terça-feira, 28 de junho de 2016
MAIS QUE PORQUÊ
se você me diz te amo
e eu não sei dizer te amo
se caí centavo pobre no cofre das mil moedas
ou caí de paraquedas nessa casa, nessa cama
você bem sabe o meu jeito
meus erros você conhece
na minha história nós somos
dois lindos que se merecem
Márcio Ares. 2016.
AQUI MESMO
o melhor e o pior do mundo
vive, logo ali, no quintal do nosso tempo
no avarandado perto da gente
na sala de estar sem rumo
quando o estranho ser que nós somos
já não habita o ser que se pergunta
fica o homem esse medo, esse drama
a vida muito sem nome
o melhor e o pior do mundo
Márcio Ares. 2016.
FLECHADO
assistir ao filme de nossas vidas
dura uma existência que mal pode ser lembrada
entre a mais bonita memória
e o chão de um pássaro de asa quebrada
sim, estamos velhos à beira do penhasco
reinaugurando a história dos acontecimentos
desaprendendo o longe
reinventando asas
porque a dor surpreende-se, descoberta,
lembrando jamais ter estado tão perto
dos momentos tantos de felicidade
Márcio Ares. 2016.
segunda-feira, 6 de junho de 2016
POR ONDE ANDAS, SERÁ?
sem que estivesse comigo
fiquei ficante a perigo
um onde mais sem lugar
fiquei sozinho por isso
pior que o próprio sumiço
fiquei amor sem amar
Márcio Ares. 2016.
domingo, 22 de maio de 2016
DEUS QUE ME OUÇA
A cabeça grita, meu filho!
E o corpo, eu te garanto, não ajuda!
Então, fica você aqui comigo, fica!
Um café com uma conversa bonita é de esquecer a tristeza
e pode mais do que o médico disse.
Um dia, ainda vão ensinar isso na escola:
tomar, de tanta em tantas horas,
uma ou duas doses de poesia
Márcio Ares. 2016.
QUASE DORMINDO
o aprendiz de feiticeiro dormia do outro lado da lua
só de madrugada ela viria
roçando-lhe a janela, insinuando-se, nua
mas sem aquela beleza que pouco antes tivera
não aprendera com ela o feitiço mais sublime
calada, fazer-se amada
mais velha, fazer-se linda
Márcio Ares. 2016.
AINDA
contra o chegante abismo que pode qualquer hora futura
a criatura se agarra a uma luz talvez um pouco difusa
e diz à loucura que o espera, com a mesma pressa do abismo,
que ainda existe, valente, como um guarda noturno
a esperança deste verso
e de mil outros versos se for preciso
até que a certeza de novo ilumine o tempo das criaturas
que fazem versos como quem constrói estradas
às margens do precipício
Márcio Ares. 2016.
sexta-feira, 13 de maio de 2016
PARA OS OLHOS QUE OLHAM
Passem por mim as pessoas más e aquelas de sérios escrúpulos
que eu terei tirado alguém das ruas e me deitado, lá,
na humanidade da minha culpa que estará no caminho
da falta de um futuro de alguém que se deixou ficar
Seremos eu e você ali desencontrados
no chão do esquecimento ou da mínima razão
para a minha vida, que é minha e de todo mundo,
universal e sozinha
Seja bom ou seja mal o espelho me olha a mim, e mesmo a ti,
e deixa, ali, quando por acaso passar,
um pouco do seu olhar que ainda sinta
um pouco de muito amar que ainda exista
um pouco de nós nesse possível lugar
Márcio Ares. 2016
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