quinta-feira, 21 de abril de 2016

DE OLHAR ASSIM



Onde, em que porto, qual acaso, estação
o amor me sorrirá com os olhos
e me dirá sem medo de amanhãs
um outro caminho bonito?

Que os dias mais tardem e manhã nenhuma veja descansar
o verso e a conversa de olhos muito pertos
feito o destino de um atalho feito
flor-delicadeza que na alma tivesse
um jeito de rir sem tristeza
farto de amor

Ah, ergam os fantasmas as suas correntes
e vivam depois, eternamente, a minha e a sua vida
porque o real da estrada pôs-se a olhar querente
sem dores nem esquecimentos
o exato momento de nós dois

Márcio Ares. 2016.

quinta-feira, 31 de março de 2016

NÃO SEI NADA DISSO



Para que eu soubesse o amor
eu o procuraria pelas ruínas da Síria
por Ciudad Juárez, entre os becos da Rocinha, além dos guetos de Angola
iria visitar a Índia, yoga ao pé do Nepal
faria verso em latim para algum mantra sagrado
acreditaria
de razão e alma

Para que eu soubesse o amor
eu o nomearia de carta marcada
diria os meus medos de viver sozinho
desaprenderia os meus bons modos
lançaria o ódio na cara dos santos
seria o velho na cartomante
não pensaria o mármore do inferno

Para que eu soubesse o amor
eu me renderia a qualquer encanto  
não seria o vazio que eu sou neste instante
e era mais feliz o  homem desta hora

Márcio Ares. 2016

OS FRUTOS QUE EU MAIS GOSTAVA



O meu pai, com os bolsos cheios de murici maduros,
me aguardava na porteira do curral
na hora exata de eu partir.
Fóramos duros, um com o outro, homens do mesmo e batido barro
como o cerrado seco e o travo dos muricis.
Eu retornava, sem me despedir, seguro da minha grande razão
até aquele momento de ele me entregar os frutos
até o inesperado ato de me olhar  fundo nos olhos
e sorrir.
Bênção, pai! Disse, ainda com a certeza do meu ódio bruto.
Não dava o braço a torcer
mesmo com os seus olhos de graça
botando as bênçãos em mim.

Márcio Ares. 2016.

DESALEGRAMENTO



Os homens deixam suas cavernas logo cedo
e seguem velozes contra o invento das horas
sobre as tantas rodas barcos helicópteros
cheios de pressa e razão

A compaixão não os comove
nem a poesia nem a beleza nem o dó
tão seguros de si mesmos em seus próprios anzóis
engasgados de falta e de não saber
o oceano do mistério que os engole

No impossível futuro que se inventa
o afeto perdeu-se no triste da ausência
e tudo se confunde na falta que os aflige
até a mais remota das memórias

Márcio Ares. 2016.

FÔLEGO



eu não sei o tempo de ser amarelo
não paguei o preço de uma vida à toa
não me entristeci por qualquer coisa pouca
fui louco de jogar palavra
disposto para muita guerra
coragem me deixou mais torto
sofri por não sofrer calado
briguei a briga dos fracos
culpei os muito culpados
mas sempre dei a minha outra face
vivi dor que não se compreende
amei amores que partiam
rompi com as conveniências
disse maldito o inferno dos outros
e, dentro de mim, o céu aprendendo

Márcio Ares. 2016