domingo, 22 de maio de 2016

DEUS QUE ME OUÇA


A cabeça grita, meu filho!
E o corpo, eu te garanto, não ajuda!
Então, fica você aqui comigo, fica!
Um café com uma conversa bonita é de esquecer a tristeza
e pode mais do que o médico disse.
Um dia, ainda vão ensinar isso na escola:
tomar, de tanta em tantas horas,
uma ou duas doses de poesia

Márcio Ares. 2016.

QUASE DORMINDO


o aprendiz de feiticeiro dormia do outro lado da lua
só de madrugada ela viria
roçando-lhe a janela, insinuando-se, nua
mas sem aquela beleza que pouco antes tivera

não aprendera com ela o feitiço mais sublime
calada, fazer-se amada
mais velha, fazer-se linda

Márcio Ares. 2016.

AINDA



contra o chegante abismo que pode qualquer hora futura
a criatura se agarra a uma luz talvez um pouco difusa
e diz à loucura que o espera, com a mesma pressa do abismo,
que ainda existe, valente, como um guarda noturno
a esperança deste verso
e de mil outros versos se for preciso
até que a certeza de novo ilumine o tempo das criaturas
que fazem versos como quem constrói estradas
às margens do precipício

 Márcio Ares. 2016.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

PARA OS OLHOS QUE OLHAM


Passem por mim as pessoas más e aquelas de sérios escrúpulos
que eu terei tirado alguém das ruas e me deitado, lá,
na humanidade da minha culpa que estará no caminho
da falta de um futuro de alguém que se deixou ficar

Seremos eu e você ali desencontrados
no chão do esquecimento ou da mínima razão
para a minha vida, que é minha e de todo mundo,
universal e sozinha

Seja bom ou seja mal o espelho me olha a mim, e mesmo a ti,
e deixa, ali, quando por acaso passar,
um pouco do seu olhar que ainda sinta
um pouco de muito amar que ainda exista
um pouco de nós nesse possível lugar


Márcio Ares. 2016

quinta-feira, 21 de abril de 2016

DE OLHAR ASSIM



Onde, em que porto, qual acaso, estação
o amor me sorrirá com os olhos
e me dirá sem medo de amanhãs
um outro caminho bonito?

Que os dias mais tardem e manhã nenhuma veja descansar
o verso e a conversa de olhos muito pertos
feito o destino de um atalho feito
flor-delicadeza que na alma tivesse
um jeito de rir sem tristeza
farto de amor

Ah, ergam os fantasmas as suas correntes
e vivam depois, eternamente, a minha e a sua vida
porque o real da estrada pôs-se a olhar querente
sem dores nem esquecimentos
o exato momento de nós dois

Márcio Ares. 2016.

quinta-feira, 31 de março de 2016

NÃO SEI NADA DISSO



Para que eu soubesse o amor
eu o procuraria pelas ruínas da Síria
por Ciudad Juárez, entre os becos da Rocinha, além dos guetos de Angola
iria visitar a Índia, yoga ao pé do Nepal
faria verso em latim para algum mantra sagrado
acreditaria
de razão e alma

Para que eu soubesse o amor
eu o nomearia de carta marcada
diria os meus medos de viver sozinho
desaprenderia os meus bons modos
lançaria o ódio na cara dos santos
seria o velho na cartomante
não pensaria o mármore do inferno

Para que eu soubesse o amor
eu me renderia a qualquer encanto  
não seria o vazio que eu sou neste instante
e era mais feliz o  homem desta hora

Márcio Ares. 2016

OS FRUTOS QUE EU MAIS GOSTAVA



O meu pai, com os bolsos cheios de murici maduros,
me aguardava na porteira do curral
na hora exata de eu partir.
Fóramos duros, um com o outro, homens do mesmo e batido barro
como o cerrado seco e o travo dos muricis.
Eu retornava, sem me despedir, seguro da minha grande razão
até aquele momento de ele me entregar os frutos
até o inesperado ato de me olhar  fundo nos olhos
e sorrir.
Bênção, pai! Disse, ainda com a certeza do meu ódio bruto.
Não dava o braço a torcer
mesmo com os seus olhos de graça
botando as bênçãos em mim.

Márcio Ares. 2016.