sábado, 1 de setembro de 2012

NA CRUZ DO MEIO


Falar com pai tem o peso do mundo, o risco do não, a força do braço.
Dizer à mãe é conforto, é leveza de alma, é peso nenhum.
Calar-se é caminho sem rumo, angústia no peito, dor demais guardada.
E quantas vezes, feito faca, feito coisa ruim, a palavra nos  sufoca!?

Diz, quem nunca sofreu calado, sem saber o que dizer, feito agora!?
Diz, quem nunca se viu na linha do corte, sem certeza de nada!?
Diz, quem nunca jogou pedra, mesmo sabendo o mais sem jeito, o pior das horas!?
Diz, quem nunca amargou algum pedaço de estrada, um susto, um medo,
um não ter pra quem dizer, como dizer, qual a melhor forma...

Ah, meu pai! Ah, minha mãe!


Márcio Ares. 2012.

DESORIZONTADO


Dói-me tanto morrer que eu nem vivo
Sou puro horror e motivos
O mais óbvio desatino
O imprevisto por acontecer
Um homem triste de dar dó
Um descrente menino

Nenhuma alegria me comove
O dia tarda um longo e incerto caminho
Até a noite mais longa e menos certa
De sombras e arrependimentos
Porque hoje, igualzinho a ontem,
Não fui capaz de entardecer com as horas do tempo
E envelheci muito antes
Como faço, desde sempre


Márcio Ares. 2012.

OBSCURO


Oh, Senhor
Dá-me a liberdade que um homem merece
E alegria que nos convém
Nenhuma pressa para o pronto final
A mais santa paciência

Um tempo de esperar, feliz,
O milagre do entendimento


Márcio Ares. 2012.

DESMEDIDO


Não precisa imaginar um vício, sem conforto
Não me queira com força, mas com gosto
Me faz pequenas carícias, mais do que eu preciso
Beija o meu umbigo
Lambe o meu pescoço
Me deixa louco, mas com jeito
Amarra-me com o cinto, mede a minha força
Fala ao meu ouvido um verso de improviso
Engole a minha língua, come a minha boca
mama o meu mamilo que eu também tenho peito
Me empurra ao paraíso, onde a fruta é pouca
E muito me sustenta até querer de novo
Depois disso, grita pelo amor
E agradece o gozo depois de outro gozo
Porque Deus já disse que é pra vida toda

Recomeça o dia com a cabeça tonta
Enquanto a alma sabe a febre, o gosto,
o prazer do socorro, o escândalo pronto
querendo na pele, no pelo, no mais recôndito,
o que pode ser vício desde muito antes
o que pode o corpo

 
Márcio Ares. 2012.

SAZONAL


Um toque de carne, ossos, tristeza eterna
olhos de um frio antártico
mãos de carinho desértico
e um coração de horror e pedra


Âncora lançada em minhas costas rasas
rio de amor assoreado
à espreita, à espera


Márcio Ares. 2012.