sábado, 23 de julho de 2011

Pai pescador


Sustento o vício de amar demais, meu pai
Invento as idas, barco a vela, o cais
Manhã que espera o sol em alto mar

Eu, eu lanço a rede que o pai ensinou
Eu sei a força que refaz o amor
Eu sirvo a mesa deste meu lugar
Eu, sou moço ainda não conheço a cor
De outras terras sou um pescador
Navego as águas do sem fim do mar

Mantenho o ofício de aguardar maré, bem sei
Ver o sinal que a onda não desfez
Saber o olhar, o instinto, a hora H

Volto pra casa, o acaso é lar, é tarde, os meus
Descanso a alma, a noite, o céu, a vez
De aguardar outra manhã de mar

Márcio Ares. 2003.

Volta pra mim


Vai pro teatro, pra o raio que o parta, mas leva o meu amor
Porque eu te empresto pras artes
Para a cena que reparte nosso desacordo

E aguardo-te farto, prece nos lábios, palavra
de nenhum desgosto

O meu conselho tem o risco da mágoa
Mas é amor e  eu te ofereço
Minha outra face

Vai pro teatro, pra o raio que o parta, mas leva o meu amor

O querer de sempre

Infinita lembrança dizendo eu vos amo
No desencontro de minha bagagem
Pássaro-anúncio do filho-saudade

A mesa posta para nós, um pouco de cor
Meu coração de imagens quebradas

Essa vida tão sem vós, meu pai, minha mãe,
e o medo aqui do outro lado

Reconheço-vos infinitos, um resto de vida
dividindo comigo os pequenos afagos

Tem cor de céu e mancha de amor essa falta
Enquanto divido a solidão acostumada
                       

Por todos nós


Que eu não perca a minha calma
Que eu não perca a minha fala
Que eu não saiba a vossa dor, meu Deus!

Que eu me atenha em ser humano
Que eu me alegre em ser irmão
Que eu me entregue em ser inteiro

Que eu entenda, senhor, a vossa vontade
Que eu me guarde, em vossa palavra

E que ao zelar pela casa, este planeta sem asas,
Meu coração seja amor

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Percurso

não se reconhece, como antigamente, o curso de cada coisa
o amor não se alcança mais e todo encanto é sem merecer

volto em verso ao meio dos amores idos
sem a pressa que tínhamos, sagrada e livre, de sempre estar a caminho
descobrindo que o sonho tem prumo, altura, paladar
e segue a esmo pelas vontades, sem jamais se perder

o coração da mente bombeando saudade, brindando ao que não se diz
tomando o pulso da vida, a pressão do amor, a veia artéria do ser
nas paredes da escuridão de agora, fortaleza futura
sobre tudo o que não pode ser


Márcio Ares. 2006

Alegria

a estrada é longa e desconhecida
nos galhos o branco, o muito frio

meu coração que te encontra, oh, país distante,
terra que em mim existe

a cidade nos acolhe como aldeias antigas
de pouca luz, mas calor humano
história e segredo muito além dos livros

vou de novo à janela, outra vez ver o rio
lá embaixo, parado, no entanto vivo
em águas de inverno tornadas planície

e morro aqui para sempre
sorrindo pra vida



Márcio Ares. 2006

Moi drugue

MOI DRUGUE*
*em russo: meu amigo

passei, hoje, por ti
sereno, belo gigante
aqui distante, vestido de branco e frio

arrancavam de teu ventre, eu vi,
múltiplo e árduo, o milagre do peixe
para atender a fome

e enquanto de ti levavam
encanto, cria, cor e tanto
tu te aquietavas tão firme

além da cidade, do homem, do inverno
ao longo da terra por ti vencida
tornavas espessa a margem que eu via

o lugar da beleza, em dia tão curto,
saudava meus olhos ao meio do dia
e dormia comigo à janela do quarto
sem perder-se de vista

passei, hoje, por ti, camarada, amigo
voltei para este verso
forte, seguro

Volga, Volga, em ti busco ainda
um homem sábio feito rio
profunda a alma, extensa alvura
a própria vida

 Márcio Ares. 2006

Inspiração


Há dois minutos eu tinha um verso pronto
Agora, perdi-me outra vez na busca das coisas
além de Deus

Há dois minutos eu tinha um verso alforria
o tempo da história liberto no livro
A verdade possível

Agora, nem poeta nem eleito, o destempero da sina
Minha vida sem jeito de não obedecer

Virei homem sem arte nem graça divina
Forçosa e solitária criatura
Condenada ao destino

Dois minutos e vai-se a vida



Márcio Ares.

irremediável


O mundo insuflando a fome do tédio
Um ato firmando seu nome nas pedras

Amo-te no invento, enceno o mistério, sou palco, ilusão
Enquanto te espero, te guardo e te quero no meu coração

O verso do homem em busca do sonho
um texto ensinando o caminho do outono

amo-te na escolha,  dou cor  ao poema, sou pura ilusão
enquanto te aguardo, sou tempo que arde em pura paixão

Caminha a vontade além de mil pedras
Um olhar que pede um pouco de pressa, todo o amor humano

Márcio Ares.

Incapaz

Desarranjar os rumos da estrada
é tudo que aprendo sem saber
o amor, coisa que não me cabe

Teço a ordem para o caos, bem sei
enquanto aceito o  que mato

e por  amar assim desatinado
nem sei o que sei sem estar ao seu lado

Volúvel


O desamor, meu desassossego,
aos poucos aprende
que há muito esqueço

o quanto fomos tão pouco
um para o outro, eu pra você
mais eu que todos

poesia em outras bandeiras
nada de raiva ou desprezo
estar distante é meu feito

Márcio Ares.

Depois que eu me for


Uma estrela não será a luz de um poema antigo
meu verso não será céu nem brilho
mas estarei contigo

quando olhares o céu vazio, saberás tudo que fui
a certeza de quem muito quis
mas não amou

todo o necessário que era os olhos teus
como a estrela que flui
no amor que sei e ainda não sou

Márcio Ares.

Morada

O corpo é meu, esse desengonço
mas a ordem vem do céu

Sou a casa do pecado
a vontade amarrada de absolvição

O verbo com outra vontade
muito distante de Deus


Márcio Ares.

Por acaso


Um cão veio de manhã
resistiu ao inverno do amor
e atravessou a minha vida

Eis que amando, mais do que pude,
ligeiro tomou lugar
no tempo em que eu me perdia

Ensinou pequenos afagos, alegria imprevista,
guiou-me à estação da alma
o bom caminho sem volta

Agora a falta é memória, outra manhã na avenida
o uivo triste no asfalto, meu amigo sem hora
rumando um novo destino

Voltei a ser noite e meu querer amargo
quer nova manhã de reencontro
a graça de um novo amigo

Márcio Ares.

Sem limite a desrazão

O semelhante imaginado no invento fértil da coisa
No olhar e na escrita do pai, a inteireza da façanha
O bom tomado à maldade no contraponto razão

Ânimo guerreiro, asteador de espadas, para além da imagem
Avança contra o embaraço, o braço, o cavalo que não se cansa
O reinvento do engano, a coragem que falta, o desarranjo

Discrição, prudência, qual o quê? Desimportantes vontades.
Proveitoso é o rumo e toda a hora da estrada, a fábula,
a memória do confronto, o que se conta e se guarda

A exata incerteza na aventura se diz e se basta
O erro é maior vantagem, são planos, coragens.
O medo mais faz distância que lutar o combate

Ajustam-se o entendimento humano, o modelo da história,
a prosa plena, abastada, a escritura insana, o não silêncio,
a valentia segura, o amor de aldeia, o doce amor à distância

Fascinante investida no arranjo do longe, o caminho rompido,
e a fala de um homem, no avesso invertido, em luta, a galope,
Um Cervantes na obscura razão do sonho, a estranha vida.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Antigo

fui teu jardim maleável, naco de estrada
mais muito mais que céu
criatura gasta ao primeiro dia

fui tuas folhas outrora, vasta alegria
invento de ir mais além
quando existo dentro, frio

fui teu olhar pecado, morrer que há
crente, ausente, outono vivo
triste que triste agora triste

morro, meu amor, sem este amor que fica




Márcio Ares. 2006

Na crença da história


grande fez-se a palavra
no sertão de veredas, no verso da fala
aprumando o urucuia perdido, o chão campeado
chapada de norte escrito, vida desescolhida
o combate infinito, a força de morte, coragem

e verde e seco e repente – o amor estiagem –
vestido de homem, rompendo vontade
no chão do bruto, na alma do longe, no corpo fechado

grande fez-se o silêncio
na perda assentida despiu-se a verdade
ocupando o terno indevido, o porquê enviesado
um olhar de amigo, arisco, em um tempo de falta
sem jeito de encontro, o pasto se indo, eivado

e tanto e forte e vasto – o ser invernado –
um homem-buriti-sozinho, plantado
no transvés da serra, na tocaia do incerto, no fogo da alma

grande fez-se a travessia
no vão de estranhezas, na prosa fincada
assomando ao sem fim o prenúncio, minúcia de homem
registro de estrada, desvio, rês desinfeliz
o suor sabido, a sorte, o mundo provado

e longo e tenso e pleno – único relato –
além do conto, à mão do invento
de um rosa crestado, a razão mais séria, Riobaldo


Márcio Ares. 2006

            

La frontera


Cada verso tem sua cachaça, um gosto de graça, um pouco de Deus
Cada palavra sua desgraça, um rosto que arde, adeus

Em cada rebelde um pouco de casa
Em cada verdade um pouco de falta
Em cada sim um pouco de não

Cada inverso tem sua razão, um amor passado, um mar amargo
Cada olhar seu fim de tarde, o sol, a  mágoa
Cada vontade a sua estrada, um chão que arde
Cada perda seu refrão

Cada qual  tem sua fé, o que se quer, um querer bem
Cada céu a sua cor, cada rumo um escuro vão
Cada amor o seu terraço, a dor, espaço
Um sem retorno coração



Márcio Ares.


A estrofe do meio


Era domingo e eu envelhecia o destino
menino crescendo barba
o amor resistindo em mim

alegria mais plena haveria de vir?
Um grito de gol, o primeiro beijo,
o muito gosto de cada memória

perdido o rumo deu-se a vida insegura
arde meus olhos esse outro norte
o sonho largado quando ainda menino

Agora, a falta do olhar de longe,
a ausência do riso a qualquer hora
o começo do escuro


Márcio Ares.

Insóbrio

Imolar o cordeiro do mundo
fez mais triste o meu amor

Logo eu, latino equatoriano, grego peregrino,
seria um homem santo não fosse aquele madeiro
acenando de longe
à primeira e última hora, desde sempre, cedo

amargo a fé distanciada, lacrimoso cortejo
assumo a anônima falta
de beber o sangue eleito




Márcio Ares.

Outshine

Wind, windmills, small island
Dry land in my poem
Legend

Water, waves, big earth
Old word in the age
wireless

loss, luck, worst secret
a bolt from the blue
destiny

reason, reclaim, god’s recall
rebel wind on the rebound
suddenly



Márcio Ares. 2006

Valor

A lei condena minúcias, bandido apanha é da vida.
O início é bala perdida, o não diálogo, o desatino do vício.

Polícia é mais que polícia.
É peito aberto pras armas, o desencontro com o tiro.

Existe em nós o soldado, o trem, o bandido,
a falta de olhar a sorte, o lugar, o trilho,
O colete e o coturno de todo santo dia.

É mais caro o ofício da morte.
O aceno da gente é no escuro da paz,
a cegueira legal  no olhar de registro.

A mão que afasta o crime embala firme
o querer futuro, o que é seguro,
a estação ensinando o tempo,
o bem querer resguardando a vida.



Márcio Ares. 2006



Pequena lembrança


Photo by Márcio Ares. It's the place where I was born, the place where live my parents.


Nosso pai arando a palhada, os irmãos regendo a matraca,
nossa mãe lançando sementes , eu quarando meninice
e Deus cultivando o milagre gestado em todos os grãos.

Já é passado setembro, outubro escasso de chuvas,
tempo de chão molhado, a hora da plantação, o sol,
e eu, lavrador tardio, buscando cores que a velhice arruinou.

Não tenho meu pai revolvendo a terra, irmão suando lavoura
Mamãe cuidando carinho nem eu curtindo preguiça.
Só o amor treinando levezas, aprendendo a falta,
a solidão de repente, esvaziando outros dias.

Márcio Ares. 2005


Homem de versos


A dor tem desertos quando fere o poeta
os cravos o elegem nos passos do justo.
Nenhum porto é chegada, o mundo é naufrágio
Os pães sem o peixe, o ar sem pulmões,
a contramão de Cristo.
                               
Trinta e tais anos de angústia, o gérmen do abandono,
o verso oásis, a escuridão do amor.
Crente, o poeta reinventa o templo
reconstrói no exemplo a dor do mundo.

Márcio Ares. 2005


Desalegria


Será uma dor, um poema, o silêncio do vento nublando minha alegria,
Ou esta casa meio escura, sem o azul que tu me deste?
Será desamor, ou o silêncio de Deus?

A crença não endireita o prumo dessa falta de hora
Essa falta de cor é presságio, o desinvento da vida
Fico suspenso de não saber

O frio engastado nas paredes de agora
Visita sozinho o que esmaga meu peito
A falta de amor desbotando meu ser


Márcio Ares. 2005


A caminho

O suor que denuncia o sol de Buritis
Lembra ao corpo o que é ser filho de lá

O frio europeu, em Moscou,
Reconhece em mim
O que eu trouxe de lá

O morno bíblico aterroriza minha ignorância
E me obriga a viagens para eu entender
O tempero da alma, a espera, o ócio
A inquietude do mesmo lugar

Quero a cor de outras raças, a força que lhes bastam
As histórias que por lá contam
A verdade que os fazem vastos

Sou a escassez que me coube ter.
No estreito horizonte a que fui obrigado
Estrangeiro também quero ser

Por isso invento viagens, neve e coqueiros
Uma existência inteira para eu me encontrar
E me perder



Márcio Ares. 2006

Ainda é tempo de alguma flor

Sinto que, longe, depois dos ventos,
Insiste, em suas  mãos,
um pouco de primavera

E espera que reste em mim,
ainda semente, um pouco promessa
O caminho da volta

Vez ou outra me esqueço
Jogado por aí, longe da flor
Um pouco de si

Perde-se o tempo, outro pincel
A morte natural, marrom e cinza
O vitral da espera

E além, muito além, em suas mãos há primavera



Márcio Ares. 2006

Conversão


Minas é trem que vejo
E da janela me enquadro
Silva de pai e mãe
Maturo de orelha a rabo

Filho de terra, verde, poeira,
Rio, cachoeira, bicho de pé
Cão amado, boi matreiro
Palavra acesa noutra fé

Depois aprendo os rumos do poeta
Esqueço a pressa e Deus me acalma
Se eu vos consagro e ofereço basta
Pertenço-vos de saber e alma