sábado, 1 de setembro de 2012

POLISSÊMICO


Tanta lei não vale o vício do olho, não basta à crença do velho,
não sabe a força da força.

Enquanto não se faz o bem, fica vazio o conceito, fica invenção a palavra,
fica tudo o mesmo jeito.

Mas inventar, meu pai me disse, é ter respeito com as margens,
construir sem medo, evitar cicatrizes e, muito, muito mais, viver.

O que se diz há de ser dito com zelo.
A palavra esconde o perigo, destrói o mais bonito que ainda pode ser.

Ademais, a lei é para o além do escrito.
Não basta o livro, mas quão livre é quem o lê.


Márcio Ares. 2012.

DESDE MUITO TEMPO


A liberdade cumpre pena no meu peito
e lá de fora vem o risco da claridade.
Não tem nome esse jeito de viver sem asas.
Não há sujeito que insatisfeito não mate,
ou que pense e não fale
que não exista bravo
ou não esteja preso
ou não esteja outro
exilado, morto.
Aquele tempo retumba no meu tempo, hoje,
e a minha culpa é quando a ele não me igualo.
Não tem hino, ideal, horror, bandeira,
não tem povo
que silencie o gosto de um futuro inteiro.
Agora, que essa coisa desarmada me chega
eu me rendo em homenagens, nesse verso feito,
e aos poetas de ontem, que ainda hoje contam,
reinvento a coragem de ser brasileiro.


Márcio Ares.

CONVERSÃO


Desculpa de quando eu não sabia de mim,
mas entendi que amar fosse não te deixar partir.
Desculpa não te libertar, agora que sou cativo
e por fazeres-me vivo como eu nunca te fiz.
Desculpa não cuidar de ti com o meu carinho tão mudo
e nunca te fazer feliz  sempre que eu vivo inseguro.
Só não desculpa se me esquecer for preciso
porque amor é graça divina e eu descubro
que amar é tudo em que agora acredito.


Márcio Ares. 2012.

QUAE SERA TAMEN


Roubaram de mim o direito de não ter cárie, o direito de ter dentes,
braço forte, sol de liberdade
e uma pátria que não me condene.
Roubaram a infância das minhas horas de ser só menino.
Roubaram os livros da minha mãe e um pedaço do meu saber, como consequência.
Roubaram-me a vez de entender o perigo,
a escola que me daria o caminho
e a crença de não ser pequeno.
Roubaram minha alegria na esquina da vida
e a direção do meu discernimento.
Roubaram, ainda, mais e mais, até sempre,
o instante da minha revanche
e a minha chance de entender o crime.



Márcio Ares. 2012.

O AVESSO DA FORÇA


Apressou o passo, antes do encontro fatal.
Segurou fôlego, apurou olhos e ouvidos, buscou direção.
Atravessou vontades e delas retirou asas.
Planou com a leveza daqueles que vigiam, feito coturnos insones.

Pensou estratégias, cenário de atuação, outros mínimos detalhes.
Silenciou seus medos, quaisquer outros alheios sentimentos.
E, com foco nos pontos sensíveis, enquadrou o alvo.

Sentiu no peito o peso da arma, a palavra contra o coração em guerra.
Com a precisão incerta dos abandonados, pisou o chão da verdade.
Disparou te amo.

No tiro pela culatra, um amor alvejado de não.


Márcio Ares. 2012.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

DESCRESCIMENTO

Confuso com a terra do nunca
Tratou de nunca mais retornar
Ficou no meio do mundo
Entre os gigantes e o mais miúdo
Asas sem rumo
Navio sem mar


Márcio Ares. 2012.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

ABRAÇOS DEIXADOS

Há os que levam a vida e não param para amar.
E há os que sabem da vida:
não ficam passados, não vivem parados, não vão à deriva.
Assuntam as águas, ajeitam seus barcos, precisam seus medos
e aprumam coragem porque hão de voltar.


Márcio Ares. 2012.

QUASE LEMBRANÇA

Um homem precisa de coragem pra sorrir.
A gente nunca sabe as dores de muita história.
Dias de ausência, repentes da sorte, destemor de partir
e uma penca de filhos cada vez maior.

Uma espécie de saudade faz voltar o tempo
feito a incerteza mais forte não fosse a hora presente
onde tudo pode existir contente,
lembrança longe da morte.




Márcio Ares. 2012.

ORFANDADE

A alegria anunciada chegou e partiu.
Esteve comigo feito a chuva que ora se inicia e daqui a pouco se acaba.
Agora é só o tempo nublado e nenhuma vida.
As águas de março desbotam o azul de abril
onde nada é certo, nada é urgente, nada.

Fazem tardar a primavera o outono e o repentino frio.
Depois, quem sabe, dê-se o milagre da promessa
e um pouco de Deus
para a humanidade que ainda existe.


Márcio Ares. 2012.

QUEBRADO

Era uma noite de suor trêmulo. Pedia-se perdão.
Com um jeito menino mais bonito
encostava-lhe a cabeça no peito
e todo o amor se podia.

Devagar, o medo de alguma inquieta escuridão
alcançava o chão da sala, o quarto nu,
os poros silenciosos se encharcando
até o medo da traição.

Os nervos sabendo o incerto, o âmago, o desespero
e duas vidas sempre tão perto
doíam em dois a inquietação.

Com amor pode-se tudo, inteiro
para entender bem a razão que pode ser
ou bem pode ser que não.



Márcio Ares. 2012.

PARA O SILÊNCIO DO MUNDO

Entre nós havia uma certa distância,
um jeito de não se exibir.
 
Gostávamos calados.
O amor tem disso.

Outras horas, nunca éramos o mundo.
Éramos só nós, imensos e grandiosos.

Juntos, somente isso.

Só nós.



Márcio Ares. 2012.

quinta-feira, 15 de março de 2012

CANÇÃO DE UM ANTIGO VERSO

Se canta nós dois fico satisfeito
Vou embora depois
Com o som que se foi
E você no meu peito.

Se canta nós dois fico descoberto
Uma estrela sozinha
Que sabe outro céu.

Se canta eu fico nós dois
Querendo sem jeito
Você bem mais perto.


Márcio Ares. 2012.

INFINITO ONDE

Escrevo, pra esquecer, um verso
dissonante que eu esqueço pra escrever
e fico pensante sem lugar
o inverso de antes
à força de lembrar distância
e sofrer de pensar
a palavra repousante
eterno recomeço
de não acabar


Márcio Ares. 2012.

DE LÁ PRA CÁ

Todo o papel é pouco e o mundo é pequeno
mais que demais eu não entendo essa torre de babel
linguagem que eu não conheço
estrangeiro povo dizendo feito a gente
tanta falta e sentimento
meu bolso de poucos réis
porque é de poesia que eu vivo e me invento
mas não escrevo o que se perdeu
porque todo o papel é pouco e o mundo é pequeno
e o povo meu não entende
esse dizer que se conta num prédio que se orienta
no desencontro de Deus


Márcio Ares. 2012.

MOSTRADOR

Do relógio que você me deu soltou-se o cavalo.
que agora passeia a loucura das horas.

Salta ponteiro meio dia o dia inteiro.
Deu de saltar meus olhos mais cedo,
no desespero de perder a hora.

Numa dessas, penso que ele se queixe
e, saudoso de Nova Iorque,
sem tardar o tempo ele volte
pra ser um cavalo que se preste
ao tempo em que nele se mostra.


Márcio Ares. 2012.

COMPAIXÃO

Dizer a palavra exata ao coração impreciso
são muitas horas de abraço
e olhares de mais além.

O opaco silêncio do entendimento,
ainda sem a fatalidade das horas,
requer do amor todo o seu ofício, total desdobramento,
um vício que se desdobra
num lastro de querer bem.


Márcio Ares. 2012.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O QUE PODE HAVER ENTRE NÓS DOIS

O que restou em você
depois daquele amor que eu não pude ser
já não pode ser amor
amizade, talvez



Márcio Ares. 2012.

E POR ISSO VIVO

Fui aprendendo, com a alegria dos que nunca me deixaram,
a vida entre amigos.
Difícil viver comigo, eu sei, desde muito sempre amargo.
Isso é o que nunca me disseram, mas que o mundo sabia,
e eu adivinhava.

Quando fui tímido, ou tive medo, fizeram-me acreditar,
para que, em mim mesmo, o mal se desencontrasse.
Nunca esperaram que eu respondesse às mensagens, emails,
telefonemas cheios de mimo e cuidado,
cartões de feliz páscoa, natal e outros aniversários.
Sabiam meu desajeito com essas coisas da razão.
Meu coração fez-se bruto, insatisfeito demais.

Morri, muitas vezes, em segredo, mas nunca sem um abraço,
um olhar mais demorado, um afago no cabelo, um sorriso camarada,
caso eu precisasse e o orgulho não me repreendesse.

Montei acampamento numa distante clareira
e fui ficando prisioneiro de uma guerra ensimesmada.
Atirei ódio contra a minha bandeira, traí alguns amores,
e embora com certo desespero
fui guardando cores para, mais tarde, algum tempo de paz.

Trago, felizmente, ainda forte, comigo, sempre,
esse corte fazenda de interior tecido
para que vestido de verde, bicho e semente
eu pudesse, n’algum tempo, com uma saudade sentida,
o entendimento de amigos que sempre me quiseram.

E enquanto em mim resistir o possível mistério
eu me deparo, um dia, com a total felicidade



Márcio Ares. 2012.

PARA QUANDO PERDER O CONTROLE FOR A DIREÇÃO

Noventa quilômetros de amor doendo, perdidamente apaixonado.
Chegou, como sempre chega, ardente,
num tempo inesperado, humanamente inacabável,
e foi guardando palavra, querendo vez, cavando lugar.

A distância do alheamento exigia encontro, dizer as coisas de dentro,
o saber antigo das almas.
Ia ficando plural a solidão do invento.
Ia ficando mais gente aquele quando de acaso.

A idade da razão, o entendimento da estrada
e o medo, quem sabe, de amar em vão
sinalizavam cuidados, a contramão sem placas pra viagem,
o risco de voltar pra casa, uma tristeza de possibilidades.
E o coração, acelerado de emoção e coragem, acenava de uma estação
além de qualquer dor, arfante de se encontrar.

Leve e louco, o futuro dos amantes se desencontrava
porque antes o incerto do amor
porque antes o invento de amar.


Márcio Ares. 2012.

LARVA

A planta, muda, esperando palavra
e eu, pensante, mato cortado.

Lá fora, um sol brilhante asteado.
E minha alma a meio mastro.

Sou este ser rastejante no escuro, triste e obsoleto
quando os galhos murchos, na varanda,
rimam com o céu azul desbotado
nesse poema sem inspiração, arrastando-se,
feito lagartas que nunca chegarão a borboletas.

Oh, descrença, meu Deus!
Ficar inventando asas para a minha natureza.

Quero um buraco, a casca seca das árvores,
uma casa de barro, sem terreiro,
com um velho galho encostado.

Querer desse jeito é querer, reconheço,
demasiado
essa manhã de tristeza
essa coragem pra nada.


Márcio Ares. 2012.

OLHOS TORTOS

Todos, ao meu redor, de muito olhar se alimentam
de nós que trazem nos olhos
estranhos, de alumbramento.
Estão aqui do lado, na altura e força dos meus ombros,
mastigando a mesma inverdade, no destempero da indiferença
à mesa posta e servida a todos os tempos.

Mas é fome o que eu trago nos olhos
cegos de entendimento.


Márcio Ares. 2012.

MADRUGADO

Qualquer Deus intercessor me salvaria
com a graça, imediata, de um poema
antes que você despertasse.

A minha poesia quer acordar ao seu lado
pra que o mais amado bom dia
seja lido nos seus lábios.



Márcio Ares. 2012.

ARTE QUE NÃO SEI

Quisera eu carregar um violão nas costas
para que as ruas intermináveis ficassem um dia sem fim.
E que esse dia fosse a memória da sorte, o chamado para ser feliz.
A mão encorajando o acorde do espírito carregado feito a cruz
na coragem da luz que se iguala aos ombros de infinitas ruas
onde o querer de cordas se arranja
interminável resposta
e um jovem talvez vá, talvez volte
desse lugar felicidade
livre, pelas ruas da vontade longe,
e da eternidade que se pode agora.


Márcio Ares. 2012.

ESCOADOURO

De um lugar distante, muito ao contrário do mar,
sempre fui um menino cheio de curva e barranco,
um rio correndo só, na solidão da lembrança,
com um jeito manso de primeira fonte
querendo, antes, muito mais ficar.

O segredo, no entanto, pesa além das pedras,
tanto busca e não alcança.
E lave e leve, de mansinho, esse querer sem onde,
água em descaminho que aqui dentro quebra.


Márcio Ares.

BARTOLOMEU

Diz, ao anjo que o acolhe, que eu não sei viver assim.
A palavra mais sozinha dói a dor que nunca morre.
A tristeza que se importa, menos triste faz-se forte,
com sua própria cicatriz.
Mas o amor que você via só em teus olhos cabia, não em meu verso menor.

Quem, agora, há de fumar os cigarros que eu escondia ou guardava
pra o acaso da visita?
Quem, agora, me dirá, com a mesma delicadeza,
a metáfora da vida, a coerente certeza, o assombro desalegria,
ou fará contas de cabeça, na história que eu mais amei?
Quem mais pode o silêncio comigo?

Meu dia agora é saudade, feito o seu vermelho amargo
de inacabável tristeza.
Fica em Deus que eu fico triste,
fico o estranho mais sem jeito,
fico o amigo mais sem vida.


Márcio Ares. 2012

DESCAMINHOS

Eu fico muito cansado de mim, ao longo do ofício de entender o mundo.
É que sou eu o imprevisto da estrada, a curva desavisada, esse abismo de nunca ter fim.
Tudo são horas que sabem a tempo o desconforme
da palavra que lambe o incerto dos olhos, caçando algum alento,
em metáforas do acaso e de qualquer divino presságio
a carne que dói,
a alma que lamenta.


E eu, de tanto saber nada, invento a paixão dos contrários
e clamo à ordem do absurdo,
à paixão, ou loucura, dos que tudo podem,
ao óbvio da razão mais pura,
que nesse planeta, em órbita desgovernada,
seja o amor um lugar seguro.


Amar, no entanto, é para mim a mais bruta desvantagem,
o escuro paradoxo, daqui até o mais distante,
um amargo estranhamento de vontades, corpos e coragem tanta,
dizendo com outras palavras
do silêncio, o que eu não compreendo,
do sentimento, o que eu não dou conta.


Márcio Ares. 2011

REVELAÇÃO

Ergueu-se algo na contramão do meu dia.
Na altura dos olhos da avenida,
um braço erguido, um livro na mão e uma voz inaudível
fizeram dar-se qualquer coisa estranha.
Feito um canto e uma bandeira na alma de um viajante,
há muito, distante de sua terra primeira,
eu, que voltava senão da aventura de ser livre,
ali, na esquina das pistas,
soube Dele, a única hora, a imagem santa.

Chorei minha vida, como nunca não, nos moldes de quem sofre e ainda crê na alegria.
Encharquei-me de lágrimas, feito quem desconfia do perdão,
mesmo ante aquela verdade corajosa
sob um árido sol de meio-dia.

E eu, só, remoendo comigo a minha falta de fé.

Vê, lá, se aquilo eram horas!

Deus é coisa muito esquisita!



Márcio Ares. 2011.

INVERSO

a verdade do poema ainda está por ser
o verso que reclama o verso que reclama
o céu da palavra mais sem nome
asas da vontade
pecado que se come
para acontecer

é dor o que eu escrevo, meu verso que o diga
ou será mais longe o que se deu
enquanto eu escrevia

finjo como ele disse que se faz
exato como eu negava que faria
sentir é meu jeito
feito verso feito
minha dor poesia


Márcio Ares. 2011.

TORRENCIAL

Eu choro esse rio de um céu despencado.
Sob um dezembro encharcante, já foi belo horizonte o lugar dessas águas.
Hoje é barranco, meninos órfãos, velhos soterrados.
Eu choro essa gente chorando o mal tempo,
esse repente ajaneirado.

Cidade descente n’água, morro que vive, que mata.
Enchente atropelo de barro
e teto e árvore, carro, gente e buraco
que na emergência se basta e se pensa
despensa de plano e de gastos, dívida pra sempre,
encosta mal povoada.

Povo que chora torrentes, junto ao lamento que alaga
fica gerais tristemente
nas minas debaixo d’água



Márcio Ares. 2012.

sábado, 10 de dezembro de 2011

OFUSCADO

Em algum outro ponto de que não me recordo agora
deixei a história mais bonita.
Por mais que eu insista já não a encontro.
Falava, creio, de um amor muito antigo.
Eu era moço, andava sem nenhum desgosto,
e o amor ainda era possível.
O acidente que se deu em nossa estrada
deixou-me sem norte, perto de nunca mais,
uma placa torta à beira de um deserto
muito sol sozinho
demais.

Márcio Ares. 2011.