Dorme, ao amanhecer das horas, oh meu menino lindo!
Respira, agora, o dia que desperta.
Sonha o querer sem fim
e acorda em mim o amor sem pressa.
Márcio Ares. 2011.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
ENCANTAMENTO
Se eu pudesse entender os feitos do poeta
diria que ele amou por toda a noite
sentou-se, pela manhã, num bar quase nem aberto
num bairro discreto de Belo Horizonte
e bebeu café.
Espirituoso, disse uma coisa qualquer à garçonete, talvez até num outro idioma.
E ali mesmo, no drama de olhar atento, escreveu um poema
como se em Paris estivesse.
Reinventando a vida, feito um mágico indormido,
o que não se entende é essa noite às avessas,
a insônia do invento,
esse truque de versos.
Márcio Ares. 2011.
diria que ele amou por toda a noite
sentou-se, pela manhã, num bar quase nem aberto
num bairro discreto de Belo Horizonte
e bebeu café.
Espirituoso, disse uma coisa qualquer à garçonete, talvez até num outro idioma.
E ali mesmo, no drama de olhar atento, escreveu um poema
como se em Paris estivesse.
Reinventando a vida, feito um mágico indormido,
o que não se entende é essa noite às avessas,
a insônia do invento,
esse truque de versos.
Márcio Ares. 2011.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
LAVRADOR
se Você voltasse n'algum dia de maio
haveria de me dar sentido, amor atravessado,
longe de nem quando era dezembro
a história antiga, de repente se molhava de alegria,
primavera ao meio, a semente jogada,
meu Deus menino
Márcio Ares. 2011.
haveria de me dar sentido, amor atravessado,
longe de nem quando era dezembro
a história antiga, de repente se molhava de alegria,
primavera ao meio, a semente jogada,
meu Deus menino
Márcio Ares. 2011.
ARTE MODERNA
Azul de fé recortado de azul
ao fundo no céu desenhado
translúcido azul
escuro em dois tons
nuvens de antes da noite
manhã que nada
um sol pintado de luz
Márcio Ares. 2011.
ao fundo no céu desenhado
translúcido azul
escuro em dois tons
nuvens de antes da noite
manhã que nada
um sol pintado de luz
Márcio Ares. 2011.
PURO ASTRAL
Nossa amizade foi ficando de outro modo
e sei que o destino é que nos enfeitiçou.
Se eu era um amigo nas cartas da sorte
é porque mais gosto que adivinho o amor.
Márcio Ares. 2011.
e sei que o destino é que nos enfeitiçou.
Se eu era um amigo nas cartas da sorte
é porque mais gosto que adivinho o amor.
Márcio Ares. 2011.
PROPÓSITO
Importa o instante que se vive
não a morte que se prova.
Viver bem pode ser bonito
colorido de tempo
e de sol.
Márcio Ares. 2011
não a morte que se prova.
Viver bem pode ser bonito
colorido de tempo
e de sol.
Márcio Ares. 2011
INCONSISTÊNCIA
A manhã seguia apressada quando eu quase me atropelei numa rua do acaso, tão comum são essas ruas ao longo das manhãs em que temos pouca calma.
Por um instante eu me via no espelho, a mesma pessoa, outra imagem.
Eu era aquele homem atravessando a rua, aquela barba feita, mas de um branco culto, aquele andar meio torto, aquele riso incerto e um certo olhar inseguro, misto de saber e não saber, de ser e de se. Eu era aquele homem deixado ali, adentrando a curva, passando ao futuro.
Curioso quando o improvável nos revela a fatalidade e a gente se encontra com a gente, num outro tempo, quando o futuro quase nos atropela. Aquele homem era eu e igualmente não era. Aquela figura ali, de repente, acontecia, quase urgente para o que eu ainda não era.
Um velho atravessando a rua dizia de um contratempo mais que um tempo de espera. Nenhuma incerteza própria de qualquer momento poderia negar esse encontro com aquele velho que eu era e, entretanto, não podia.
A fé talvez pudesse desenhar a imemoriável experiência de alguma vida passada em que eu fosse este ser presente e uma outra existência ainda não chegada. Conveniente seria, ou mais confortável, até, o limite de acreditar. Aquele era o reflexo de alguém que, conforme as leis, dizia e negava a firme verdade das coisas, com mágica ou desconhecida sabedoria.
A razão, no entanto, ali se apresentava em duas figuras idênticas, num tempo desencontrado, por demais ilógico para se aceitar. Só mesmo num tempo diverso o mesmo corpo ocuparia um mesmo espaço. Um moço, o outro velho. Um ainda cedo, um outro que tardio.
Perdido estava de algum passado aquele homem que eu seria e quase atropelado por quem ele já fora, eu, seu passado agora presente na via dessa grande cidade.
Não se tratava de nenhuma criação fantástica, exercício de paralelismo, ou qualquer saudade. Eu era aquele homem. Ele era o que eu sou, em algum tempo, de algum modo remoto, uma transformação de mim mesmo, e de seu próprio passado. Eu via, como num espelho, o homem que eu não era, minha imagem refletida.
O contorno daquela figura não era incoerente com a obra que a compunha. A mesma matéria e o mesmo corpo, em certa medida metafisicamente complexa, mas ainda duas proposições que não se excluíam.
Feito a métrica e seu verso, éramos palavra de mesma poesia que somente aos olhos de um outro leitor poderia ser distância, qualquer criação diversa.
A inexorável mão do tempo esmagara a mim, tornando-me aquela velha criatura, por quem eu passava quase ao léu. Eu estava ciente, entretanto, de uma dupla existência, por acaso acontecida num lapso qualquer do tempo.
Tentei avaliar de outro modo a situação, visando a uma percepção imparcial e mais transparente. A verossimilhança ali estabelecida, de tal forma amalgamada na minha crítica e sóbria consciência, não deixava margem possível a qualquer negação daquele instante e daquela inusitada incoerência.
Éramos dois e éramos um. O que eu, de fato, era; e o que eu, de fato, seria.
Márcio Ares. 2011.
Por um instante eu me via no espelho, a mesma pessoa, outra imagem.
Eu era aquele homem atravessando a rua, aquela barba feita, mas de um branco culto, aquele andar meio torto, aquele riso incerto e um certo olhar inseguro, misto de saber e não saber, de ser e de se. Eu era aquele homem deixado ali, adentrando a curva, passando ao futuro.
Curioso quando o improvável nos revela a fatalidade e a gente se encontra com a gente, num outro tempo, quando o futuro quase nos atropela. Aquele homem era eu e igualmente não era. Aquela figura ali, de repente, acontecia, quase urgente para o que eu ainda não era.
Um velho atravessando a rua dizia de um contratempo mais que um tempo de espera. Nenhuma incerteza própria de qualquer momento poderia negar esse encontro com aquele velho que eu era e, entretanto, não podia.
A fé talvez pudesse desenhar a imemoriável experiência de alguma vida passada em que eu fosse este ser presente e uma outra existência ainda não chegada. Conveniente seria, ou mais confortável, até, o limite de acreditar. Aquele era o reflexo de alguém que, conforme as leis, dizia e negava a firme verdade das coisas, com mágica ou desconhecida sabedoria.
A razão, no entanto, ali se apresentava em duas figuras idênticas, num tempo desencontrado, por demais ilógico para se aceitar. Só mesmo num tempo diverso o mesmo corpo ocuparia um mesmo espaço. Um moço, o outro velho. Um ainda cedo, um outro que tardio.
Perdido estava de algum passado aquele homem que eu seria e quase atropelado por quem ele já fora, eu, seu passado agora presente na via dessa grande cidade.
Não se tratava de nenhuma criação fantástica, exercício de paralelismo, ou qualquer saudade. Eu era aquele homem. Ele era o que eu sou, em algum tempo, de algum modo remoto, uma transformação de mim mesmo, e de seu próprio passado. Eu via, como num espelho, o homem que eu não era, minha imagem refletida.
O contorno daquela figura não era incoerente com a obra que a compunha. A mesma matéria e o mesmo corpo, em certa medida metafisicamente complexa, mas ainda duas proposições que não se excluíam.
Feito a métrica e seu verso, éramos palavra de mesma poesia que somente aos olhos de um outro leitor poderia ser distância, qualquer criação diversa.
A inexorável mão do tempo esmagara a mim, tornando-me aquela velha criatura, por quem eu passava quase ao léu. Eu estava ciente, entretanto, de uma dupla existência, por acaso acontecida num lapso qualquer do tempo.
Tentei avaliar de outro modo a situação, visando a uma percepção imparcial e mais transparente. A verossimilhança ali estabelecida, de tal forma amalgamada na minha crítica e sóbria consciência, não deixava margem possível a qualquer negação daquele instante e daquela inusitada incoerência.
Éramos dois e éramos um. O que eu, de fato, era; e o que eu, de fato, seria.
Márcio Ares. 2011.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
AUTO-PIEDADE
Só agora dei por mim,
ao me esquecer de vez.
Lembrança é muita culpa guardada.
Márcio Ares. 2011.
ao me esquecer de vez.
Lembrança é muita culpa guardada.
Márcio Ares. 2011.
NOTURNO E SORUMBÁTICO
Tudo é muito triste quando morrer é a melhor notícia
do dia
Tudo é muito triste quando amanhã é só mais um dia
que morre
Márcio Ares. 2011.
do dia
Tudo é muito triste quando amanhã é só mais um dia
que morre
Márcio Ares. 2011.
AMOR SENTIDO
O amor que eu vi na TV
não era amor pra valer
era um amor mais bonito
era um amor que se liga e desliga
era amor sem perigo
era amor com juízo
não era amor
o horror que eu vi na TV
O olhar que amei na TV
não era olhar de doer
era olhar de sempre sorrir
era olhar de alegria ao partir
era um olhar vazio
olhar de sorte vil
não era olhar
o azar que eu vi na TV
Cego, o amor que eu vi na TV
sem amor é que se via
sem olhos é que se vê
Márcio Ares. 2011.
não era amor pra valer
era um amor mais bonito
era um amor que se liga e desliga
era amor sem perigo
era amor com juízo
não era amor
o horror que eu vi na TV
O olhar que amei na TV
não era olhar de doer
era olhar de sempre sorrir
era olhar de alegria ao partir
era um olhar vazio
olhar de sorte vil
não era olhar
o azar que eu vi na TV
Cego, o amor que eu vi na TV
sem amor é que se via
sem olhos é que se vê
Márcio Ares. 2011.
SEM SAÍDA
Ser amado é muito não
Feito poeira incrustada
No mais difícil da estrada
Na placa de contramão
Com o amor entendo mais
Aprendo que sou capaz
De ser o que as placas são
Saber o pó da viagem
Perder o rumo de casa
Morrer a morte do chão
Márcio Ares. 2011.
Feito poeira incrustada
No mais difícil da estrada
Na placa de contramão
Com o amor entendo mais
Aprendo que sou capaz
De ser o que as placas são
Saber o pó da viagem
Perder o rumo de casa
Morrer a morte do chão
Márcio Ares. 2011.
BEM DE REPENTE
Tem hora que eu tenho dó
de quem sabe o que é viver
de quem chega pra morrer
de quem ama e vive só
Tem hora que eu tento é ser
o que pode ser melhor
Márcio Ares. 2011.
de quem sabe o que é viver
de quem chega pra morrer
de quem ama e vive só
Tem hora que eu tento é ser
o que pode ser melhor
Márcio Ares. 2011.
SAUDADE LÁ DE CASA
Em cada casa de pai deve ter um curral,
um caminho rodeado de conselhos
e uma casa que ame, no final.
Em cada casa de pai deve ter um pai,
um jeito de servir a mesa,
memória de muito mais.
Márcio Ares. 2011.
um caminho rodeado de conselhos
e uma casa que ame, no final.
Em cada casa de pai deve ter um pai,
um jeito de servir a mesa,
memória de muito mais.
Márcio Ares. 2011.
ACORDE UM MAR A VIDA MAIA A COR
Por que envelhecer para o desejo que sempre se quis?
Por que chorar, sem a devida razão, por tudo que não se viveu?
Por que ser homem, se o animal ainda ruge em mim e se despede ao final de cada manhã, como se o dia, ou como se a vida, ainda fosse hoje?
Por que a velhice dos dias sombrios se o motivo é agora e a paixão ainda existe?
Por que a vida sem nenhum sorriso, modos, amor, juízo, quando a nódoa de existir foi ou sempre será o que não é preciso, ou que haverá de ser ainda numa outra vida?
Viver é quanto tempo? Qual a urgência do que não se deu ainda?
Os primeiros povos que o viram deram-lhe nome, certeza de um lugar, parte de algum futuro destino.
Este mar e tudo que se construiu é muito mais que se conta, é tudo que não se encontra nas ruínas que os livros dizem.
O povo de antes, muito antes do que se viu, sequer pensou a distância ora instaurada, mas então sabida. Limitou-se ao fim que em pouco, ou muito quando, se daria. Um tempo de pedras, talvez, antes do tempo do milho. O ciclo misturou-se ao sagrado e à sabedoria.
Dezembro de dois mil e doze, planetas que se avizinham, crenças que não se delatam, o medo antigo dos fortes, do fraco, e esse mar assistindo ao possível.
A vida outrora tão sábia agora não se adivinha.
O homem, raça inexata, sem saber chora a desgraça, que há milênios se anuncia.
Márcio Ares. 2011. Cancun, Península de Yucatán, México.
Por que chorar, sem a devida razão, por tudo que não se viveu?
Por que ser homem, se o animal ainda ruge em mim e se despede ao final de cada manhã, como se o dia, ou como se a vida, ainda fosse hoje?
Por que a velhice dos dias sombrios se o motivo é agora e a paixão ainda existe?
Por que a vida sem nenhum sorriso, modos, amor, juízo, quando a nódoa de existir foi ou sempre será o que não é preciso, ou que haverá de ser ainda numa outra vida?
Viver é quanto tempo? Qual a urgência do que não se deu ainda?
Os primeiros povos que o viram deram-lhe nome, certeza de um lugar, parte de algum futuro destino.
Este mar e tudo que se construiu é muito mais que se conta, é tudo que não se encontra nas ruínas que os livros dizem.
O povo de antes, muito antes do que se viu, sequer pensou a distância ora instaurada, mas então sabida. Limitou-se ao fim que em pouco, ou muito quando, se daria. Um tempo de pedras, talvez, antes do tempo do milho. O ciclo misturou-se ao sagrado e à sabedoria.
Dezembro de dois mil e doze, planetas que se avizinham, crenças que não se delatam, o medo antigo dos fortes, do fraco, e esse mar assistindo ao possível.
A vida outrora tão sábia agora não se adivinha.
O homem, raça inexata, sem saber chora a desgraça, que há milênios se anuncia.
Márcio Ares. 2011. Cancun, Península de Yucatán, México.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
AUTOCRÍTICA
Se depois de anos sem rumo, troco o assunto e o caminho
- e isso não conta pra se fazer um poema -
Sou eu um engano?
Meu verso é vazio?
Márcio Ares. 2011.
- e isso não conta pra se fazer um poema -
Sou eu um engano?
Meu verso é vazio?
Márcio Ares. 2011.
O QUE SOU
Não sei a dor do que eu quis
seria desamor dizê-lo arco-íris
que não coloriu
Márcio Ares. 2011.
seria desamor dizê-lo arco-íris
que não coloriu
Márcio Ares. 2011.
A LIBIDO COM FOME
Entre o teu cabelo e as tuas mãos
o meu chão de estrelas
rasgou teu mar, bebeu teus rios
secou teus copos, matou a sede
ficou solidão
céu vazio
Márcio Ares. 2011.
o meu chão de estrelas
rasgou teu mar, bebeu teus rios
secou teus copos, matou a sede
ficou solidão
céu vazio
Márcio Ares. 2011.
DESEJO CABOCLO
_Pra se ter um pouco de alegria,
tu bem sabe que a gente podia
fazer as natureza!
_Ta dizendo se nóis pode arrumar outro?
Ainda que nóis tenha uns tantos e eu tivesse mais uns dois,
vão viver aqui, plantado no meio do nada, comendo o quê?
Parindo mais outros, depois?
Márcio Ares. 2011.
tu bem sabe que a gente podia
fazer as natureza!
_Ta dizendo se nóis pode arrumar outro?
Ainda que nóis tenha uns tantos e eu tivesse mais uns dois,
vão viver aqui, plantado no meio do nada, comendo o quê?
Parindo mais outros, depois?
Márcio Ares. 2011.
BILHETE
O trem da coragem passa por aqui.
Pede passagem e acelera porque sabe ser outra a estação que me espera.
A bagagem do medo ficou valise de mão, para o devido controle.
Temer é uma estação deixada longe, muito longe, da razão.
De vez em quando me acena, me acolhe rápido, feito um trem,
confere o visto que o destino exige
vê que sou feliz, como nunca não,
e então se despede
assim, à toa.
Márcio Ares. 2011.
Pede passagem e acelera porque sabe ser outra a estação que me espera.
A bagagem do medo ficou valise de mão, para o devido controle.
Temer é uma estação deixada longe, muito longe, da razão.
De vez em quando me acena, me acolhe rápido, feito um trem,
confere o visto que o destino exige
vê que sou feliz, como nunca não,
e então se despede
assim, à toa.
Márcio Ares. 2011.
CARRUAGEM DAS HORAS
Sei lá, se de preguiça ou cansaço,
as muitas horas para tudo deixam mudo o mundo em que eu me acho
Tem hora pra dizer o poema, hora de arrumar as malas, rezar a novena,
hora da viagem, de ganhar, de perder e partir
hora de doer a dor,
hora pra o analista, pra o dentista, pra o balé,
hora de ir e ir e ir e ir e ir
e tem hora pra depois
Terá hora a vida serena, o silêncio que fala,
hora de se entender, de não sofrer e morrer de amor?
Tem hora que não tem, hora do vazio, hora de ninguém,
hora que se quer, hora que se basta, hora de se ver.
Tem hora que é do homem, hora que é da vida, hora de querer,
hora do Eclesiastes, do verso que arde, hora do além,
hora que se cala, hora que se vive, hora que se mata,
hora de ser e não ser.
Márcio Ares. 2011.
as muitas horas para tudo deixam mudo o mundo em que eu me acho
Tem hora pra dizer o poema, hora de arrumar as malas, rezar a novena,
hora da viagem, de ganhar, de perder e partir
hora de doer a dor,
hora pra o analista, pra o dentista, pra o balé,
hora de ir e ir e ir e ir e ir
e tem hora pra depois
Terá hora a vida serena, o silêncio que fala,
hora de se entender, de não sofrer e morrer de amor?
Tem hora que não tem, hora do vazio, hora de ninguém,
hora que se quer, hora que se basta, hora de se ver.
Tem hora que é do homem, hora que é da vida, hora de querer,
hora do Eclesiastes, do verso que arde, hora do além,
hora que se cala, hora que se vive, hora que se mata,
hora de ser e não ser.
Márcio Ares. 2011.
RÁPIDA VISITA
Depois que você partiu, fiquei sem onde.
Não sei mais quando passa dezembro ou abril.
Não sei mais quando posso chorar sem mentir.
Hei de voltar a sorrir, quando acabar a dor,
essa hóspede do tempo em que fui feliz.
Márcio Ares. 2011.
Não sei mais quando passa dezembro ou abril.
Não sei mais quando posso chorar sem mentir.
Hei de voltar a sorrir, quando acabar a dor,
essa hóspede do tempo em que fui feliz.
Márcio Ares. 2011.
DE PASSAGEM, DE PARTIDA
Aquele resto de I love escrito, na poeira do vidro, à beira da estrada,
não parece o demônio sorrindo as coisas que não podem ser?:
Quando o caminho me escurece a vista, fico entardecido.
Qualquer coisa antiga aponta o rumo da vida, a falta,
o amor escrito, a antiga estrada,
o céu por acontecer.
Márcio Ares. 2011.
não parece o demônio sorrindo as coisas que não podem ser?:
Quando o caminho me escurece a vista, fico entardecido.
Qualquer coisa antiga aponta o rumo da vida, a falta,
o amor escrito, a antiga estrada,
o céu por acontecer.
Márcio Ares. 2011.
DESDE QUANDO
a África se confunde com o meu chão
marrom multicor negra gente
o que é que eu sei dessas horas
senão beleza ritmo alegria?
o entendimento merece essa inteira lucidez
é de ser tão assim que eu desconheço
outro motivo para se viver
Márcio Ares. 2011.
marrom multicor negra gente
o que é que eu sei dessas horas
senão beleza ritmo alegria?
o entendimento merece essa inteira lucidez
é de ser tão assim que eu desconheço
outro motivo para se viver
Márcio Ares. 2011.
DECLARADO O AMOR
O quanto ainda amo só posso dizê-lo a você.
Vivi em tantos lugares que demorei a viver comigo.
E não estou certo de que isso tenha sido mais seguro; com certeza, mais tranqüilo.
Como algo que se desfaz entre o que penso e o que eu escrevo,
acordo para sempre essa falta de sono.
Agora eu sei e posso dizer.
O que não se perde está na lucidez.
A sanidade que me resta vem quando todos se calam
para que no silêncio o amor se instale
e tarde o tempo
e possa acontecer.
Márcio Ares. 2011.
Vivi em tantos lugares que demorei a viver comigo.
E não estou certo de que isso tenha sido mais seguro; com certeza, mais tranqüilo.
Como algo que se desfaz entre o que penso e o que eu escrevo,
acordo para sempre essa falta de sono.
Agora eu sei e posso dizer.
O que não se perde está na lucidez.
A sanidade que me resta vem quando todos se calam
para que no silêncio o amor se instale
e tarde o tempo
e possa acontecer.
Márcio Ares. 2011.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
CONFUSO
Eu desconfio que sim, eu quase penso que vou
Eu quase chego, sem fim, a esse tempo de dor
Eu sei que nada é mais nada, se eu não entendo esse amor
Eu choro de madrugada o tempo que não restou
Eu fico sonho largado porque você não ficou
Se você volta eu me planto, enquanto tenho raiz
O seu encanto é meu canto, confesso,
o verso que eu nunca quis.
Eu fico às margens da estrada, meus pontos incardeais,
eu erro o norte marcado, o sul me confunde mais
Eu sei que estrelas são marcas que eu não consigo entender.
Eu ando meio sem placas, caminho sem nem saber,
em qual das encruzilhadas eu me perdi de você.
Márcio Ares, 2011.
Eu quase chego, sem fim, a esse tempo de dor
Eu sei que nada é mais nada, se eu não entendo esse amor
Eu choro de madrugada o tempo que não restou
Eu fico sonho largado porque você não ficou
Se você volta eu me planto, enquanto tenho raiz
O seu encanto é meu canto, confesso,
o verso que eu nunca quis.
Eu fico às margens da estrada, meus pontos incardeais,
eu erro o norte marcado, o sul me confunde mais
Eu sei que estrelas são marcas que eu não consigo entender.
Eu ando meio sem placas, caminho sem nem saber,
em qual das encruzilhadas eu me perdi de você.
Márcio Ares, 2011.
SEM LUGAR
Existir, esse frio na espinha,
punhal de urgente poesia
agonia, alegria, sangria
esse guia em dasaviso
útero vazio, destino
Márcio Ares. 2011.
punhal de urgente poesia
agonia, alegria, sangria
esse guia em dasaviso
útero vazio, destino
Márcio Ares. 2011.
LAVADO DE AMOR
Parece que foi outro dia que eu a conheci água pra o meu deserto.
A falta desse rio singrava minha dor.
Qualquer porto era meu coração vazio.
De pedra, largado, o meu amor ficou no que foi caminho.
E você para sempre lembrada, muito além do rio.
Márcio Ares. 2011.
A falta desse rio singrava minha dor.
Qualquer porto era meu coração vazio.
De pedra, largado, o meu amor ficou no que foi caminho.
E você para sempre lembrada, muito além do rio.
Márcio Ares. 2011.
SEM VOLTA
No meio do caminho ficou a vontade.
- longe do inicio que me apaixonara, longe do fim que eu não sei mais -
No meio desse querer ficaram duas metades.
Livre, quem já não pode sê-lo.
Cativo, quem se fizera amado.
Márcio Ares. 2011.
- longe do inicio que me apaixonara, longe do fim que eu não sei mais -
No meio desse querer ficaram duas metades.
Livre, quem já não pode sê-lo.
Cativo, quem se fizera amado.
Márcio Ares. 2011.
INEXPLICADO
Marte sou eu, seco desse jeito,
cicatriz e muito gelo,
ébrio de má sorte, vida sem certeza,
longa viagem,
antigo estrangeiro.
Márcio Ares. 2011.
cicatriz e muito gelo,
ébrio de má sorte, vida sem certeza,
longa viagem,
antigo estrangeiro.
Márcio Ares. 2011.
NÃO MAIS
Esta noite os meus pés têm coragem.
Estou, como nunca, em minha casa.
Ou será minha morada coisa tão antiga que eu só possa dizê-lo da casa de meu pai?
Este lugar que ora me abriga foi por tempo demais o meu disfarce
- paredes feito o cais, que nunca me anunciaram o mar,
terra indescoberta, chão alheio de meu passo –
Ficaram represadas, ao longo do caminho, minhas muitas águas,
comportas que agora se libertam, sem pressa nem mágoa,
mas que não sabem o medo
porque o medo não pode mais.
Márcio Ares. 2011.
Estou, como nunca, em minha casa.
Ou será minha morada coisa tão antiga que eu só possa dizê-lo da casa de meu pai?
Este lugar que ora me abriga foi por tempo demais o meu disfarce
- paredes feito o cais, que nunca me anunciaram o mar,
terra indescoberta, chão alheio de meu passo –
Ficaram represadas, ao longo do caminho, minhas muitas águas,
comportas que agora se libertam, sem pressa nem mágoa,
mas que não sabem o medo
porque o medo não pode mais.
Márcio Ares. 2011.
DIVINO E ÁRIDO
Num olhar de ilha, quebrado de azul,
feito um homem livre reinvento o céu.
Longe, branco, um barco de pesca
avança preguiçoso, quase quieto.
E meu olhar se perde no azul de todo lado.
Esse vento fresco me acaricia de perto, alcança meu cabelo, meu peito aberto.
E vai ficando terra minha alma grega.
E vai ficando certo o meu lugar na terra.
Márcio Ares. 2011.
feito um homem livre reinvento o céu.
Longe, branco, um barco de pesca
avança preguiçoso, quase quieto.
E meu olhar se perde no azul de todo lado.
Esse vento fresco me acaricia de perto, alcança meu cabelo, meu peito aberto.
E vai ficando terra minha alma grega.
E vai ficando certo o meu lugar na terra.
Márcio Ares. 2011.
DE TEMPO EM TEMPO
Estou na indecisão de tudo, na esquina de todo entendimento.
Feito uma novela antiga, não me decido nunca.
Desacertadamente, mesclam-se as melhores imagens aos piores momentos.
O bem inalcançável salta de dentro da memória, quase ao alcance da minha razão
que de dentro de outros olhos agora é presente
do olhar que a si mesmo olha, sempre e quando e sempre me invento
de indecisão.
Márcio Ares. 2011.
Feito uma novela antiga, não me decido nunca.
Desacertadamente, mesclam-se as melhores imagens aos piores momentos.
O bem inalcançável salta de dentro da memória, quase ao alcance da minha razão
que de dentro de outros olhos agora é presente
do olhar que a si mesmo olha, sempre e quando e sempre me invento
de indecisão.
Márcio Ares. 2011.
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