, no entanto, é para mim a mais bruta desvantagem,
o escuro paradoxo, daqui até o mais distante,
um amargo estranhamento de vontades, corpos e coragem tanta,
dizendo com outras palavras
do silêncio, o que eu não compreendo,
do sentimento, o que eu não dou conta.
Márcio Ares. 2011
REVELAÇÃO
Ergueu-se algo na contramão do meu dia.
Na altura dos olhos da avenida,
um braço erguido, um livro na mão e uma voz inaudível
fizeram dar-se qualquer coisa estranha.
Feito um canto e uma bandeira na alma de um viajante,
há muito, distante de sua terra primeira,
eu, que voltava senão da aventura de ser livre,
ali, na esquina das pistas,
soube Dele, a única hora, a imagem santa.
Chorei minha vida, como nunca não, nos moldes de quem sofre e ainda crê na alegria.
Encharquei-me de lágrimas, feito quem desconfia do perdão,
mesmo ante aquela verdade corajosa
sob um árido sol de meio-dia.
E eu, só, remoendo comigo a minha falta de fé.
Vê, lá, se aquilo eram horas!
Deus é coisa muito esquisita!
Márcio Ares. 2011.
Na altura dos olhos da avenida,
um braço erguido, um livro na mão e uma voz inaudível
fizeram dar-se qualquer coisa estranha.
Feito um canto e uma bandeira na alma de um viajante,
há muito, distante de sua terra primeira,
eu, que voltava senão da aventura de ser livre,
ali, na esquina das pistas,
soube Dele, a única hora, a imagem santa.
Chorei minha vida, como nunca não, nos moldes de quem sofre e ainda crê na alegria.
Encharquei-me de lágrimas, feito quem desconfia do perdão,
mesmo ante aquela verdade corajosa
sob um árido sol de meio-dia.
E eu, só, remoendo comigo a minha falta de fé.
Vê, lá, se aquilo eram horas!
Deus é coisa muito esquisita!
Márcio Ares. 2011.
INVERSO
a verdade do poema ainda está por ser
o verso que reclama o verso que reclama
o céu da palavra mais sem nome
asas da vontade
pecado que se come
para acontecer
é dor o que eu escrevo, meu verso que o diga
ou será mais longe o que se deu
enquanto eu escrevia
finjo como ele disse que se faz
exato como eu negava que faria
sentir é meu jeito
feito verso feito
minha dor poesia
Márcio Ares. 2011.
o verso que reclama o verso que reclama
o céu da palavra mais sem nome
asas da vontade
pecado que se come
para acontecer
é dor o que eu escrevo, meu verso que o diga
ou será mais longe o que se deu
enquanto eu escrevia
finjo como ele disse que se faz
exato como eu negava que faria
sentir é meu jeito
feito verso feito
minha dor poesia
Márcio Ares. 2011.
TORRENCIAL
Eu choro esse rio de um céu despencado.
Sob um dezembro encharcante, já foi belo horizonte o lugar dessas águas.
Hoje é barranco, meninos órfãos, velhos soterrados.
Eu choro essa gente chorando o mal tempo,
esse repente ajaneirado.
Cidade descente n’água, morro que vive, que mata.
Enchente atropelo de barro
e teto e árvore, carro, gente e buraco
que na emergência se basta e se pensa
despensa de plano e de gastos, dívida pra sempre,
encosta mal povoada.
Povo que chora torrentes, junto ao lamento que alaga
fica gerais tristemente
nas minas debaixo d’água
Márcio Ares. 2012.
Sob um dezembro encharcante, já foi belo horizonte o lugar dessas águas.
Hoje é barranco, meninos órfãos, velhos soterrados.
Eu choro essa gente chorando o mal tempo,
esse repente ajaneirado.
Cidade descente n’água, morro que vive, que mata.
Enchente atropelo de barro
e teto e árvore, carro, gente e buraco
que na emergência se basta e se pensa
despensa de plano e de gastos, dívida pra sempre,
encosta mal povoada.
Povo que chora torrentes, junto ao lamento que alaga
fica gerais tristemente
nas minas debaixo d’água
Márcio Ares. 2012.
sábado, 10 de dezembro de 2011
OFUSCADO
Em algum outro ponto de que não me recordo agora
deixei a história mais bonita.
Por mais que eu insista já não a encontro.
Falava, creio, de um amor muito antigo.
Eu era moço, andava sem nenhum desgosto,
e o amor ainda era possível.
O acidente que se deu em nossa estrada
deixou-me sem norte, perto de nunca mais,
uma placa torta à beira de um deserto
muito sol sozinho
demais.
Márcio Ares. 2011.
deixei a história mais bonita.
Por mais que eu insista já não a encontro.
Falava, creio, de um amor muito antigo.
Eu era moço, andava sem nenhum desgosto,
e o amor ainda era possível.
O acidente que se deu em nossa estrada
deixou-me sem norte, perto de nunca mais,
uma placa torta à beira de um deserto
muito sol sozinho
demais.
Márcio Ares. 2011.
SER JOGADO
Alguém que me tire do sério, por acaso é visto
a romper as grades de tudo que não serve ao riso
e a sorrir comigo sem nenhum mistério?
Alguém que acorde comigo, qualquer dia,
depois de me amar sem dizer se volta,
mais parece covardia, ou o descaminho da sorte?
Alguém que exista, mais leve, o inexato rumo das horas,
terá algum Deus encoberto, na fé que me falta, agora,
ou terá entendido que amar é um risco vão que se atreve
a existir feito pra morte?
Márcio Ares. 2011
a romper as grades de tudo que não serve ao riso
e a sorrir comigo sem nenhum mistério?
Alguém que acorde comigo, qualquer dia,
depois de me amar sem dizer se volta,
mais parece covardia, ou o descaminho da sorte?
Alguém que exista, mais leve, o inexato rumo das horas,
terá algum Deus encoberto, na fé que me falta, agora,
ou terá entendido que amar é um risco vão que se atreve
a existir feito pra morte?
Márcio Ares. 2011
TODOS QUE EU PODIA SER
Muita coisa morreu depois de 64.
Morreram vontades, morreram as rádios, a arte de querer bem.
Morreram poetas, bravos moleques de madrugada, pensando além, sonhando pátria.
Morreram mães e bandeiras.
Irmãos e amigos e avós e amores morreram.
Muita voz morreu depois de 64.
Morreram palavras, poemas grandiosos, morreram canções.
Morreram os bêbados de liberdade e morreram honrosos de dizerem não aqueles que, cedo, souberam coragem.
Morreram, quem sabe, aqueles que amavam, já tão cansados de amor em vão.
Muita força morreu depois de 64.
Morreram abraços, gritos de paz, braços que se ergueram contra.
Morreram a ética e o sossego que, ainda cedo, morreu de fome, aos olhos da vergonha.
Morreram tipos dito esquisitos, morreram artistas, mulheres e homens.
Sujeitos suspeitos morreram tamanho o medo nos ignorantes.
Morreram bons e valentes, morreram gentes como nunca antes.
Muita vida morreu depois de 64.
Morreu a cor no lábio calado, morreram filhos de mães agoniadas, morreu o amor nos que podiam mais.
Morreu a grandeza continental, morreu a ordem de um país verdade cortado de azul e progresso incauto.
Morreram as horas do orgulho inato, morreu o futuro com aqueles atos, morreu a beleza
de um povo audaz.
Muitos eus morreram depois de 64.
Márcio Ares. 2011.
Morreram vontades, morreram as rádios, a arte de querer bem.
Morreram poetas, bravos moleques de madrugada, pensando além, sonhando pátria.
Morreram mães e bandeiras.
Irmãos e amigos e avós e amores morreram.
Muita voz morreu depois de 64.
Morreram palavras, poemas grandiosos, morreram canções.
Morreram os bêbados de liberdade e morreram honrosos de dizerem não aqueles que, cedo, souberam coragem.
Morreram, quem sabe, aqueles que amavam, já tão cansados de amor em vão.
Muita força morreu depois de 64.
Morreram abraços, gritos de paz, braços que se ergueram contra.
Morreram a ética e o sossego que, ainda cedo, morreu de fome, aos olhos da vergonha.
Morreram tipos dito esquisitos, morreram artistas, mulheres e homens.
Sujeitos suspeitos morreram tamanho o medo nos ignorantes.
Morreram bons e valentes, morreram gentes como nunca antes.
Muita vida morreu depois de 64.
Morreu a cor no lábio calado, morreram filhos de mães agoniadas, morreu o amor nos que podiam mais.
Morreu a grandeza continental, morreu a ordem de um país verdade cortado de azul e progresso incauto.
Morreram as horas do orgulho inato, morreu o futuro com aqueles atos, morreu a beleza
de um povo audaz.
Muitos eus morreram depois de 64.
Márcio Ares. 2011.
DESNECESSÁRIO
Não tem que estar perdido, fingir-se amante, dizer-se amigo.
Não tem que ser malandro, bolar desculpa, inventar motivos.
Não tem que ser distante, bruto, indiferente.
Não tem que ser hipócrita, nem triste.
Não tem que ser agora.
Não tem que ser pra sempre.
Basta dizer não amo, não gosto mais, não quero tanto
E já basta disso.
Márcio Ares. 2011.
Não tem que ser malandro, bolar desculpa, inventar motivos.
Não tem que ser distante, bruto, indiferente.
Não tem que ser hipócrita, nem triste.
Não tem que ser agora.
Não tem que ser pra sempre.
Basta dizer não amo, não gosto mais, não quero tanto
E já basta disso.
Márcio Ares. 2011.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
INDECIFRÁVEL
Não é possível que só eu me incomode com essa coisa infinita.
Então, ninguém escuta, no meio da noite, os meus gritos?
Onde, porventura, estará aquele que sabe da vida
mais que o fantasma que me ergue o braço, e cospe no meu rosto,
a verdade que nunca se disse, palavra sem boca,
o lugar de onde todos vieram, igual e antes de tudo que existe?
Por piedade, aventure-se um homem que saiba
e tire da minha alma essa coisa ainda sem nome, a escuridão do medo,
plantada, crescida, enraizada por alguma lei, muito dentro de mim,
de tudo que se cala e que eu também não sei.
Márcio Ares. 2011.
Então, ninguém escuta, no meio da noite, os meus gritos?
Onde, porventura, estará aquele que sabe da vida
mais que o fantasma que me ergue o braço, e cospe no meu rosto,
a verdade que nunca se disse, palavra sem boca,
o lugar de onde todos vieram, igual e antes de tudo que existe?
Por piedade, aventure-se um homem que saiba
e tire da minha alma essa coisa ainda sem nome, a escuridão do medo,
plantada, crescida, enraizada por alguma lei, muito dentro de mim,
de tudo que se cala e que eu também não sei.
Márcio Ares. 2011.
LU DE LEMOS
Você toma conta do meu verso.
Até parece embriagar-se aos olhos do poeta.
Isso, que aos poucos se serve, a você a vida tanto oferece.
Essa coragem que nos deixa ébrio.
Meu poema fica o meio das horas, o instante suspenso que mais dói,
se não sabe o seu olhar, suas mãos, o inverso que penso quando se faz minha intérprete,
esse amor que se aprende sem nenhuma pressa.
A quem, Luciene, você, no sentimento mais de dentro, não me pinta herói?
A quem outro você arranca o talento com esse jeito às avessas
acarinhando o que eu invento, feito rimas que trombam com a cor do céu?
Quando nem quero saber, quando mal posso explicar, quando me basta escrever,
esse jeito seu, essa coisa meio louca e meio que não, essa alegria esperta, essa onda,
espraia o mar da minha ressaca, me sacode bravo,
e grita comigo a verdade do sol, o medo que não pode ser.
Grita comigo porque a vida é samba, é ginga, é bossa nova
porque a vida é uma voz e, uma vez por nós, um verso que dure pra sempre.
Márcio Ares. 2011.
Até parece embriagar-se aos olhos do poeta.
Isso, que aos poucos se serve, a você a vida tanto oferece.
Essa coragem que nos deixa ébrio.
Meu poema fica o meio das horas, o instante suspenso que mais dói,
se não sabe o seu olhar, suas mãos, o inverso que penso quando se faz minha intérprete,
esse amor que se aprende sem nenhuma pressa.
A quem, Luciene, você, no sentimento mais de dentro, não me pinta herói?
A quem outro você arranca o talento com esse jeito às avessas
acarinhando o que eu invento, feito rimas que trombam com a cor do céu?
Quando nem quero saber, quando mal posso explicar, quando me basta escrever,
esse jeito seu, essa coisa meio louca e meio que não, essa alegria esperta, essa onda,
espraia o mar da minha ressaca, me sacode bravo,
e grita comigo a verdade do sol, o medo que não pode ser.
Grita comigo porque a vida é samba, é ginga, é bossa nova
porque a vida é uma voz e, uma vez por nós, um verso que dure pra sempre.
Márcio Ares. 2011.
VIGÍLIA INCONTIDA
Dorme, ao amanhecer das horas, oh meu menino lindo!
Respira, agora, o dia que desperta.
Sonha o querer sem fim
e acorda em mim o amor sem pressa.
Márcio Ares. 2011.
Respira, agora, o dia que desperta.
Sonha o querer sem fim
e acorda em mim o amor sem pressa.
Márcio Ares. 2011.
ENCANTAMENTO
Se eu pudesse entender os feitos do poeta
diria que ele amou por toda a noite
sentou-se, pela manhã, num bar quase nem aberto
num bairro discreto de Belo Horizonte
e bebeu café.
Espirituoso, disse uma coisa qualquer à garçonete, talvez até num outro idioma.
E ali mesmo, no drama de olhar atento, escreveu um poema
como se em Paris estivesse.
Reinventando a vida, feito um mágico indormido,
o que não se entende é essa noite às avessas,
a insônia do invento,
esse truque de versos.
Márcio Ares. 2011.
diria que ele amou por toda a noite
sentou-se, pela manhã, num bar quase nem aberto
num bairro discreto de Belo Horizonte
e bebeu café.
Espirituoso, disse uma coisa qualquer à garçonete, talvez até num outro idioma.
E ali mesmo, no drama de olhar atento, escreveu um poema
como se em Paris estivesse.
Reinventando a vida, feito um mágico indormido,
o que não se entende é essa noite às avessas,
a insônia do invento,
esse truque de versos.
Márcio Ares. 2011.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
LAVRADOR
se Você voltasse n'algum dia de maio
haveria de me dar sentido, amor atravessado,
longe de nem quando era dezembro
a história antiga, de repente se molhava de alegria,
primavera ao meio, a semente jogada,
meu Deus menino
Márcio Ares. 2011.
haveria de me dar sentido, amor atravessado,
longe de nem quando era dezembro
a história antiga, de repente se molhava de alegria,
primavera ao meio, a semente jogada,
meu Deus menino
Márcio Ares. 2011.
ARTE MODERNA
Azul de fé recortado de azul
ao fundo no céu desenhado
translúcido azul
escuro em dois tons
nuvens de antes da noite
manhã que nada
um sol pintado de luz
Márcio Ares. 2011.
ao fundo no céu desenhado
translúcido azul
escuro em dois tons
nuvens de antes da noite
manhã que nada
um sol pintado de luz
Márcio Ares. 2011.
PURO ASTRAL
Nossa amizade foi ficando de outro modo
e sei que o destino é que nos enfeitiçou.
Se eu era um amigo nas cartas da sorte
é porque mais gosto que adivinho o amor.
Márcio Ares. 2011.
e sei que o destino é que nos enfeitiçou.
Se eu era um amigo nas cartas da sorte
é porque mais gosto que adivinho o amor.
Márcio Ares. 2011.
PROPÓSITO
Importa o instante que se vive
não a morte que se prova.
Viver bem pode ser bonito
colorido de tempo
e de sol.
Márcio Ares. 2011
não a morte que se prova.
Viver bem pode ser bonito
colorido de tempo
e de sol.
Márcio Ares. 2011
INCONSISTÊNCIA
A manhã seguia apressada quando eu quase me atropelei numa rua do acaso, tão comum são essas ruas ao longo das manhãs em que temos pouca calma.
Por um instante eu me via no espelho, a mesma pessoa, outra imagem.
Eu era aquele homem atravessando a rua, aquela barba feita, mas de um branco culto, aquele andar meio torto, aquele riso incerto e um certo olhar inseguro, misto de saber e não saber, de ser e de se. Eu era aquele homem deixado ali, adentrando a curva, passando ao futuro.
Curioso quando o improvável nos revela a fatalidade e a gente se encontra com a gente, num outro tempo, quando o futuro quase nos atropela. Aquele homem era eu e igualmente não era. Aquela figura ali, de repente, acontecia, quase urgente para o que eu ainda não era.
Um velho atravessando a rua dizia de um contratempo mais que um tempo de espera. Nenhuma incerteza própria de qualquer momento poderia negar esse encontro com aquele velho que eu era e, entretanto, não podia.
A fé talvez pudesse desenhar a imemoriável experiência de alguma vida passada em que eu fosse este ser presente e uma outra existência ainda não chegada. Conveniente seria, ou mais confortável, até, o limite de acreditar. Aquele era o reflexo de alguém que, conforme as leis, dizia e negava a firme verdade das coisas, com mágica ou desconhecida sabedoria.
A razão, no entanto, ali se apresentava em duas figuras idênticas, num tempo desencontrado, por demais ilógico para se aceitar. Só mesmo num tempo diverso o mesmo corpo ocuparia um mesmo espaço. Um moço, o outro velho. Um ainda cedo, um outro que tardio.
Perdido estava de algum passado aquele homem que eu seria e quase atropelado por quem ele já fora, eu, seu passado agora presente na via dessa grande cidade.
Não se tratava de nenhuma criação fantástica, exercício de paralelismo, ou qualquer saudade. Eu era aquele homem. Ele era o que eu sou, em algum tempo, de algum modo remoto, uma transformação de mim mesmo, e de seu próprio passado. Eu via, como num espelho, o homem que eu não era, minha imagem refletida.
O contorno daquela figura não era incoerente com a obra que a compunha. A mesma matéria e o mesmo corpo, em certa medida metafisicamente complexa, mas ainda duas proposições que não se excluíam.
Feito a métrica e seu verso, éramos palavra de mesma poesia que somente aos olhos de um outro leitor poderia ser distância, qualquer criação diversa.
A inexorável mão do tempo esmagara a mim, tornando-me aquela velha criatura, por quem eu passava quase ao léu. Eu estava ciente, entretanto, de uma dupla existência, por acaso acontecida num lapso qualquer do tempo.
Tentei avaliar de outro modo a situação, visando a uma percepção imparcial e mais transparente. A verossimilhança ali estabelecida, de tal forma amalgamada na minha crítica e sóbria consciência, não deixava margem possível a qualquer negação daquele instante e daquela inusitada incoerência.
Éramos dois e éramos um. O que eu, de fato, era; e o que eu, de fato, seria.
Márcio Ares. 2011.
Por um instante eu me via no espelho, a mesma pessoa, outra imagem.
Eu era aquele homem atravessando a rua, aquela barba feita, mas de um branco culto, aquele andar meio torto, aquele riso incerto e um certo olhar inseguro, misto de saber e não saber, de ser e de se. Eu era aquele homem deixado ali, adentrando a curva, passando ao futuro.
Curioso quando o improvável nos revela a fatalidade e a gente se encontra com a gente, num outro tempo, quando o futuro quase nos atropela. Aquele homem era eu e igualmente não era. Aquela figura ali, de repente, acontecia, quase urgente para o que eu ainda não era.
Um velho atravessando a rua dizia de um contratempo mais que um tempo de espera. Nenhuma incerteza própria de qualquer momento poderia negar esse encontro com aquele velho que eu era e, entretanto, não podia.
A fé talvez pudesse desenhar a imemoriável experiência de alguma vida passada em que eu fosse este ser presente e uma outra existência ainda não chegada. Conveniente seria, ou mais confortável, até, o limite de acreditar. Aquele era o reflexo de alguém que, conforme as leis, dizia e negava a firme verdade das coisas, com mágica ou desconhecida sabedoria.
A razão, no entanto, ali se apresentava em duas figuras idênticas, num tempo desencontrado, por demais ilógico para se aceitar. Só mesmo num tempo diverso o mesmo corpo ocuparia um mesmo espaço. Um moço, o outro velho. Um ainda cedo, um outro que tardio.
Perdido estava de algum passado aquele homem que eu seria e quase atropelado por quem ele já fora, eu, seu passado agora presente na via dessa grande cidade.
Não se tratava de nenhuma criação fantástica, exercício de paralelismo, ou qualquer saudade. Eu era aquele homem. Ele era o que eu sou, em algum tempo, de algum modo remoto, uma transformação de mim mesmo, e de seu próprio passado. Eu via, como num espelho, o homem que eu não era, minha imagem refletida.
O contorno daquela figura não era incoerente com a obra que a compunha. A mesma matéria e o mesmo corpo, em certa medida metafisicamente complexa, mas ainda duas proposições que não se excluíam.
Feito a métrica e seu verso, éramos palavra de mesma poesia que somente aos olhos de um outro leitor poderia ser distância, qualquer criação diversa.
A inexorável mão do tempo esmagara a mim, tornando-me aquela velha criatura, por quem eu passava quase ao léu. Eu estava ciente, entretanto, de uma dupla existência, por acaso acontecida num lapso qualquer do tempo.
Tentei avaliar de outro modo a situação, visando a uma percepção imparcial e mais transparente. A verossimilhança ali estabelecida, de tal forma amalgamada na minha crítica e sóbria consciência, não deixava margem possível a qualquer negação daquele instante e daquela inusitada incoerência.
Éramos dois e éramos um. O que eu, de fato, era; e o que eu, de fato, seria.
Márcio Ares. 2011.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
AUTO-PIEDADE
Só agora dei por mim,
ao me esquecer de vez.
Lembrança é muita culpa guardada.
Márcio Ares. 2011.
ao me esquecer de vez.
Lembrança é muita culpa guardada.
Márcio Ares. 2011.
NOTURNO E SORUMBÁTICO
Tudo é muito triste quando morrer é a melhor notícia
do dia
Tudo é muito triste quando amanhã é só mais um dia
que morre
Márcio Ares. 2011.
do dia
Tudo é muito triste quando amanhã é só mais um dia
que morre
Márcio Ares. 2011.
AMOR SENTIDO
O amor que eu vi na TV
não era amor pra valer
era um amor mais bonito
era um amor que se liga e desliga
era amor sem perigo
era amor com juízo
não era amor
o horror que eu vi na TV
O olhar que amei na TV
não era olhar de doer
era olhar de sempre sorrir
era olhar de alegria ao partir
era um olhar vazio
olhar de sorte vil
não era olhar
o azar que eu vi na TV
Cego, o amor que eu vi na TV
sem amor é que se via
sem olhos é que se vê
Márcio Ares. 2011.
não era amor pra valer
era um amor mais bonito
era um amor que se liga e desliga
era amor sem perigo
era amor com juízo
não era amor
o horror que eu vi na TV
O olhar que amei na TV
não era olhar de doer
era olhar de sempre sorrir
era olhar de alegria ao partir
era um olhar vazio
olhar de sorte vil
não era olhar
o azar que eu vi na TV
Cego, o amor que eu vi na TV
sem amor é que se via
sem olhos é que se vê
Márcio Ares. 2011.
SEM SAÍDA
Ser amado é muito não
Feito poeira incrustada
No mais difícil da estrada
Na placa de contramão
Com o amor entendo mais
Aprendo que sou capaz
De ser o que as placas são
Saber o pó da viagem
Perder o rumo de casa
Morrer a morte do chão
Márcio Ares. 2011.
Feito poeira incrustada
No mais difícil da estrada
Na placa de contramão
Com o amor entendo mais
Aprendo que sou capaz
De ser o que as placas são
Saber o pó da viagem
Perder o rumo de casa
Morrer a morte do chão
Márcio Ares. 2011.
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